AS DUAS POLÍCIAS FEDERAIS

O relatório de inteligência da Polícia Federal utilizado por Alexandre de Moraes contra André Mendonça revela a divisão interna da corporação e expõe o choque entre duas concepções sobre os limites da atividade policial. De um lado, a Polícia Federal submetida à Constituição e à lei; de outro, a ala que se alinhou a Alexandre de Moraes, submeteu-se à sua autoridade e passou a atuar dentro da lógica de poder construída pelo ministro no Supremo.
O episódio começou a tomar forma a partir de duas investigações que chegaram ao gabinete de André Mendonça e passaram a se cruzar em torno de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A Operação Compliance Zero investiga as fraudes envolvendo o banco e operações realizadas com o BRB. A Operação Sem Desconto investiga o esquema de descontos associativos fraudulentos aplicados sobre aposentadorias e pensões do INSS. Mendonça recebeu por sorteio os processos relacionados às duas operações e passou a exercer sobre eles o controle jurisdicional.
No caso Master, a relatoria originalmente havia sido atribuída a Dias Toffoli. Em fevereiro de 2026, o ministro pediu a redistribuição dos processos sob a justificativa de “altos interesses institucionais”. Os processos foram redistribuídos e Mendonça foi sorteado. As razões que levaram Toffoli a abrir mão da relatoria continuam sem explicação pública satisfatória, sobretudo diante das informações que posteriormente vieram a público sobre sua relação com Vorcaro, os encontros entre os dois e a utilização de aeronaves ligadas ao banqueiro.
Foi na investigação contra Vorcaro que surgiu o material que colocaria Alexandre de Moraes no centro da crise. A Polícia Federal apreendeu o celular do banqueiro e encontrou mensagens, documentos, metadados e registros de encontros envolvendo o ministro. Vorcaro procurava Moraes em momentos decisivos, perguntava sobre a possibilidade de deixar o país e fazia referências ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Os registros analisados pela PF apontaram pelo menos seis encontros entre os dois.
No aparelho também foram encontrados documentos relacionados ao escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O Banco Master havia celebrado contrato de aproximadamente R$ 131 milhões com o escritório. A PF encontrou ainda uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, que previa R$ 40 milhões em cotas de um jato Legacy 650 e de um helicóptero EC 155 B1, além de R$ 10 milhões destinados a despesas de voos. Os registros encontrados pela PF mostram que pelo menos uma das aeronaves chegou a ser utilizada por Alexandre de Moraes.
A relação de Vorcaro com o poder, entretanto, não surgiu com a investigação do Banco Master. Em 31 de outubro de 2023, o banqueiro promoveu no Madame Satã, no Bixiga, uma festa privada de Halloween que, pelas mensagens apreendidas pela Polícia Federal, tinha cerca de 120 mulheres para apenas 20 homens. Fábio Faria ficou encarregado de arregimentar os convidados masculinos, enquanto o promoter Tiago Polo tratava da convocação das mulheres. Vorcaro foi explícito ao definir o perfil que pretendia: “só menina nova”, com preferência por estrangeiras. As conversas mencionam as agências Mega, Ford e Joy e mostram que a organização chegou a discutir a presença das chamadas “suíças”.
O endereço permaneceu em segredo até o dia da festa, os celulares seriam recolhidos na entrada e havia segurança encarregada de impedir registros. A produção estava longe de ser modesta: equipe contratada no Marrocos, negociações em inglês, pagamentos em dólar, open bar, open food e um line-up que incluía Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture.
A preocupação com o sigilo ganha outra dimensão diante do formato da festa. Tratava-se de um encontro privado com seis mulheres para cada homem, muitas delas estrangeiras e recrutadas no circuito de modelos, destinado a receber empresários e autoridades. Vorcaro chegou a pedir preferência por estrangeiras para reduzir o risco de publicidade e afirmou que queria “só menina nova”. Em outras festas promovidas por ele, especialmente em Angra dos Reis, depoimentos incorporados às investigações da PF descrevem a presença de garotas de programa, drogas, bebidas e personalidades. O conjunto das circunstâncias do Madame Satã — mulheres jovens e estrangeiras, recrutamento por promoters, sigilo absoluto e concentração de homens escolhidos por seu peso político e empresarial — alimenta a suspeita de prostituição e revela o ambiente em que Vorcaro procurava exercer sua influência.
As mensagens mostram Fábio Faria informando a Vorcaro que havia convidado Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco e Dias Toffoli. Em outro áudio, Faria menciona “Arthur” e diz que “dá até para trazer o Alexandre”, identificação atribuída pela PF a Arthur Lira e Alexandre de Moraes. O fato de esses nomes estarem sendo tratados nas conversas como pessoas a serem levadas ao evento mostra o tipo de círculo que Vorcaro procurava reunir.
O vazamento de imagens também expôs a dimensão da festa. Uma convidada publicou no TikTok registros do evento, e Vorcaro imediatamente procurou Tiago Polo para descobrir quem havia feito a postagem, ordenando sua retirada. O vídeo desapareceu. Outras imagens associadas à festa circularam nas redes sociais, revelando a produção milionária e a presença de DJs internacionais e brasileiros de enorme projeção.
O Madame Satã foi um dos momentos em que se tornou visível a construção das relações que, nos meses seguintes, ganhariam outra dimensão. Vorcaro já não era apenas o banqueiro que controlava um banco em expansão. Ele transitava entre empresários, intermediários políticos, ministros e integrantes das instituições de Estado, ao mesmo tempo em que promovia festas privadas de alto custo, cuidadosamente protegidas contra registros e com seleção de convidados que incluía figuras do núcleo do poder brasileiro.
Foi assim que se chegou a Londres.
Em abril de 2024, o Banco Master patrocinou o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado na capital britânica. Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli estavam entre os ministros do STF presentes. Também participaram ministros do STJ, integrantes do TSE, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Gonet, procurador-geral da República, Jorge Messias, advogado-geral da União, Ricardo Lewandowski, então ministro da Justiça, além de parlamentares, empresários e outras autoridades. Daniel Vorcaro estava entre os participantes.
As mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostraram que Alexandre de Moraes participava da organização do evento. Vorcaro consultava “Alexandre” sobre convidados e programação, e Moraes interferia diretamente na composição da lista. O ministro vetava nomes e acompanhava as tratativas com o banqueiro.
A relação tornava-se ainda mais estreita nos eventos privados que cercavam o fórum. Na degustação de Macallan realizada no George Club estavam Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues e Daniel Vorcaro, entre outros. A despesa foi estimada em cerca de US$ 640 mil, aproximadamente R$ 3,2 milhões à época. Jorge Messias estava em Londres para o fórum, mas não participou da degustação.
A passagem do Madame Satã para Londres mostra a evolução do círculo de relações de Vorcaro. Em São Paulo, o banqueiro mobilizava intermediários para colocar autoridades políticas e judiciais em seu ambiente privado. Em Londres, o próprio Banco Master patrocinava um fórum jurídico capaz de reunir ministros das Cortes superiores, o procurador-geral da República, o diretor-geral da Polícia Federal, o advogado-geral da União, ministro de Estado, parlamentares e empresários. E as mensagens mostravam que Moraes participava diretamente da organização.
Foi nesse ambiente que se consolidaram relações que posteriormente apareceriam dentro das investigações. O banqueiro que transitava entre autoridades políticas e judiciais passou a manter contatos diretos com Moraes, encontros presenciais com o ministro e relações profissionais com o escritório de sua mulher. O celular apreendido pela PF registrou esse circuito e acabou produzindo elementos que chegaram às investigações do Banco Master e do INSS.
Esse material passou a integrar a investigação que Mendonça havia recebido por sorteio. O ministro passou a decidir sobre as diligências, o compartilhamento de informações e os limites da atuação policial, inclusive determinando o compartilhamento de dados obtidos a partir das quebras de sigilo de Vorcaro com as equipes que atuavam nos casos Master e INSS.
A Operação Sem Desconto carregava, além do esquema bilionário de descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões, um componente político que atingia diretamente o entorno de Lula. José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente, é vice-presidente do Sindnapi, entidade investigada na operação. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também entrou na investigação, assim como Roberta Luchsinger, empresária próxima do filho do presidente e apontada como elo entre ele e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A PF identificou pagamentos de R$ 1,5 milhão de empresas ligadas a Antunes para uma empresa de Luchsinger e passou a investigar a natureza dessa relação.
A investigação sobre Lulinha avançou para apurar suspeitas de tráfico de influência relacionadas a negócios de cannabis medicinal envolvendo Lulinha, Luchsinger e empresa ligada ao Careca do INSS. A PF também investigou mensagens nas quais Luchsinger aparece tratando de negócios e buscando a intervenção de Lulinha para abrir portas dentro do governo. A própria empresária declarou ter apresentado Lulinha a Antunes.
O irmão do presidente, o filho do presidente e a mulher que aparece como elo entre o filho e o principal lobista investigado no esquema passaram a figurar dentro da mesma investigação sobre o INSS. O entorno familiar de Lula entrou no mesmo quadro investigativo em que apareciam bilhões de reais desviados de aposentados e pensionistas.
Ao mesmo tempo, a relação entre Mendonça e a direção da Polícia Federal começou a se deteriorar. O ministro passou a impor limites à atuação das equipes, a exigir acesso ao material bruto e a determinar providências que a corporação considerava interferência na condução das investigações. A ala da Polícia Federal alinhada a Moraes procurou então a Advocacia-Geral da União para reagir às decisões do ministro.
Jorge Messias recusou porque a AGU não possuía competência constitucional e legal para adotar a providência pretendida pela Polícia Federal na esfera criminal. A negativa foi jurídica, objetiva e fundada nos limites constitucionais da Advocacia-Geral da União.
Havia uma relação política conhecida entre Messias e Mendonça. O ministro havia apoiado a indicação de Messias para o Supremo e participado da articulação em torno de seu nome. Depois da rejeição da indicação pelo Senado, Messias agradeceu publicamente o apoio recebido de Mendonça.
A PF transformou essa relação em explicação política para uma decisão que a AGU havia fundamentado juridicamente. O relatório passou a interpretar a relação entre Messias e Mendonça, a “matriz religiosa comum” entre os dois e o apoio do ministro à indicação do advogado-geral como elementos de uma suposta motivação política.
O documento foi além e transformou a atuação jurisdicional de Mendonça em objeto de inteligência. Passou a sustentar que o ministro estaria exercendo poderes próprios de direção da investigação, interferindo na Polícia Federal, escolhendo delegados e acessando diretamente o acervo probatório. A própria PF classificou o relatório como “sem valor probatório” e registrou baixa confiança em diversas hipóteses apresentadas.
Foi esse material que Alexandre de Moraes utilizou para pedir a investigação de Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. A acusação veio depois que Mendonça retirou o sigilo do relatório que revelava as mensagens entre Moraes e Vorcaro. Moraes passou a acusar o colega de direcionar as investigações do Master e do INSS contra ele e Davi Alcolumbre.
O dado decisivo veio da própria Polícia Federal. Ao prestar informações a Edson Fachin, Andrei Rodrigues afirmou que a entrega do relatório utilizado contra Mendonça havia ocorrido por determinação judicial de Alexandre de Moraes. A direção da PF sustentou a legalidade do procedimento, mas deixou claro que a ordem para a produção e entrega do material partira do ministro.
Mendonça reagiu afastando cautelarmente Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. A Segunda Turma do Supremo chegou a formar maioria para manter o afastamento, até que Gilmar Mendes pediu vista e interrompeu o julgamento.
Gilmar Mendes passou então a atuar diretamente na crise. O decano defendeu a retirada de delegados da PF dos gabinetes de ministros, questionou a condução do caso por Mendonça e pediu acesso integral aos dados extraídos do celular de Vorcaro. Também tentou colocar no mesmo julgamento as investigações contra Moraes e contra Mendonça.
Fachin não acolheu a tentativa de transformar os dois processos em julgamento conjunto. Em seguida, retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news, suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal e manteve Andrei Rodrigues no cargo.
A ofensiva contra Mendonça perdeu o instrumento pelo qual havia sido formalmente desencadeada.
Mas a decisão seguinte de Fachin atingiu o centro dos processos. Em 12 de setembro, o ministro assumiu a relatoria do procedimento que investiga a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Ao mesmo tempo, determinou o envio à Presidência do Supremo das íntegras dos processos do Banco Master e do INSS e paralisou o andamento das duas investigações, retirando de Mendonça a condução dos casos.
O resultado foi um freio de arrumação dentro do Supremo. Moraes perdeu o inquérito que havia utilizado para atacar Mendonça. Andrei Rodrigues permaneceu no comando da PF. A ofensiva contra o ministro foi interrompida. Gilmar não conseguiu transformar os dois casos em julgamento simultâneo. E Fachin assumiu justamente os processos que concentravam as informações mais sensíveis da crise.
Foi Fachin quem, em 2021, declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os processos de Lula, anulou as condenações do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula e abriu o caminho jurídico que devolveu ao petista os direitos políticos e permitiu sua candidatura à Presidência da República em 2022.
Agora, o mesmo ministro que desmontou a ofensiva de Moraes contra Mendonça passou a controlar os processos do Banco Master e do INSS, justamente aqueles que haviam colocado sob investigação as relações de Vorcaro com integrantes do poder e alcançado o irmão, o filho e pessoas do círculo próximo do presidente da República.
Há ainda outro aspecto que não pode passar despercebido. Tudo aquilo que foi negado a Jair Bolsonaro, a Eduardo Bolsonaro, a Alexandre Ramagem e a tantos outros perseguidos pelos inquéritos e processos conduzidos pelo Supremo — inclusive os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro — agora aparece reivindicado pelo próprio Alexandre de Moraes quando ele ocupa a posição de investigado. Devido processo legal, ampla defesa, acesso integral aos elementos de prova, juiz natural e imparcialidade deixaram de ser princípios que seus adversários poderiam invocar e passaram a ser garantias que o próprio ministro exige para si.
Ao fim e ao cabo, os processos que revelaram as relações entre Daniel Vorcaro, Banco Master, Alexandre de Moraes e o círculo político atingido pela Operação Sem Desconto saíram das mãos de André Mendonça e passaram à relatoria de Edson Fachin, que está longe de poder ser considerado imparcial. Muito pelo contrário.
Não por acaso, já começa a se falar em “pizza”, enquanto se multiplicam charges retratando Fachin como pizzaiolo. O caso deixou de ser observado apenas dentro das fronteiras brasileiras. O mundo inteiro está atento aos próximos movimentos de Edson Fachin, inclusive os Estados Unidos.
Nota pessoal: há uma vítima involuntária de toda essa história: o whisky Macallan, célebre single malt escocês, mundialmente associado à sofisticação, à tradição e ao poder. A marca ganhou ainda maior projeção no imaginário popular contemporâneo por suas aparições em Suits, a conhecida série americana sobre advogados de Wall Street, na qual o whisky se tornou parte da estética de luxo e poder que marcou a produção. É lamentável que esse símbolo de distinção tenha sido arrastado para a lama de um episódio tão constrangedor e possa ficar, daqui para a frente, indelevelmente associado àquela degustação em Londres e aos personagens deste triste capítulo da primeira quadra do século XXI no Brasil.
