Independência e Respeito

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Em 1982, eu me encontrava em Curitiba, trabalhando em publicidade. Quando estudante – e enquanto professor – tive atividade política em agremiações de esquerda. Este era um tempo em que política se fazia com idéias e algum talento para advogá-las. Havia comícios, discursos, passeatas, caminhadas em busca do eleitor para um aperto de mão. Na TV, valia o olho no olho, os marqueteiros ainda não tinham se inventado, nem se ofereciam pelo melhor preço. Trabalhava-se de graça, por opção! No Paraná, um amigo vence a convenção do PMDB e sai candidato a governador. Para ajudá-lo na empreitada, recorre a antigos militantes da esquerda, agora profissionais da publicidade. Assim, aprendi na prática a trabalhar numa campanha política. Passada a eleição, fui transferido. Durante quase quatro anos toquei minha vidinha: nas folgas de trabalho da agência de propaganda, escrevi mais alguns livros e viajei pelo Brasil ministrando palestras sobre leitura e educação.

Maio de 1986. Um amigo aparece na agência pedindo favor. Precisa produzir algumas peças – de graça! – para um candidato a governador, amigo dele (que eu não conhecia). Os lay-outs prontos ficaram dormindo no gaveteiro, uma vez que o amigo viajou para a Europa sem encaminhar o assunto. Num domingo à noite, buscam-me em casa. É assim: sujeito indefinido, muitas vezes no plural, como são as coisas da política. É preciso mostrar a campanha para o candidato a governador. Está todo mundo assustado. Alguém comenta que “o homem” está uma fera, onde já se viu tamanha irresponsabilidade, está tudo atrasado! Passei na agência, peguei os lay-outs e fui conhecer “o homem”. A fama dele era de “brabo”, acostumado a mandar, a ser obedecido sem questionamentos.

Assim que entrei na sala, cheia de gente, todos os olhares se dirigiram para mim, acusadores. Eu era culpado, estava atrasando a campanha, não tinha produzido as peças… Apressados, me levaram para um escritório, onde “o homem” realmente se mostrava irritado. Cumprimentei-o educadamente, tirei os lay-outs da pasta. Enquanto procurava um lugar livre sobre a mesa onde colocá-los, escutei o início de um sermão. Tentei falar, queria explicar o absurdo do acontecimento. Inútil. Ele não me deixava falar. Educadamente, deixei os lay-outs sobre a mesa, pedi licença e me retirei. Cruzei a sala debaixo de olhares atônicos. Antes de chegar à calçada, fizeram-me voltar (sempre o sujeito indefinido, plural).

Ele se encontrava estupefato. Imagino que nunca ninguém antes lhe tivesse feito tamanha desfeita. “Que foi?”, quis saber.

Era minha vez de fazer perguntas… Ele me conhecia? Não, não me conhecia. Ele tinha me encomendado o trabalho? Não. Alguém estava pagando pelo meu trabalho? Inclusive pelas horas extras de domingo à noite?…

Ele permanecia estranhamento quieto, parado em pé atrás da escrivaninha. Seu silêncio era revelador. Ele não sabia tostão do acontecido. Expliquei-lhe então, calmamente, que ninguém estava pagando pelo trabalho. Contei que os lay-outs estavam prontos fazia mais de mês, mas ninguém do seu comitê tinha me procurado. Voltei às perguntas… Como ele podia brigar comigo sem me conhecer? Sem ter me encomendado o trabalho? Por um trabalho feito de graça? Se a culpa dos lay-outs ficarem na gaveta não era minha?… Daí para frente, entre nós, estabeleceu-se uma relação de respeito mútuo.

Hoje, sei que esse diálogo só foi possível porque eu não dependia dele, nem do governo, nem do seu projeto político. Assim, podia ser um amigo desinteressado. Trabalhar para ele ou para o governo seria uma circunstância passageira. Eu podia passar sem isso. Tinha vivido até ali sem depender de governo algum, e ia continuar a viver do mesmo jeito no futuro. Em resumo: eu era capaz de me sustentar sozinho, eu “me bastava”…

História que garantiu – por décadas – minha sobrevivência no mundo da política.

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