Irani Papel e Embalagem — da Campina da Alegria ao papel que sustenta a economia real

Em 6 de junho de 1941, na então Campina da Anta, hoje Campina da Alegria, em Vargem Bonita, no Meio-Oeste catarinense, nascia uma das histórias industriais mais simbólicas de Santa Catarina. A Irani começou a partir de uma expedição liderada por Alfredo Fedrizzi, enviada por empresários gaúchos em busca de terras com pinheirais para instalar uma fábrica de papel. O lugar escolhido, junto ao Vale do Rio do Peixe, era de difícil acesso, cercado por matas, várzeas e montanhas. Mas tinha o que aquela geração precisava: matéria-prima, água, energia possível e gente disposta a desbravar.

A origem da Irani se confunde com a própria formação da comunidade. Os primeiros ranchos de madeira, erguidos às margens do rio da Anta, deram origem à vila de Campina da Alegria, onde boa parte da vida local passaria a girar, direta ou indiretamente, em torno da fábrica. Em uma época marcada pela Segunda Guerra Mundial e pela dificuldade de importar papel e celulose, o Brasil precisava criar capacidade produtiva própria. A Irani nasceu dentro desse esforço: fabricar no país aquilo que antes dependia de navios, rotas externas e fornecedores distantes.

O começo não foi simples. Parte dos equipamentos importados naufragou em um navio atingido por submarinos alemães, o que obrigou a empresa a improvisar com maquinário nacional. Antes mesmo de produzir papel com celulose em escala, a Irani precisou usar papéis velhos e pasta mecânica como insumo. Dois anos depois, com a inauguração da Máquina de Papel nº 1, a produção ganhou novo patamar. A primeira remessa saída da fábrica foi enviada à Editora Globo, um detalhe que ajuda a medir a dimensão simbólica daquele início: do interior catarinense saía papel para imprimir cultura, informação e literatura.

A década de 1950 foi de superação. A fábrica estava distante dos principais mercados consumidores e enfrentava limitações logísticas, tecnológicas e de mão de obra. Ainda assim, avançou. Em 1953, inaugurou a usina hidrelétrica São Luiz, em Ponte Serrada, dobrando a capacidade energética da unidade em relação à usina anterior. Em 1954, montou a Máquina de Papel nº 2, em um processo feito com muito esforço manual. Antes mesmo de leis ambientais federais de reflorestamento, a companhia já promovia plantios de araucária e pinus, mostrando que o futuro da indústria dependeria de planejamento florestal.

Ao longo das décadas, a Irani deixou de ser apenas uma fábrica de papel instalada no interior e passou a formar um ecossistema industrial. Produziu papéis para embalagem, chapas, caixas de papelão ondulado, soluções para diferentes setores e, principalmente, criou uma cultura de integração entre floresta, energia, fábrica, logística e cliente. A unidade catarinense de Campina da Alegria, às margens da BR-153, segue como célula produtora de papéis e embalagens da companhia, mantendo viva a ligação entre a empresa e o território onde tudo começou.

Em 1994, o Grupo Habitasul assumiu o controle acionário da Irani, abrindo um novo ciclo de desenvolvimento empresarial. Depois vieram modernizações, expansão de unidades e maior profissionalização de governança. A companhia passou a atuar em diferentes estados: além das operações em Santa Catarina, mantém presença em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com unidades de papel, embalagem, atuação florestal e escritórios em Joaçaba e Porto Alegre. Essa geografia mostra uma empresa que nasceu catarinense, cresceu regionalmente e se consolidou como uma das forças nacionais do setor de papel e embalagens sustentáveis.

A sustentabilidade, no caso da Irani, não surgiu como discurso recente. Ela faz parte da própria lógica do negócio. Em 2006, a companhia se tornou a primeira indústria de papel e celulose do Brasil — e a segunda do setor no mundo — a obter créditos de carbono emitidos pelo Protocolo de Kyoto, no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo aprovado pela ONU. Anos depois, a empresa também passou a destacar a economia circular como base de seu modelo, com mais de 70% da produção de papel e papelão ondulado oriunda da reciclagem, segundo divulgação institucional.

O ciclo mais recente de crescimento tem nome: Plataforma Gaia. Lançada como um portfólio de projetos para ampliar competitividade, capacidade produtiva e suficiência energética, a Gaia concentra investimentos em unidades como Campina da Alegria, Indaiatuba e Santa Luzia. Entre os projetos estão expansão de embalagens, reformas de máquinas de papel, repotenciação de usinas, automação e modernização industrial. Em 2026, a própria empresa registrava projetos em andamento como a repotenciação São Luiz, a nova impressora FFG Dual Slotter, a reforma da MP#5 e a expansão Papel MG.

Os resultados recentes mostram que a estratégia vem sendo acompanhada por disciplina operacional. Em 2025, a Irani encerrou o ano com receita líquida de R$ 1,7 bilhão, alta de 8,4% em relação a 2024, e EBITDA ajustado de R$ 539 milhões, avanço de 11,4%, com margem de 32%. O lucro líquido reportado foi de R$ 242,1 milhões, impactado por efeitos de base comparativa, mas o resultado recorrente sem ativos biológicos avançou, segundo a própria divulgação financeira.

Em 2026, a empresa também aprovou o Projeto Gaia XII, de expansão da unidade de papel em Minas Gerais, com R$ 514 milhões de capex bruto e previsão de conclusão até 2029. O projeto prevê reforma de máquina, nova caldeira, estação de tratamento de efluentes, automação e melhorias de infraestrutura, além de aumento estimado de capacidade produtiva de aproximadamente 36 mil toneladas por ano. No mesmo contexto, a companhia anunciou estudos para a Plataforma Neos, um novo ciclo de investimentos voltado ao crescimento orgânico.

Mas, como em todas as grandes histórias empresariais desta série, os números contam apenas parte da trajetória. A Irani é feita de pessoas: operadores de máquinas, técnicos de manutenção, engenheiros, profissionais de florestas, equipes de logística, trabalhadores das embalagens, pesquisadores, gestores, motoristas e comunidades que cresceram ao redor da fábrica. Em Campina da Alegria, a indústria não é apenas um CNPJ. É referência de emprego, formação, renda, memória e pertencimento.

Há algo de profundamente simbólico em uma empresa que nasceu para produzir papel em uma região isolada e, oito décadas depois, segue relevante em um mundo que exige embalagens mais sustentáveis, rastreabilidade, eficiência energética e menor impacto ambiental. O papelão ondulado que sai das linhas da Irani pode embalar alimentos, medicamentos, eletrodomésticos, peças, e-commerce, produtos industriais e itens de consumo diário. Quase nunca aparece como protagonista. Mas sem embalagem, a economia não se move com segurança.

Linha do tempo — marcos essenciais
06/06/1941 — Fundação da Irani Papel e Embalagem na localidade de Campina da Anta, depois Campina da Alegria, hoje Vargem Bonita (SC).
1942 — Chegada dos primeiros equipamentos, em meio a dificuldades provocadas pela Segunda Guerra Mundial.
Década de 1940 — Inauguração da Máquina de Papel nº 1; primeira remessa enviada à Editora Globo.
1953 — Inauguração da usina hidrelétrica São Luiz, em Ponte Serrada (SC), reforçando a autossuficiência energética da fábrica.
1954 — Montagem da Máquina de Papel nº 2, em processo marcado por forte esforço manual dos colaboradores.
1994 — Grupo Habitasul assume o controle acionário da Irani, abrindo novo ciclo empresarial.
2006 — Irani obtém créditos de carbono pelo Protocolo de Kyoto, marco nacional e internacional no setor.
2020 — Lançamento da Plataforma Gaia, maior ciclo recente de investimentos da companhia.
2025 — Receita líquida de R$ 1,7 bilhão e EBITDA ajustado de R$ 539 milhões.
2026 — Aprovação do Projeto Gaia XII, com investimento bruto previsto de R$ 514 milhões, e anúncio dos estudos da Plataforma Neos.

Mais do que uma sequência de marcos industriais, a história da Irani Papel e Embalagem é um retrato do que Santa Catarina constrói quando une coragem, floresta, energia, tecnologia e gente. A empresa nasceu em uma vila que precisou ser aberta no meio da mata e se tornou referência nacional em papel e embalagens sustentáveis.

Fica aqui o reconhecimento aos desbravadores de 1941, aos trabalhadores que montaram máquinas com as próprias mãos, às gerações que mantiveram a fábrica viva e às equipes que hoje operam um negócio moderno, competitivo e conectado à economia circular. Porque há empresas que aparecem pela marca na embalagem; e há empresas, como a Irani, que mostram sua grandeza justamente fazendo a embalagem existir — com qualidade, responsabilidade e história.

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