Lógica Ilógica
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

– Quem disse que eu quero ganhar a eleição? – A pergunta do prefeito é retórica, mas enfática.
O político respondia não apenas aos meus questionamentos da presente campanha eleitoral, mas a muitas outras perguntas que, há anos, embaralhavam uma lógica que eu não compreendia.
A possibilidade de reeleição ainda não existia. Ignorando outro correligionário com reais possibilidades de se tornar seu sucessor, o prefeito da pequena cidade do interior escolhera como candidato o secretário de Obras. Sujeito desconhecido, sem brilho, sem carisma. Fadado a ser derrotado pela coligação adversária.
– Não tenho nada a ganhar se o “meu” candidato ganhar a eleição. – O prefeito continuou seu raciocínio… – Ele acabará se tornando o novo líder da comunidade e do partido. Se der certo, o mérito será dele. Se der errado, o culpado serei eu. Daqui a dois anos, ninguém mais se lembrará de mim. No entanto, se perder a eleição, acabo líder da oposição. Com chances de retornar ao poder, na próxima eleição.
A lógica dele era simplista, mas real. E me remeteu ao passado quando, jovem secretário de Estado, não compreendia as disputas – muitas delas rancorosas e fratricidas – entre correligionários do mesmo partido.
Na ocasião, um experiente e sincero “político de bastidores” tentava me explicar o que eu tinha dificuldade de compreender:
– A lógica da política antecede a disputa com adversários. Para ser vitorioso, um político precisa antes vencer os amigos, dentro do próprio partido. Na iniciativa privada, você pode brigar com seu sócio, separar-se dele, montar seu próprio negócio; sempre haverá espaço para os dois. Na política não é assim. Só há lugar para um prefeito, um governador, um presidente. Para ascender a cargo executivo, a criatura só tem um caminho: matar o criador. Não há lugar para os dois. No caso do legislativo, a situação é ainda mais complicada. Vereadores e deputados são eleitos em nominata proporcional. Primeiro você tem que garantir espaço na legenda. Normalmente há mais candidatos que vagas. Assim, para integrar a legenda, é preciso “desalojar” amigos. Garantida a legenda, os eleitos nem sempre são os que conseguem maior votação individual. O coeficiente eleitoral determina a diplomação dos mais votados de cada partido. O que leva seu correligionário a ser seu concorrente direto, muito mais perigoso que os adversários. Resumo da questão: o colega de partido é seu principal adversário…
Lição de difícil entendimento, mas fundamental para compreender a “lógica” da política…
