PERSPECTIVA POLÍTICA – Qual é o tamanho do bolsonarismo raiz em Santa Catarina?
A candidatura de Carlos Bolsonaro oferece um indicador sobre o bolsonarismo em SC, declaração de Lula recoloca a autonomia do Banco Central no debate e sessão do STF produz novos reflexos na campanha presidencial.
Santa Catarina possui um histórico eleitoral marcado pela força da direita e da centro-direita.
A partir de 2018, entretanto, surgiu dentro desse amplo eleitorado conservador um fenômeno político mais específico: o bolsonarismo.
Jair Bolsonaro conquistou naquele ano 75,92% dos votos válidos dos catarinenses no segundo turno da eleição presidencial.
Desde então, diferentes eleições e pesquisas demonstraram a permanência de um eleitorado identificado com o ex-presidente.
Mas existe uma pergunta interessante:
qual é o tamanho do chamado bolsonarismo raiz em Santa Catarina?
Um teste diferente
A eleição para o Senado poderá oferecer uma informação importante para essa análise.

Carlos Bolsonaro disputa uma das duas cadeiras catarinenses e chega à eleição diretamente associado ao pai e ao projeto político construído em torno de Jair Bolsonaro.
A candidatura de Carlos coloca diante do eleitor uma situação particular: de um lado, sua trajetória política foi construída no Rio de Janeiro; do outro, existe o apoio direto de Jair Bolsonaro à sua eleição por Santa Catarina.
Por isso, sua votação poderá funcionar como um indicador da capacidade que o ex-presidente possui de mobilizar diretamente uma parcela do eleitorado catarinense em torno de um nome por ele apoiado.
Não será uma medição matemática do bolsonarismo.
Afinal, o eleitor escolherá dois senadores e existem outras candidaturas disputando votos dentro do próprio campo da direita.
Mas será um dado político relevante.
A urna dará uma resposta
Existe uma diferença entre o eleitor conservador, o eleitor de direita e aquele que acompanha mais diretamente as orientações políticas de Jair Bolsonaro.
Esses grupos podem se encontrar em muitas eleições.
Mas não são necessariamente a mesma coisa.
É justamente por isso que a votação de Carlos Bolsonaro merece ser observada também por esse ângulo.
Mais do que saber apenas o resultado de sua candidatura na disputa pelas duas vagas, haverá outro número interessante quando as urnas forem abertas:
quantos catarinenses decidiram acompanhar diretamente a escolha apresentada por Jair Bolsonaro?
Talvez não tenhamos uma medida exata do bolsonarismo raiz em Santa Catarina.
Mas teremos um indicador eleitoral concreto sobre o peso dessa orientação entre os eleitores catarinenses.
Mais poder para o presidente?

Durante entrevista ao Jornal da Record nesta terça-feira, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva voltou a questionar a autonomia do Banco Central.
Ao tratar da condução da economia, Lula defendeu mais poder para o presidente interferir nas decisões econômicas do país.
A declaração merece atenção porque toca diretamente em um modelo institucional estabelecido pelo Congresso Nacional.
O modelo que existe hoje
A autonomia do Banco Central foi estabelecida pela Lei Complementar 179, de 2021.
A legislação definiu mandatos fixos para presidente e diretores da instituição, não coincidentes com o mandato do presidente da República, e estabeleceu autonomia técnica, operacional, administrativa e financeira.
Também atribuiu ao Banco Central a condução da política monetária necessária ao cumprimento das metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional.
O princípio que sustenta esse modelo é justamente proteger as decisões de política monetária de interferências políticas de curto prazo.
E o Brasil não está isolado nessa escolha.
A independência dos bancos centrais é um modelo amplamente adotado internacionalmente, especialmente como instrumento institucional para separar decisões de política monetária dos interesses imediatos dos governos.
Uma declaração que merece atenção
É justamente por isso que a afirmação feita por Lula merece ser registrada.
Não estamos falando apenas de uma crítica à taxa de juros ou a uma determinada decisão do Banco Central.
O presidente defendeu maior poder presidencial sobre decisões econômicas, enquanto o modelo institucional atualmente em vigor procura estabelecer limites justamente para a interferência política na condução da política monetária.
A legislação existente pode ser modificada pelas instituições competentes, seguindo os procedimentos previstos no ordenamento brasileiro.
Mas enquanto estiver em vigor, existe uma regra estabelecida.
E, quando um candidato à Presidência manifesta intenção de alterar a relação entre poder político e decisões econômicas, o eleitor tem o direito de saber exatamente o alcance da mudança defendida.
O STF continuou na campanha
Ontem encerramos esta coluna com uma pergunta:
“O STF entrou na campanha. Agora veremos se permanecerá nela.”
Não demorou muito para surgir uma primeira resposta.

Depois da conturbada sessão de terça-feira, encerrada sem conclusão após o pedido de vista do ministro Flávio Dino, manifestações defendendo o chamado voto útil em Flávio Bolsonaro ganharam espaço nas redes sociais.
A mensagem que passou a circular é direta: eleitores defendem concentrar votos em Flávio na tentativa de encerrar a eleição presidencial ainda no primeiro turno.
O calendário entrou na discussão
O pedido de vista permite que Flávio Dino permaneça com o processo por até 90 dias, embora possa devolvê-lo antes.
O prazo máximo ultrapassa a data das eleições.
E esse elemento passou a aparecer justamente nas manifestações que relacionam o episódio do Supremo à defesa do voto útil.
Não temos elementos para medir quantas pessoas participam desse movimento, muito menos para saber qual será seu alcance eleitoral.
Mas existe um fato político:
uma decisão processual tomada dentro do Supremo passou a ser utilizada como argumento eleitoral fora dele.
Fogo de palha ou movimento?
Agora começa outra observação.
As manifestações permanecerão restritas às redes sociais?
Ganharão espaço nos discursos da campanha?
Outros candidatos reagirão?
Ou desaparecerão rapidamente, substituídas pelo próximo assunto da eleição?
Ainda não existe resposta.
Mas aquilo que ontem era uma pergunta para esta coluna já ganhou um primeiro elemento concreto.
O STF permaneceu na campanha. O que ainda não sabemos é por quanto tempo — e com qual dimensão.
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