OS JESUÍTAS ESCOLHERAM UM LADO

E esse lado é o de Barrabás. Dois mil anos depois da passagem bíblica em que os principais sacerdotes e anciãos persuadiram a multidão a libertar Barrabás e condenar Jesus, a Província dos Jesuítas do Brasil, acompanhada de outras entidades da Companhia de Jesus, divulga a carta “Um voto pela democracia”, entre os dois turnos das eleições presidenciais de 2026. Ao emprestar sua autoridade religiosa a um pronunciamento que concentra críticas na direita, com o claro propósito de favorecer a esquerda, a direção jesuíta compromete a independência moral que deveria preservar. Não se trata de simples omissão editorial, mas de uma escolha política feita sob o prestígio de uma instituição fundada há quase cinco séculos.
A carta é parcial e pusilânime. Seus autores empregam a expressão “extrema direita” para desqualificar conservadores e integrantes do bolsonarismo, associando-os ao autoritarismo e à ameaça democrática. A finalidade política dessa linguagem é estigmatizar um dos campos da disputa e favorecer seu adversário, sem que os signatários assumam expressamente apoio a Lula. Mais revelador do que aquilo que dizem, entretanto, é o conjunto de questões que deixam de enfrentar. O documento reivindica autoridade moral para julgar determinados comportamentos políticos, mas não submete o campo beneficiado por sua manifestação ao mesmo escrutínio.
A indignação de pais de alunos e ex-alunos dos colégios jesuítas expõe a dimensão institucional dessa escolha. Em Porto Alegre, a deputada estadual eleita Ali Klemt, do PL, mãe de alunos do Colégio Anchieta, questionou publicamente se a escola endossa o manifesto e cobrou explicações sobre a ausência de condenações ao comunismo e ao socialismo marxista. A controvérsia alcança também o universo educacional representado pelo Colégio Catarinense, em Florianópolis, pelo Medianeira, em Curitiba, pelo São Luís, em São Paulo, e pelo Santo Inácio, no Rio de Janeiro. As escolas não se confundem com as entidades signatárias, mas o prestígio compartilhado da Companhia de Jesus confere relevância aos questionamentos sobre a participação de seus organismos na disputa eleitoral.
A primeira omissão atinge o núcleo da doutrina católica. A carta silencia sobre a defesa da vida desde a concepção e a condenação do aborto, assim como sobre o matrimônio, a família, a proteção da infância, a autoridade dos pais na educação dos filhos e a liberdade das instituições confessionais. São ensinamentos fundamentais da Igreja, cuja consideração exigiria examinar também as posições da candidatura petista. A seleção dos temas religiosos, portanto, integra a controvérsia sobre os critérios empregados no pronunciamento.
A política sobre drogas ficou igualmente fora do exame. A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o porte de maconha, as competências do Congresso e a expansão do narcotráfico envolvem questões de segurança e dignidade humana. Nas comunidades mais vulneráveis, o domínio territorial das facções, o recrutamento de jovens e a violência cotidiana demonstram que a defesa dos pobres também passa pela proteção contra o crime organizado.
A corrupção apresenta outro ponto central. O mensalão e os esquemas investigados na Petrobras marcaram os governos petistas, resultando em condenações, acordos judiciais e recuperação de recursos públicos. O desvio de dinheiro destinado a hospitais, escolas, saneamento e infraestrutura compromete diretamente os serviços de que depende a população. A justiça social não pode ser dissociada da honestidade na administração do patrimônio coletivo.
A trajetória judicial de Lula acrescenta complexidade a esse debate. Ele foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, em sentença confirmada pelo TRF4 e mantida pelo STJ, que reduziu a pena. Também recebeu condenação no processo do sítio de Atibaia, confirmada pelo TRF4. Após 580 dias de prisão, foi libertado em 2019, em decorrência da mudança de entendimento do STF sobre a execução antecipada da pena. Em 2021, suas condenações na Lava Jato foram anuladas por incompetência da Justiça Federal de Curitiba, tendo o Supremo reconhecido também a suspeição de Sergio Moro no caso do tríplex. Não houve absolvição de mérito nessas decisões, cujos efeitos incluíram o restabelecimento dos direitos políticos que permitiram sua candidatura presidencial em 2022.
Em contraste, Jair Bolsonaro enfrentou restrições judiciais que alcançaram sua comunicação pública e o uso das redes sociais. As limitações impediram sua participação livre na mobilização dos apoiadores durante a campanha de Flávio Bolsonaro. A influência dessas restrições sobre o resultado do primeiro turno constitui questão importante para compreender as condições da disputa. Ao abordar riscos à democracia, a carta deixa de examinar esse contraste entre as trajetórias judiciais e políticas dos dois ex-presidentes.
As declarações recentes da lobista Roberta Luchsinger acrescentam outro episódio ao debate sobre o entorno presidencial. Em entrevista à CNN Brasil, ela acusou Lula de mentir sobre as atividades do filho, Lulinha, afirmou conhecer reuniões dele com ministros e integrantes do alto escalão federal e declarou possuir informações comprometedoras ainda não divulgadas. Roberta também afirmou temer pela própria vida e pela segurança das duas filhas. Lula contestou suas declarações. A gravidade das acusações exige esclarecimento e atenção pública.
A desinformação eleitoral exige o mesmo rigor de todos os envolvidos. André Janones, figura central da comunicação digital de Lula em 2022, teve publicações falsas e enganosas documentadas por organizações de verificação. Em 2026, organizou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com milhões de participantes, alvo de denúncias da campanha de Flávio Bolsonaro e de duas determinações de suspensão pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. A carta denuncia ameaças à democracia, mas deixa de examinar essas práticas e controvérsias de comunicação eleitoral. Uma defesa consistente da verdade não pode selecionar seus critérios conforme a identidade partidária dos envolvidos.
A dimensão internacional expõe outra ausência relevante. Lula mantém relações diplomáticas com Cuba, Venezuela e Nicarágua, países marcados pela repressão de opositores e por restrições às liberdades individuais. A Nicarágua deveria merecer atenção particular da Companhia de Jesus: em 2023, o regime de Daniel Ortega confiscou a Universidade Centro-Americana, em Manágua, administrada pelos próprios jesuítas, depois de sucessivas perseguições contra religiosos e instituições católicas. A liberdade religiosa não perde importância quando seus violadores mantêm relações com o governo brasileiro.
A defesa dos pobres, trabalhadores, indígenas e demais grupos vulneráveis não pertence exclusivamente à esquerda. Esses valores integram a tradição cristã muito antes do surgimento do socialismo. Conservadores e liberais também apresentam propostas voltadas à prosperidade e à proteção social, apoiadas em liberdade econômica, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e geração de empregos. As divergências entre as correntes políticas residem nos instrumentos adotados e nos resultados alcançados, não na propriedade exclusiva de virtudes morais.
Essa discussão alcança a economia e o meio ambiente. Em 2025, a Serasa Experian registrou 977 processos de recuperação judicial envolvendo 2.466 empresas, enquanto o endividamento público, o custo do crédito e os resultados fiscais continuaram relevantes para o debate econômico. Na Amazônia, segundo o MapBiomas, aproximadamente 15,8 milhões de hectares foram queimados em 2024, contra cerca de 3,1 milhões em 2025. Justiça social e sustentabilidade exigem avaliar resultados concretos, sem opor artificialmente a proteção ambiental à habitação, ao saneamento, à infraestrutura e à atividade produtiva.
A seleção das referências pontifícias reforça a necessidade de considerar a doutrina católica em sua amplitude. A carta recorre aos ensinamentos sociais de Francisco e a manifestações de Leão XIV sobre extremismo político, mas deixa de desenvolver o legado de São João Paulo II, protagonista da resistência ao comunismo no Leste Europeu, e de Bento XVI, que denunciou a ditadura do relativismo. Solidariedade, subsidiariedade, bem comum, defesa da vida, dignidade da família e liberdade religiosa integram uma tradição que ultrapassa as conveniências partidárias.
Fundada por Santo Inácio de Loyola em 1540, a Companhia de Jesus legou ao mundo extraordinário patrimônio intelectual e humanístico. Entre seus representantes mais notáveis está o Padre Antônio Vieira, que enfrentou o Tribunal do Santo Ofício em defesa dos cristãos-novos perseguidos pela Inquisição portuguesa. Sua coragem diante das autoridades permanece como exemplo de independência de consciência. O discernimento inaciano exige examinar contradições e enfrentar o poder, inclusive quando isso contraria as próprias afinidades ideológicas.
A advertência de Isaías 5:20 dirige-se àqueles que chamam o mal de bem e o bem de mal, transformando as trevas em luz e a luz em trevas. Na Segunda Epístola a Timóteo, capítulo 3, a descrição da corrupção moral inclui pessoas que conservam aparência de religiosidade, mas negam sua força espiritual. Ambas as passagens remetem à responsabilidade de manter coerência entre os princípios proclamados e as escolhas realizadas em seu nome.
Diante de todas essas questões, permanece a pergunta dirigida às entidades responsáveis pela carta: os jesuítas continuarão a apoiar Lula?
