QUAEST ACENDE O ALERTA NO PLANALTO

A nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta segunda-feira, muda a fotografia da corrida presidencial. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro aparece à frente do candidato do PT numa simulação de segundo turno, com 42% contra 40%. Na rodada anterior, havia empate em 41%. No primeiro turno, o candidato do PT registra 36%, contra 31% de Flávio. A passagem de uma etapa para outra revela o movimento mais importante: os cinco pontos de vantagem do candidato do PT no primeiro turno se convertem em dois pontos para Flávio no confronto direto. Enquanto o candidato do PT perde apoio, Flávio demonstra capacidade de reunir votos que, na primeira etapa, estão distribuídos entre os demais concorrentes. A avaliação do governo acompanha esse movimento: 50% desaprovam a administração do presidente, contra 43% que a aprovam.
O desgaste político ultrapassa a avaliação administrativa e alcança os escândalos recentes, que ganharam contornos de máfia pela profundidade e amplitude das relações reveladas. Diferentes episódios envolvendo pessoas, estruturas e interesses próximos ao poder passaram a compor uma percepção mais ampla sobre o grupo que governa o país. A sucessão de denúncias e investigações alimenta a certeza de que velhas práticas continuam presentes. Mudam os personagens, mudam os nomes das operações policiais, mudam os envolvidos, mas só não muda o candidato do PT na cena do crime.
No campo internacional, os projetos também se afastam claramente. Flávio Bolsonaro está alinhado a Donald Trump e à aproximação estratégica com os Estados Unidos. O candidato do PT mantém o Brasil vinculado ao fortalecimento dos BRICS e à aproximação com China e Rússia, defendendo uma ordem mundial multipolar. A escolha estabelece posições distintas diante da disputa geopolítica entre Washington e Pequim e oferece ao eleitor uma diferença concreta sobre o lugar que o Brasil pretende ocupar no cenário internacional.
A questão das organizações criminosas acrescenta outro foco de desgaste. O governo brasileiro rejeitou a classificação do PCC e do Comando Vermelho pelos Estados Unidos como organizações terroristas, colocando o Brasil em posição cada vez mais isolada no continente, justamente quando países como Equador, Colômbia e Peru aprofundam a cooperação com Washington no combate às organizações criminosas transnacionais, com compartilhamento de inteligência, operações conjuntas e apoio americano. O contraste tornou-se ainda mais evidente com a adesão do Peru à coalizão americana Shield of the Americas e com a intensificação da cooperação entre Estados Unidos, Equador e Colômbia. Enquanto países da região ampliam a aliança com Washington para enfrentar as estruturas do narcotráfico que atravessam suas fronteiras, o governo brasileiro mantém resistência à estratégia americana e rejeita a própria classificação das duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas. A posição brasileira deixou de ser apenas uma divergência diplomática com os Estados Unidos e passou a representar uma diferença de orientação diante do esforço regional de combate ao crime organizado.
Há ainda o STF. O candidato do PT mantém apoio à atuação da Corte, enquanto ministros do Supremo ampliam sua presença em questões que alcançam diretamente o ambiente político. A relação de apoio mútuo entre governo e STF tornou-se parte da disputa e associa o candidato do PT às decisões mais controversas da Corte. Para parcela significativa do eleitorado, essa proximidade representa a continuidade de um modelo de poder no qual decisões judiciais passaram a ocupar espaço que antes pertencia essencialmente à política.
Mas o que pode decidir o comportamento eleitoral dos brasileiros de menor renda é mais concreto: o poder de compra. Como já analisamos em outro artigo, não basta o dinheiro entrar no orçamento; importa o que ele consegue comprar. O eleitor pode receber benefício social, estar empregado e ter renda maior no papel, mas sentir que sua vida piorou quando chega ao supermercado e constata que o dinheiro compra menos. Alimentos, contas domésticas e produtos básicos não são abstrações econômicas. São a realidade de quem precisa fazer o orçamento caber no fim do mês.
É justamente aí que pode estar ocorrendo uma mudança importante entre os eleitores mais pobres, segmento no qual o candidato do PT tradicionalmente encontra sua maior força. O que pesa é quanto o dinheiro disponível permite comprar. Se a renda nominal aumenta, mas os preços avançam em ritmo superior, a sensação de melhora desaparece. O eleitor não precisa abandonar suas convicções nem rejeitar políticas sociais para responsabilizar o governo pela perda de poder de compra.
A pesquisa mostra, portanto, que a vantagem inicial do candidato do PT não se consolidou como posição de domínio na disputa. Flávio Bolsonaro, que desde o início se apresenta como a principal alternativa ao PT, conseguiu ultrapassá-lo numericamente na simulação de segundo turno. O dado mais relevante deixa de ser apenas a diferença atual e passa a ser a capacidade de crescimento de Flávio à medida que a eleição se aproxima.
E há ainda um fator capaz de alterar significativamente essa fotografia até a votação. A campanha pelo voto útil no primeiro turno pode ampliar consideravelmente essa diferença. Na pesquisa, além dos 36% do candidato do PT e dos 31% de Flávio Bolsonaro, aparecem 16 pontos percentuais distribuídos entre Augusto Cury, com 7%, Renan Santos e Ronaldo Caiado, com 4% cada, e Romeu Zema, com 1%. À medida que a eleição se aproxima e o eleitor perceber que a disputa real se concentra entre o candidato do PT e Flávio Bolsonaro, parte desse contingente poderá abandonar candidaturas com menor potencial eleitoral para concentrar o voto no candidato de oposição mais competitivo. Até porque, para o eleitor antipetista, será insuportável ter de enfrentar vários dias a mais de propaganda eleitoral no rádio e na televisão ouvindo o candidato do PT, além do custo de milhões que isso representa para o país, como já tratamos em outro artigo. Se esse movimento se confirmar, a diferença poderá crescer de forma expressiva e até mesmo liquidar a fatura no primeiro turno.
