Carne brasileira: com cota esgotada, é hora de negociar com a China

Brasil atingiu o limite anual estabelecido pelos chineses e exportações excedentes passam a enfrentar sobretaxa adicional de 55%; questão deve ser tratada tecnicamente, como defesa dos interesses brasileiros.

O momento é difícil para os exportadores brasileiros de carne bovina.

O Brasil atingiu 100% da cota estabelecida pela China para as importações de carne bovina brasileira em 2026, fixada em aproximadamente 1,106 milhão de toneladas.

Dentro desse limite, a tarifa de importação é de 12%. A partir de 1º de outubro, os volumes que excederem a cota estarão sujeitos a uma sobretaxa adicional de 55%.

Na prática, a carga tarifária sobre o excedente chega a 67%.

O problema é relevante porque estamos falando do principal mercado internacional da carne bovina brasileira.

A China respondeu por aproximadamente 48% das exportações brasileiras do produto em 2025, dimensão suficiente para demonstrar o peso de qualquer mudança nas condições de acesso àquele mercado.

Uma sobretaxa adicional de 55% altera significativamente a competitividade do produto brasileiro e atinge diretamente frigoríficos, produtores e toda uma cadeia econômica construída em torno das exportações.

É, portanto, um assunto que exige atenção do governo brasileiro.

E precisa ser tratado exatamente pelo que representa:

uma questão comercial.

O Brasil mantém uma relação econômica de enorme importância com a China. Isso não significa concordância automática entre os dois países em todas as questões.

Parceiros comerciais também possuem interesses diferentes.

Cabe à diplomacia brasileira justamente negociar quando esses interesses entram em conflito.

O governo brasileiro já iniciou tratativas com as autoridades chinesas para buscar uma solução para a limitação imposta às exportações. Até agora, entretanto, não houve uma flexibilização capaz de evitar a incidência da sobretaxa sobre os volumes excedentes.

É nesse ponto que o trabalho precisa continuar.

Com argumentos técnicos.

Com dados.

Com diplomacia.

E defendendo os interesses do Brasil.

Não deveria existir diferença de postura porque do outro lado da mesa está a China, os Estados Unidos ou qualquer outra potência econômica.

Quando barreiras comerciais atingem empresas e produtores brasileiros, a responsabilidade do Estado é defender condições adequadas de acesso aos mercados.

Política externa comercial não deveria ser tratada como extensão de preferências partidárias ou ideológicas.

Países negociam de acordo com seus interesses.

A China protege seus produtores.

Os Estados Unidos protegem seus produtores.

A União Europeia protege seus produtores.

O Brasil também precisa defender os seus.

Isso não significa hostilidade contra a China.

Muito menos questionar a importância da relação comercial entre os dois países.

Significa exatamente o contrário: utilizar essa relação para construir uma solução negociada para um problema que passou a atingir diretamente um importante setor da economia brasileira.

A carne bovina é um dos produtos de maior relevância na pauta de exportações do agronegócio nacional.

Existe produção, existe demanda chinesa e existe uma relação comercial consolidada.

O problema agora é a barreira criada pela cota e, principalmente, o peso da tarifa incidente sobre aquilo que ultrapassar esse limite.

Uma sobretaxa adicional de 55% não é um detalhe.

É um obstáculo comercial relevante.

E obstáculos comerciais dessa dimensão precisam estar na mesa da diplomacia brasileira.

Sem discursos ideológicos.

Sem preferências partidárias.

Sem escolher parceiros comerciais pela afinidade política de seus governos.

A mesa deve ser técnica. O interesse a ser defendido deve ser o brasileiro.

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