Crenças de Dona Risoleta
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Dona Risoleta era mulher revolucionária para seu tempo. Ainda jovem, casou-se com moço de família tradicional, no civil e religioso, como mandava a tradição e os costumes católicos.
Advogado brilhante, o moço faz rápida carreira na magistratura; antes dos 40 ocupa cargo de procurador do Estado. Os dois filhos do casal, já adultos, vivem independentes. É quando Dona Risoleta, para escândalo da família e dos amigos, resolve se desquitar e viver vida própria. Muda de cidade, inicia negócio, transforma-se em empreendedora de sucesso.
Muda também de vida, de religião. O espiritismo traz respostas para suas muitas perguntas e paz para o espírito angustiado. Continua discípula de Alan Kardec até a velhice.
Os negócios caminham quase que sozinhos, entregues ao comando de uma leal funcionária de muitos anos. Gosta de desenhar, pintar. Tem talento. A oportunidade de novo desafio surge ao conhecer outro empreendedor que inicia negócio novo na cidade: uma editora. Os livros ilustrados por Dona Risoleta fazem sucesso e ela amplia seu círculo de relacionamento. Jovens intelectuais passam a freqüentar seu apartamento, seduzidos pela conversa inteligente e bem humorada e pelos doces – receitas secretas da família – servidos no café da tarde.
Mais dia menos dia, as inquietações da alma humana resvalam para as controvérsias de crenças e religiões. No grupo dos novos amigos de Dona Risoleta há católicos, protestantes, agnósticos, ateus de diversos matizes. Leonid tem berço e tradição de ateu. O nome é uma homenagem do pai a um dos revolucionários russos. Como o pai, também ele é comunista, militante, pregador. Faz tempo que busca “converter” a velha senhora. Naquele dia, ela resolve dar por finda a controvérsia.
– Filho – interrompe Risoleta – pra que complicar minha vida? O mundo vai mudar se eu virar comunista? Se eu mudar de religião? Se deixar de acreditar em Deus? Estou velha. Me deixa viver esses últimos anos, com minha crença, com meus valores. Quero morrer em paz…
Dona Risoleta faleceu em paz.
