A CORRIDA DE IA E A GEOPOLÍTICA

Em “O PARADOXO DA CORRIDA DE IA”, publicado anteriormente, tratei da contradição que começa a envolver as empresas que estão na fronteira da inteligência artificial: todas têm razões para continuar acelerando, mas os próprios pesquisadores e executivos que participam dessa corrida reconhecem que os sistemas estão avançando mais rapidamente do que a capacidade de compreender e controlar seus riscos. A saída de Jacob Coxon da Anthropic, depois de ter trabalhado também na OpenAI, foi um dos sinais mais eloquentes dessa inquietação. Coxon afirmou que as duas empresas estavam correndo em direção à superinteligência autoaperfeiçoável e, na sua avaliação, não estavam agindo de maneira responsável. Desde então, o debate ganhou outra dimensão. Dario Amodei, da Anthropic, passou a defender uma desaceleração do desenvolvimento dos modelos mais avançados, posição que recebeu o apoio de Sam Altman, da OpenAI, e de Elon Musk. O que antes podia parecer a preocupação isolada de alguns pesquisadores passou a ser admitido pelos próprios protagonistas da corrida.

Porém, Trump discordou e considerou que os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de reduzir o ritmo enquanto a China continua avançando. A preocupação das empresas está nos riscos produzidos pela velocidade; a do presidente americano está também no risco de perder para Pequim a liderança tecnológica que os Estados Unidos hoje possuem. Trump admite a necessidade de mecanismos de segurança, mas não parece disposto a aceitar que a cautela americana se transforme em vantagem chinesa.

O que aconteceu em Nova Délhi dá força a esse raciocínio. Na cúpula do BRICS, a China aproveitou o ambiente para ampliar sua atuação diplomática, enquanto o presidente iraniano Masoud Pezeshkian se encontrou com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed, no mais elevado nível de contato entre Irã e Emirados Árabes Unidos desde o início do conflito. Xi Jinping defendeu que o BRICS tivesse papel de mediação nos conflitos do Oriente Médio, enquanto Índia e China participaram ativamente daquele ambiente diplomático.

A aproximação entre Irã e Emirados, em particular, mostra como o Oriente Médio vem adquirindo novos canais de negociação. A China mantém relações estratégicas com o Irã e, ao mesmo tempo, relações econômicas profundas com as monarquias do Golfo. Pequim consegue conversar com países que possuem interesses conflitantes e utilizar seu peso econômico para ampliar sua capacidade de interlocução política. Para os Estados Unidos, que durante décadas exerceram influência predominante naquela região, essa movimentação não é irrelevante.

É nesse cenário que a inteligência artificial deixa de ser apenas assunto de tecnologia. No artigo anterior, a corrida era observada principalmente dentro da própria indústria americana, com OpenAI, Anthropic, Google, xAI e outras empresas disputando talentos, investimentos, capacidade computacional e mercado. Agora fica claro que existe outra corrida acontecendo simultaneamente: Estados Unidos e China disputam a liderança de uma tecnologia que poderá determinar vantagens econômicas, militares e estratégicas durante as próximas décadas.

As duas corridas se sobrepõem. Uma empresa que desacelera pode perder para outra que continue avançando. Um país que desacelera pode temer que o adversário faça o mesmo que o concorrente empresarial faria. E, quando a tecnologia em disputa pode produzir vantagens econômicas, militares, industriais e cibernéticas, a decisão de desacelerar deixa de ser exclusivamente técnica.

É por isso que a posição de Trump não pode ser reduzida à imagem de alguém que simplesmente ignorou os alertas sobre segurança. Ele está olhando para outro tabuleiro. Se os Estados Unidos são atualmente os líderes da inteligência artificial e a China é o principal concorrente estratégico, qualquer decisão americana de reduzir voluntariamente a velocidade precisa levar em consideração a possibilidade de Pequim continuar correndo.

O problema é que os alertas feitos pelos próprios dirigentes das empresas também não podem ser ignorados. Dario Amodei não é um observador externo à indústria. Sam Altman tampouco. Eles sabem o que está sendo desenvolvido, conhecem a velocidade dos avanços e têm acesso a informações que não chegam ao público. Quando pessoas nessa posição passam a defender maior cautela, existe motivo para levar o alerta a sério.

É aí que aparece o paradoxo. Os mesmos Estados Unidos que concentram algumas das empresas mais avançadas do mundo precisam estimular essa indústria para preservar sua vantagem sobre a China, mas são essas mesmas empresas que começam a advertir que a velocidade pode estar ultrapassando a capacidade de controlar os riscos.

E a China não está parada esperando que os americanos resolvam esse dilema.

Pequim, sem o freio dos pudores judaico-cristãos ocidentais, vem construindo uma estratégia que combina inteligência artificial, semicondutores, infraestrutura, energia, indústria e política externa. A disputa não se limita a produzir o melhor modelo. Envolve capacidade computacional, acesso a chips avançados, centros de processamento, energia suficiente para alimentá-los, domínio de cadeias industriais e utilização da tecnologia como instrumento de poder.

A diferença civilizacional importa porque tecnologia e valores não podem ser completamente separados. A tradição ocidental desenvolveu, ao longo de séculos, uma concepção segundo a qual o poder precisa encontrar limites, o indivíduo possui direitos que o Estado não pode simplesmente ignorar e a capacidade de fazer determinada coisa não significa necessariamente que seja legítimo fazê-la. Essa construção não eliminou abusos, guerras ou violações cometidas por governos ocidentais, mas estabeleceu referências jurídicas e morais que continuam presentes nas democracias liberais.

A China opera sob premissas diferentes. O Estado não está submetido a uma competição política aberta pelo poder e o Partido Comunista exerce controle sobre as instituições fundamentais. A segurança nacional e a estabilidade política ocupam posição central. Quando uma tecnologia como a inteligência artificial é desenvolvida dentro desse ambiente, sua utilização pode ser orientada por prioridades que não coincidem com aquelas predominantes nas sociedades ocidentais.

Isso é particularmente relevante quando se fala em vigilância, reconhecimento facial, controle de informação e monitoramento de populações. A mesma tecnologia que em uma democracia pode ser submetida a leis, decisões judiciais, imprensa livre e contestação política pode, em outro sistema, integrar uma estrutura de controle social muito mais abrangente. A diferença não está na tecnologia. Está nas instituições que determinam como ela será utilizada.

A inteligência artificial acrescenta uma dimensão nova a essa questão porque permite automatizar decisões em escala. Sistemas capazes de analisar enormes quantidades de informações, identificar padrões, classificar indivíduos, produzir previsões e executar tarefas podem ampliar extraordinariamente a capacidade de ação de quem os controla. Quanto maior essa capacidade, maior a importância dos limites impostos ao poder.

O Ocidente possui seus próprios problemas. Empresas privadas também acumulam poder extraordinário e podem cometer erros graves. Governos democráticos também podem utilizar tecnologia de maneira abusiva. A diferença está na existência de mecanismos de contestação e alternância que, embora imperfeitos, criam obstáculos ao exercício ilimitado do poder. Na China, esses mecanismos são muito mais restritos quando uma questão é considerada estratégica para o Estado ou para o Partido.

É nesse ponto que os alertas técnicos deixam de ser uma discussão distante. Em avaliações de segurança da OpenAI, agentes foram submetidos a desafios de cibersegurança e conseguiram explorar vulnerabilidades e acessar recursos externos além do esperado por seus responsáveis. Os testes eram deliberados, mas revelaram algo importante: sistemas aos quais são concedidos ferramentas, objetivos e autonomia podem executar cadeias de ações cuja extensão é difícil de prever.

Amodei considera que essa evolução pode chegar ao ponto de permitir, em determinadas condições, que agentes suficientemente avançados assumam o controle de partes relevantes da internet. Mais de 1.300 profissionais ligados às empresas de fronteira assinaram, em julho, a iniciativa “Pacing the Frontier”, defendendo mecanismos capazes de acompanhar os riscos à medida que os modelos avançam. Entre as preocupações está a possibilidade de que a própria inteligência artificial passe a automatizar partes da pesquisa, programação e experimentação necessárias para desenvolver sistemas ainda mais poderosos.

Surge então o problema da regulação. Se as empresas entendem que determinados mecanismos de segurança são necessários, podem adotá-los voluntariamente. A dificuldade começa quando essas medidas passam a ser impostas a todo o mercado. Exigências extremamente caras podem ser absorvidas por gigantes como OpenAI, Anthropic e Google, mas se tornar proibitivas para startups menores, elevando as barreiras de entrada e consolidando a concentração existente.

Aidan Gomez, da Cohere, já chamou atenção para esse risco, enquanto Amodei defende padrões comuns de segurança e cooperação entre empresas. David Sacks, assessor de Trump para tecnologia, sustenta posição oposta: se as empresas acreditam que precisam desacelerar, podem fazê-lo por iniciativa própria. No fundo, a discussão envolve também quem terá o poder de estabelecer os limites da tecnologia e em que medida segurança poderá ser utilizada, ainda que involuntariamente, para reorganizar a própria concorrência.

Enquanto Washington discute esse equilíbrio, Pequim avança. Na cúpula do BRICS em Nova Délhi, a China apresentou iniciativa de cooperação em inteligência artificial entre os países do bloco, incluindo proposta de zona de IA de código aberto. A iniciativa se encaixa no esforço chinês para ampliar sua influência tecnológica e criar espaços de cooperação nos quais os Estados Unidos não ocupam posição central.

A infraestrutura será parte decisiva dessa disputa. Chips avançados, centros de dados, energia, pesquisadores qualificados e capital de longo prazo determinarão quem terá condições de sustentar a corrida. Nesse aspecto, inteligência artificial, indústria, energia, semicondutores e geopolítica já deixaram de ser assuntos separados.

Mas existe algo ainda mais importante. A disputa não será somente sobre quem produzirá a inteligência artificial mais poderosa, mas sobre quem definirá os limites de seu poder.

A tradição judaico-cristã ocidental, com todas as contradições de sua história, ajudou a consolidar a ideia de que o poder não pode ser absoluto e de que o indivíduo possui direitos que o Estado deve respeitar. A China parte de estrutura política diferente, na qual o Partido Comunista controla o Estado e decisões consideradas estratégicas podem ser executadas com muito menos obstáculos internos.

Quando a tecnologia é capaz de vigiar, prever, influenciar, manipular e automatizar decisões em escala, essa diferença passa a ter consequências concretas. O mesmo instrumento pode servir à liberdade ou ao controle, dependendo de quem o utiliza e dos limites que encontra.

É esse o verdadeiro dilema americano. Washington precisa impedir que a China conquiste a liderança de uma tecnologia capaz de redefinir poder econômico e militar, mas não pode esquecer que a superioridade tecnológica só tem sentido para o Ocidente se continuar subordinada aos princípios que justificam sua própria sociedade.

A China continuará correndo. Os Estados Unidos também. A questão será saber se, ao vencer essa corrida, o Ocidente continuará reconhecendo os limites que fizeram de seu poder algo diferente do simples exercício da força.

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