Sem bets, clubes perdem quase R$ 1 bilhão em patrocínios e ampliam crise financeira
Proibição determinada pelo governo Lula atinge uma das principais fontes de receita do futebol brasileiro; enquanto clubes perdem patrocínios, alternativa discutida é uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões.

O futebol brasileiro já enfrentava uma grave situação financeira antes mesmo da proibição das bets.
Agora, perdeu uma de suas principais fontes de receita.
A Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proibiu no Brasil a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line.
A decisão produz efeito direto sobre os clubes.
Dos 20 times que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro, 14 possuem atualmente uma casa de apostas como patrocinadora máster.
Somados, esses contratos representam aproximadamente R$ 910 milhões por ano.
Considerando o conjunto mais amplo de patrocínios pagos pelas bets aos principais clubes, o setor movimentou mais de R$ 1,1 bilhão em 2025.
É muito dinheiro para um futebol que já opera fortemente endividado.
Levantamento da EY mostra que os clubes da Série A de 2025 acumulavam R$ 14,3 bilhões em endividamento líquido, crescimento de 15% em apenas um ano.
Outro levantamento, realizado a partir dos balanços dos clubes, mostra que 11 equipes brasileiras possuem dívidas superiores a R$ 1 bilhão. Corinthians, Atlético-MG, São Paulo e Botafogo apresentam passivos superiores a R$ 2 bilhões.
E os problemas de caixa já aparecem no cotidiano.
O Corinthians voltou a atrasar direitos de imagem e acumulava aproximadamente R$ 25 milhões em compromissos pendentes com jogadores e comissão técnica. O São Paulo também precisou recorrer a antecipação de receitas e crédito para regularizar salários atrasados.
É nesse cenário que desaparecem quase R$ 1 bilhão anuais em patrocínios.
A preocupação dos dirigentes começou antes mesmo da publicação da medida.
Clubes e federações divulgaram manifesto alertando para consequências graves da proibição, enquanto casas de apostas começaram a comunicar às equipes a possibilidade de encerramento dos contratos.
O impacto vai além da marca estampada na parte principal das camisas.
As bets também investem em placas de publicidade, campeonatos, transmissões, mídia digital e outras propriedades comerciais ligadas ao futebol.
Em 2025, elas representaram aproximadamente um em cada três reais das receitas comerciais dos clubes da Série A.
Retirar uma receita dessa dimensão de maneira praticamente imediata cria um novo problema para equipes que já convivem com elevados compromissos financeiros.
E a preocupação mais imediata é o caixa.
Salários.
Direitos de imagem.
Parcelas de contratações.
Impostos.
Empréstimos.
Custos operacionais.
Tudo continua vencendo mensalmente.
O patrocínio, não.
A resposta que está sendo construída envolve novamente dinheiro.
Governo federal, clubes e CBF discutem uma linha de financiamento pelo BNDES que poderá chegar a R$ 20 bilhões.
A proposta prevê empréstimos com juros inferiores aos encontrados atualmente pelos clubes no mercado, permitindo substituir dívidas mais caras por financiamentos de prazo maior.
O modelo ainda não está definido.
Também não existe, até agora, aprovação formal dos R$ 20 bilhões.
Mas a discussão ganhou velocidade justamente no momento em que a proibição das bets passou a ameaçar uma das principais receitas comerciais do futebol.
E aqui existe uma diferença fundamental.
Patrocínio é receita. Empréstimo é dívida.
Um contrato de patrocínio coloca dinheiro no caixa do clube em troca de exposição comercial.
Uma linha de crédito coloca dinheiro no caixa hoje, mas precisa ser paga amanhã — acrescida de juros.
Para clubes que já acumulam bilhões em passivos, essa distinção não é pequena.
O crédito pode ajudar a reorganizar dívidas, substituir operações mais caras e evitar problemas imediatos de caixa.
Mas não substitui permanentemente uma fonte de receita.
O futebol brasileiro precisa encontrar novos patrocinadores, novas receitas comerciais e maior capacidade de administrar seus custos.
Caso contrário, trocar patrocínio por empréstimo apenas adia o problema.
Existe ainda o impacto esportivo.
Os clubes brasileiros já competem por jogadores com equipes da Europa, da Arábia Saudita, de outros mercados do Oriente Médio, dos Estados Unidos e, cada vez mais, de ligas capazes de oferecer salários elevados.
Menos receita significa menor capacidade de contratação e retenção de atletas.
Significa também menos dinheiro para categorias de base, estrutura, tecnologia e formação.
Por isso, a discussão que começa agora é maior do que a simples retirada de uma marca da camisa.
O governo proibiu uma atividade que havia se tornado um dos principais financiadores privados do futebol brasileiro.
A decisão está tomada.
O problema seguinte é saber como substituir essa receita.
O caminho em discussão até agora passa por crédito.
Mas o ponto central para os clubes é outro.
Quem já deve bilhões não precisa apenas de mais dinheiro emprestado. Precisa de receitas capazes de sustentar suas operações.
No futebol, isso tem um nome conhecido.
Patrocínio.
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