JORGE SEIF: DE “FORASTEIRO” A QUASE UM MILHÃO E MEIO DE VOTOS

Fotos: Acervo do Colunista

Em abril de 2022, quando Jorge Seif acabava de ser escolhido pelo então presidente Jair Bolsonaro para disputar o Senado por Santa Catarina, a conversa era muito parecida com a que hoje se repete em relação a Carlos Bolsonaro: diziam que era um desconhecido, que não conhecia Santa Catarina, que não tinha densidade eleitoral no Estado e que havia sido “imposto” por Bolsonaro. Foi nesse contexto que o convidei para uma caminhada pelo centro de Florianópolis, saindo do Café Sorrentino, nas proximidades da Praça Pereira Oliveira, e seguindo até o Box 32, no Mercado Público, para conversar com ele e apresentar sua candidatura às pessoas que encontrávamos pelo caminho. Entre os que nos acompanhavam estava Tiago Bolan Frigo, que teria sido posteriormente escolhido por Jorginho Mello para liderar e estruturar a Secretaria Executiva de Aquicultura e Pesca de Santa Catarina.

A primeira pesquisa localizada depois daquela caminhada, realizada pelo Real Time Big Data entre 21 e 23 de maio, mostrava Seif com 5%, enquanto Raimundo Colombo tinha 14%. O cenário ainda era extremamente aberto: 39% dos entrevistados estavam indecisos e outros 23% declaravam voto branco ou nulo. Em junho, a Paraná Pesquisas registrava Seif na faixa de 3%, enquanto Colombo ultrapassava 38%. Em agosto, o Ipec ainda lhe atribuía apenas 4%. Então ocorreu a virada que os levantamentos passaram a captar de maneira muito desigual. É preciso dar ao Instituto MAPA o crédito pelo acerto: entre 30 de agosto e 1º de setembro, sua pesquisa já colocava Seif com 23,3%, à frente de Colombo, com 19,1%. Entre 14 e 16 de setembro, o mesmo instituto registrava 31,8% para Seif, contra apenas 12,3% de Colombo. O Ipec, realizando entrevistas praticamente no mesmo período, continuava apontando Seif com apenas 9%.

Na reta final, o próprio Ipec registrou a aceleração, levando Seif a 19% entre 28 e 30 de setembro, ainda atrás de Colombo, com 31%. O Instituto MAPA, por sua vez, chegou a apontar 44% para Seif em seu levantamento final. Na urna, o resultado foi 1.484.110 votos, correspondentes a 39,79% dos votos válidos, contra 16,30% de Raimundo Colombo e 16,23% de Dário Berger.

O “forasteiro”, que teria sido “imposto” pelo então presidente Jair Bolsonaro, e que diziam não conhecer Santa Catarina nem ter força eleitoral no Estado, terminou eleito com mais que o dobro da votação de seus dois principais adversários.

Mas a eleição de 2022 conta apenas metade dessa história. A outra metade está no mandato que Seif construiu depois de chegar ao Senado. E, nesse ponto, há algo que precisa ser reconhecido: Jorge Seif correspondeu ao eleitorado que o elegeu. Não procurou esconder a origem de sua votação, nem abandonou as posições políticas que o levaram ao Senado. Construiu um mandato assumidamente bolsonarista, conservador e combativo, em linha direta com o eleitorado catarinense que lhe entregou a cadeira.

O balanço apresentado pelo próprio senador em maio de 2026 registra 74 proposições legislativas apresentadas e 56 projetos relatados, com atuação concentrada principalmente em segurança pública e desenvolvimento regional. Na avaliação de Seif, a segurança pública foi a principal frente de seu mandato, com projetos destinados ao endurecimento de penas, ao combate a crimes graves e à proteção de vítimas.

Essa orientação aparece desde o início de sua atuação parlamentar. O PL 1.657/2023, por exemplo, propõe destinar pelo menos 5% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública à prevenção da violência contra crianças e permite a utilização de recursos de multas de trânsito para a contratação de policiais aposentados e militares da reserva para atuar na segurança de escolas. Não se trata de uma atuação genérica em segurança pública, mas de propostas perfeitamente identificáveis com o discurso que predominou na campanha de 2022.

A mesma coerência aparece nas pautas de costumes. Seif manteve posições conservadoras em temas como vacinação obrigatória e participação de atletas trans em competições esportivas femininas, além de permanecer como um dos mais contundentes defensores de Jair Bolsonaro no Senado. Em novembro de 2025, quando já estava aberta a disputa em torno da candidatura de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, Seif foi explícito ao defender o filho do ex-presidente e ao rejeitar o argumento de que Carlos não poderia disputar a vaga por não ter nascido no Estado. Recordou, inclusive, que ele próprio também não havia nascido em Santa Catarina.

Sua atuação também se estendeu à defesa de setores econômicos relevantes para o Estado. Na discussão da reforma tributária, apresentou diversas emendas e assumiu posições de resistência ao texto aprovado pelo Congresso, particularmente em temas que afetavam setores produtivos. Na área ambiental e de infraestrutura, foi relator de projetos de interesse catarinense, entre eles a alteração dos limites do Parque Nacional da Serra do Itajaí, posteriormente transformada em lei.

Mas talvez seja na destinação de recursos que a avaliação de seu mandato possa ser feita com maior objetividade. Em março de 2026, Seif precisou ocupar a tribuna do Senado para responder a notícias da imprensa catarinense que, segundo ele, apresentavam informações antigas e davam a entender que não havia destinado emendas para Santa Catarina. O senador abriu os dados do Siga Brasil e apresentou os números: em 2024, sua dotação de emendas individuais alcançou R$ 69,634 milhões, dos quais R$ 68,353 milhões foram empenhados; em 2025, foram R$ 68,539 milhões, com R$ 65,216 milhões empenhados; para 2026, a dotação chegava a R$ 74 milhões.

A distinção entre dotação, empenho, liquidação e pagamento precisa ser preservada para que esses números não sejam artificialmente inflados. Mas ela também não pode ser utilizada para apagar o dado principal: os recursos de suas emendas individuais foram direcionados para Santa Catarina, segundo os registros apresentados pelo próprio senador com base no Siga Brasil. Seif afirmou ainda que recursos de emendas de comissão e da bancada catarinense ampliaram esse volume, citando, entre outros exemplos, R$ 51,169 milhões destinados à Granfpolis.

A destinação de recursos alcançou saúde, infraestrutura, segurança, agricultura, turismo e municípios de diferentes regiões do Estado. A dimensão territorial dessa atuação é importante porque ajuda a separar o personagem político daquilo que efetivamente foi feito no exercício do mandato. Seif não se limitou ao discurso nacional do bolsonarismo; utilizou a posição de senador para levar recursos a municípios catarinenses e para atuar em demandas regionais.

É justamente nesse ponto que surge a outra parte da história: o próprio mandato de Seif passou a ser objeto de desconstrução política e midiática. Em março de 2026, ele foi ao plenário do Senado especificamente para rebater informações publicadas por veículos catarinenses sobre a destinação de suas emendas. O Senado registrou que Seif acusou parte da imprensa de tentar manipular a opinião pública e destacou que textos antigos estariam sendo “requentados” para transmitir a impressão de que os recursos não haviam sido destinados ao Estado.

A questão ganha outra dimensão quando se observa o momento político em que isso ocorre. Seif é justamente o precedente que desmonta a tese de que um candidato escolhido por Bolsonaro, vindo de fora da política catarinense e inicialmente tratado como “forasteiro”, não teria condições de transformar a força eleitoral do ex-presidente em mandato próprio. Ele foi eleito com 39,79% dos votos válidos, manteve-se fiel ao eleitorado que o elegeu e, quatro anos depois, passou a defender abertamente a candidatura de Carlos Bolsonaro, recorrendo à própria trajetória para contestar o argumento de que um carioca não poderia representar Santa Catarina. Em agosto de 2025, Seif já dizia que os catarinenses estavam abraçando Carlos da mesma forma que haviam feito com ele em 2022.

E o próprio Seif foi ainda mais direto em novembro daquele ano, ao afirmar no Senado que a imprensa catarinense estava fazendo uma campanha para destruir Carlos Bolsonaro e que, por trás do ataque ao filho, estaria o ataque ao próprio Jair Bolsonaro. É uma afirmação política de Seif, não um fato independente comprovado, mas ela deixa absolutamente clara a maneira como o senador passou a interpretar a disputa de 2026.

Por isso, a avaliação de seu mandato não pode ser dissociada da disputa que agora envolve Carlos Bolsonaro. Seif representa um precedente incômodo para quem sustenta que Bolsonaro simplesmente “impôs” a Santa Catarina um candidato sem raízes no Estado. O candidato desconhecido tornou-se senador com quase um milhão e meio de votos. O senador manteve durante o mandato a identidade política que o levou ao cargo. Apresentou dezenas de proposições, relatou projetos, fez da segurança pública uma das principais bandeiras, sustentou posições conservadoras em temas de costumes, permaneceu um aliado ostensivo de Bolsonaro e destinou dezenas de milhões de reais em emendas individuais para Santa Catarina.

A fotografia daquela caminhada, feita naquele abril de 2022, registra portanto o início de uma história que as pesquisas daquele momento dificilmente antecipavam. Seif ainda precisava ser apresentado aos catarinenses. Poucos meses depois, estava eleito senador. Quatro anos depois, seu próprio mandato tornou-se parte da disputa política sobre quem deve ocupar a próxima cadeira destinada ao bolsonarismo em Santa Catarina. E é precisamente por isso que a tentativa de reduzir sua passagem pelo Senado à caricatura de um mandato sem resultados precisa ser confrontada com os números, com os projetos e com aquilo que efetivamente ficou registrado no orçamento federal.

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