Perspectiva Política: o Congresso já está em disputa

Três candidaturas movimentam o Senado, a oposição teme os efeitos do voto secreto e Hugo Motta amplia sua vantagem na Câmara.

Três candidatos e muitos votos cruzados

A disputa pela Presidência do Senado ganhou mais uma concorrente. Além de Davi Alcolumbre, que busca a reeleição, e Rogério Marinho, nome que deverá ser lançado pelo PL, a senadora Tereza Cristina confirmou que pretende permanecer na disputa. A posição não é totalmente nova, mas agora ganha maior relevância porque não houve acordo para unificar as candidaturas de oposição.

O fato político mais interessante é que Tereza Cristina pertence ao Progressistas, partido que integra com o União Brasil de Alcolumbre a Federação União Progressista. A direção da federação já declarou apoio formal à reeleição do atual presidente do Senado, mas Tereza mantém sua candidatura e afirma que a decisão caberá individualmente aos 81 senadores.

As contas apresentadas pelos candidatos também demonstram como a disputa está aberta. Alcolumbre e Marinho afirmam possuir aproximadamente 48 votos, embora parte dos mesmos senadores apareça nas duas listas. Alcolumbre também busca apoio dentro do próprio PL, partido de seu principal adversário.

Como o voto é secreto, apoio partidário não representa garantia de voto. Todas as atenções estarão voltadas para as dissidências — chamadas popularmente de “traições”. Com três candidaturas, bancadas divididas e votos contabilizados por mais de um concorrente, tudo poderá acontecer até a abertura das cédulas.


O alerta de Eduardo Girão

Em entrevista ao Jornal da Cidade Online, o senador Eduardo Girão afirmou categoricamente que, se os parlamentares não apresentarem publicamente suas cédulas, Davi Alcolumbre será reeleito presidente do Senado. Para Girão, o voto declarado seria a única forma de impedir dissidências silenciosas dentro das bancadas que formalmente apoiam outros candidatos.

A posição não é nova. Na eleição de 2025, Girão já havia defendido o voto aberto e questionado por que os senadores não poderiam mostrar suas cédulas, como ocorreu em 2019. Naquela ocasião, Alcolumbre foi eleito com 73 votos, enquanto Girão e Marcos Pontes receberam quatro votos cada.

O senador reconhece a capacidade de articulação de Alcolumbre e a força das negociações individuais favorecidas pelo voto secreto. Por isso, a oposição prepara uma estratégia para que seus integrantes revelem publicamente a escolha antes de depositar a cédula na urna.

A declaração de Girão demonstra que a oposição não teme apenas a força partidária de Alcolumbre. Teme principalmente aquilo que poderá acontecer longe dos olhos do eleitor. No Senado, apoio anunciado não significa voto confirmado — e o sigilo transforma cada cédula em uma incógnita.


Pragmatismo na Câmara

Na Câmara dos Deputados, o cenário é diferente daquele observado no Senado. Hugo Motta caminha para ser reeleito com tranquilidade, sustentado por um amplo bloco de partidos de centro e pelo apoio da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. A composição poderá alcançar mais de 300 deputados.

O PL terá a maior bancada individual da Casa, com 121 deputados, mas não possui condições de construir sozinho uma maioria. Por isso, a tendência é apoiar Motta e participar da composição. O cálculo é pragmático: garantir espaços na Mesa Diretora e nas principais comissões, especialmente na Comissão de Constituição e Justiça. Fora do bloco, mesmo sendo a maior legenda, o partido perderia prioridade na escolha desses postos.

Existe ainda um efeito simbólico. Se o PL ficar fora da articulação, PT, esquerda e Centrão poderão dizer que derrotaram e isolaram a maior bancada da Câmara. Participando da composição, o partido também fará parte da eleição e da vitória de Hugo Motta.

Pode parecer apenas uma questão de narrativa, mas política também é construída por símbolos. Entre disputar sem condições de vencer e participar da maioria com espaços de poder, o PL deverá escolher o caminho do pragmatismo.

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