A Mulher de César

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Já faz algum tempo, coordenei uma campanha política para governador. O candidato acabou eleito. Nesse período, eu tinha um Opala marrom, modelo Comodoro. Um ano e meio depois, troquei o Comodoro por uma Parati. No ano seguinte, iniciei as negociações para, uma vez mais, trocar de carro.

Eu continuava trabalhando na mesma agência de propaganda, que agora atendia algumas contas do governo, e ganhava bem. Pelo menos imaginava ganhar bem, até porque os parâmetros daqueles tempos eram bem mais modestos que os atuais.

Uma noite, o governador me telefona. Vai direto ao assunto:

– Você está comprando um carro novo?

Com a resposta afirmativa, ele faz nova pergunta:

– A Parati está estragada? Tem algum problema?

Digo que não. Ele continua:

– Então vou lhe pedir um favor: fica com a Parati até o fim do governo.

Pergunto por que, não estava entendendo o rumo da conversa. Ele explica que isso vai dar o que falar. Insisto que não há motivos para falação, não sou funcionário do governo, o dinheiro é meu, economia de salário…

– As coisas não são como você imagina… – Apesar das reticências, percebo que ele deixou de argumentar; está ordenando. – Você pode não ser funcionário do governo, mas trabalha para o governo. Sei que o seu dinheiro é honesto, ganho com seu trabalho. Mas sempre vai aparecer alguém para dizer que é dinheiro público. No mínimo vão dizer que você está ganhando demais, que gasto muito com propaganda.

Finalizou com um ditado que passaria a ouvir muitas vezes, no mundo político:

– “À mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta!” O ditado também vale para os amigos.

A Parati vermelha ficou mais quatro anos comigo.

Quando a vendi, tinha rodado quase 300 mil quilômetros.

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