PERSPECTIVA POLÍTICA – Entre o necessário e o eleitoral

Reajuste do Bolsa Família reúne alcance social e calendário eleitoral, pesquisas repetem um cenário na disputa pelo Governo de SC e candidatura de Carlos Bolsonaro provoca uma curiosidade sobre quem escolheu Santa Catarina para construir sua história.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira um reajuste de 15,04% no Bolsa Família.

O valor mínimo do benefício passará de R$ 600 para R$ 691.

Segundo o governo, o percentual corresponde à reposição da inflação acumulada desde 2023, período em que o benefício permaneceu sem reajuste.

Para milhões de famílias que dependem do programa, recuperar parte do poder de compra possui evidente importância social.

Mas existe outro dado que não pode ser ignorado:

o reajuste foi anunciado a 17 dias do primeiro turno da eleição presidencial.

Por que agora?

É justamente o calendário que transforma uma medida social em um fato também político.

Durante o atual mandato de Lula, o piso permaneceu em R$ 600.

Mais significativo: no dia 31 de agosto, o governo encaminhou ao Congresso a proposta do Orçamento de 2027 mantendo o benefício mínimo em R$ 600 e sem previsão de reajuste.

Dezessete dias depois, anunciou a correção de 15,04%.

O governo afirma que está apenas recompondo a inflação e preservando o poder de compra das famílias.

O calendário, entretanto, acrescenta uma pergunta inevitável:

por que uma medida que não estava prevista no Orçamento apresentado há pouco mais de duas semanas foi anunciada justamente agora?

A conta também existe

A decisão terá impacto adicional de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027, segundo o Ministério do Planejamento.

O governo afirma possuir espaço fiscal para acomodar o reajuste e informa que modificará a proposta orçamentária de 2027 já encaminhada ao Congresso.

Portanto, existem dois aspectos que podem coexistir nessa decisão.

De um lado, milhões de famílias receberão um benefício maior depois de anos sem reajuste.

Do outro, um presidente candidato à reeleição anuncia esse aumento a 17 dias de os brasileiros começarem a decidir a eleição presidencial.

O primeiro é um fato social.

O segundo é um fato político.

E ambos fazem parte da mesma decisão.


As pesquisas continuam apontando na mesma direção

Ontem foi divulgada mais uma pesquisa sobre a disputa pelo Governo de Santa Catarina.

Desta vez, da Real Time Big Data.

Os números já foram apresentados pelo DMA Notícias em matéria específica. O registro desta coluna é outro.

Até aqui, as pesquisas divulgadas apresentam uma característica comum: se os números registrados pelos diferentes institutos fossem confirmados nas urnas, o governador e candidato à reeleição Jorginho Mello seria eleito no primeiro turno.

Institutos, metodologias, amostras e percentuais variam.

A direção apontada pelos levantamentos, até agora, não.

Uma vantagem construída também no governo

Esta coluna já tratou anteriormente de uma relação bastante natural na política.

Um governante que chega ao período eleitoral com sua administração bem avaliada possui uma vantagem importante: uma parcela do eleitorado que aprova aquilo que está sendo realizado pode não encontrar razões para buscar uma alternativa.

Isso não significa transformar aprovação de governo automaticamente em voto.

Mas ajuda a compreender por que desempenho administrativo e desempenho eleitoral frequentemente caminham juntos.

O desafio está colocado

Faltando pouco mais de duas semanas para a eleição, o cenário apresentado pelas pesquisas coloca o desafio principalmente nas mãos dos adversários.

João Rodrigues, Gelson Merísio e os demais candidatos ainda possuem campanha pela frente para apresentar propostas, conquistar eleitores e tentar modificar o quadro.

A eleição será decidida somente nas urnas.

Até lá, pesquisas continuarão sendo fotografias de momentos determinados da campanha.

Mas existe uma fotografia que vem se repetindo: até agora, todas apontam para a possibilidade de Jorginho Mello encerrar a disputa no primeiro turno.


Todo mundo teve um primeiro dia

Muito tem sido discutido durante esta campanha sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina.

Existe uma razão objetiva.

Sua trajetória política foi construída no Rio de Janeiro e a transferência de seu domicílio eleitoral para Santa Catarina é recente. Sua candidatura também surgiu diretamente vinculada à escolha e ao apoio de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Quanto isso pesará na decisão dos catarinenses?

Ainda não sabemos.

Carlos Bolsonaro disputa uma eleição e somente as urnas dirão como o eleitor avaliará sua candidatura.

Mas toda essa discussão trouxe uma curiosidade que merece registro.

Santa Catarina também é construída por quem chegou

Oito candidatos disputam o Governo de Santa Catarina nesta eleição.

Imagem gerada por IA

Cinco deles nasceram fora do estado.

Alguns construíram praticamente toda a vida pessoal, profissional e política em Santa Catarina. Outros chegaram depois.

Existe uma diferença evidente entre alguém radicado há décadas e quem estabeleceu recentemente seu vínculo eleitoral com o estado.

Mas existe também uma característica comum:

todos tiveram um primeiro dia em Santa Catarina.

Uma história não começa pronta.

Ela é construída com o tempo, com vínculos e com aquilo que cada pessoa passa a representar para o lugar que escolheu para viver.

E não são poucos

Levantamento feito pela coluna a partir dos registros atuais das candidaturas mostra outro dado interessante.

Dos 231 registros de candidaturas a deputado federal por Santa Catarina, 72 correspondem a pessoas nascidas em outros estados.

São trajetórias completamente diferentes.

Algumas começaram em Santa Catarina há décadas. Outras, mais recentemente.

Por isso, a discussão provocada pela candidatura de Carlos Bolsonaro acaba produzindo uma reflexão que vai além do próprio candidato.

Quanto deve pesar o lugar onde alguém nasceu e quanto deve pesar a história que essa pessoa construiu — ou ainda pretende construir — em Santa Catarina?

Cada eleitor encontrará sua resposta.

Mas existe um dado que não depende de opinião:

para muita gente que hoje faz parte da história catarinense, um dia Santa Catarina também foi uma escolha.


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