“A luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.” A passagem do Evangelho de João (3:19) parece ter encontrado uma representação contemporânea na Avenida Paulista, onde um evangelista solitário, de Bíblia aberta e microfone nas mãos, tentou anunciar a palavra de Cristo em meio a uma multidão de militantes petistas. A imagem parece saída diretamente da imaginação de Dante Alighieri, com seus círculos infernais povoados pela cólera, pela soberba e pelas paixões humanas desgovernadas.

A composição visual é impressionante. De um lado, um homem de camisa branca e gravata, procurando transmitir sua mensagem religiosa. Do outro, uma multidão agitada, bandeiras vermelhas, gritos e gestos de hostilidade. Há naquele cenário uma antiestética perturbadora, um espetáculo de desalinho, estridência e desordem que parece traduzir visualmente a ruptura com os ideais clássicos de harmonia, proporção e beleza. Não é difícil reconhecer ali uma expressão da cultura política que transformou a transgressão em virtude e a desconstrução dos valores tradicionais em programa ideológico.

A tradição filosófica ocidental aproximou o belo, o bom e o verdadeiro como manifestações de uma ordem superior. Determinadas correntes revolucionárias modernas fizeram precisamente do enfrentamento dessa ordem seu projeto cultural. O grotesco passou a ser celebrado, a provocação elevada à condição de linguagem e a destruição dos referenciais tradicionais apresentada como emancipação. Na Paulista, essa disposição encontrou uma representação quase caricatural.

Mas a cena ultrapassou a estética. Cercado por manifestantes hostis, o pregador denunciou a violência e advertiu que aquilo constituía intolerância religiosa. A resposta de um dos presentes foi tão colérica quanto reveladora: “É sim!”. Nenhuma tentativa de disfarçar o que estava acontecendo. A intolerância, longe de ser negada, era assumida diante da própria vítima. Entre os gritos de “Recua, fascista!”, uma manifestante ainda teria proclamado: “A salvação é Lula”. A frase resume o perigo espiritual da idolatria política, quando a devoção a um líder assume o vocabulário da redenção religiosa.

O desfecho da manifestação completou a alegoria. Houve registros de tumultos e depredações, enquanto estações do Metrô apresentaram vidros danificados, pichações e adesivos espalhados pelas instalações. O patrimônio público pagou a conta da fúria de participantes do ato. A marcha que se apresentava como celebração da democracia deixou também marcas concretas de intolerância e vandalismo.

Na Divina Comédia, Dante não retratou o inferno apenas como território de sofrimento, mas como expressão das deformações morais produzidas pelas escolhas humanas. Os violentos, os fraudulentos e os traidores ocupam lugares distintos naquela geografia espiritual, unidos pelo afastamento do bem. O espetáculo da Paulista oferece uma curiosa inversão: enquanto a multidão reivindicava superioridade moral, um homem sozinho insistia em anunciar uma verdade que não dependia de partidos, governos ou resultados eleitorais.

A ironia é devastadora. Aqueles que proclamam tolerância e diversidade deveriam ser os primeiros a respeitar o direito de alguém professar publicamente sua fé. Quando a liberdade passa a depender da concordância ideológica, deixa de ser liberdade e se transforma em privilégio concedido pelos donos da ocasião.

O evangelista não precisava de Virgílio para atravessar aquele cenário. Tinha consigo a Bíblia e a convicção de sua missão. E, diante dos registros de intolerância e destruição, outro ensinamento de Cristo oferece a conclusão mais apropriada: “Por seus frutos os conhecereis.” (Mateus 7:16). Os discursos desapareceram no ar. As marcas do vandalismo permaneceram como o carimbo mais eloquente daquela manifestação.

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