FNB Stadium: onde a África recebeu sua primeira Copa do Mundo
Palco da abertura e da final do Mundial de 2010, o estádio de Joanesburgo tornou-se símbolo do futebol africano e guarda uma ligação histórica com Nelson Mandela e a transformação democrática da África do Sul.

Existem estádios que entram para a história por grandes partidas. Outros representam clubes, cidades ou seleções. O FNB Stadium, em Joanesburgo, conseguiu reunir todas essas dimensões e acrescentar algo ainda maior: tornou-se cenário de acontecimentos que ajudam a contar a transformação política e social da África do Sul.
Também conhecido mundialmente como Soccer City, o estádio foi o principal palco da Copa do Mundo de 2010, a primeira realizada no continente africano. Foi ali que o torneio começou, foi ali que terminou e foi de suas arquibancadas que algumas das imagens mais marcantes daquele Mundial correram o planeta.
Localizado em Nasrec, na região de Soweto, ao sudoeste do centro de Joanesburgo, o estádio ocupa uma área especialmente simbólica. Nas proximidades está Soweto, comunidade profundamente ligada à luta contra o apartheid e à história contemporânea sul-africana. Também está próximo da sede da Associação de Futebol da África do Sul, reforçando sua condição de referência nacional para o esporte.
O estádio original foi inaugurado em 1989 e rapidamente assumiu posição central no futebol do país. Sua história, entretanto, ultrapassaria as quatro linhas poucos anos depois.
Em 1990, após passar 27 anos preso pelo regime do apartheid, Nelson Mandela participou no estádio de uma das grandes manifestações públicas realizadas depois de sua libertação. Diante de uma multidão, o homem que se tornaria presidente da África do Sul falava a uma sociedade que começava a atravessar uma das maiores mudanças de sua história.
O futebol e a política sul-africana passavam a compartilhar o mesmo endereço.
O estádio também recebeu, em 1993, o funeral de Chris Hani, importante liderança da luta contra o apartheid, assassinado naquele ano. Novamente, dezenas de milhares de pessoas ocuparam as arquibancadas não para acompanhar uma partida, mas para participar de um momento decisivo da história nacional.
Pouco depois, o futebol daria ao estádio outra memória.
Em 1996, a África do Sul sediou a Copa Africana de Nações. A competição possuía um significado especial para um país que havia permanecido durante anos isolado internacionalmente em razão do apartheid e começava a reconstruir sua presença nas instituições esportivas mundiais.
A seleção sul-africana chegou à final contra a Tunísia.
Em 3 de fevereiro de 1996, diante de uma multidão em Joanesburgo, Mark Williams marcou duas vezes e a África do Sul venceu por 2 a 0, conquistando pela primeira e até hoje única vez a Copa Africana de Nações.
A imagem de Nelson Mandela acompanhando aquela geração tornou-se parte da construção de um país que procurava utilizar o esporte como instrumento de aproximação entre diferentes grupos sociais. Um ano antes, o rugby já havia produzido uma das imagens mais conhecidas dessa estratégia de reconciliação nacional. Em 1996, foi a vez do futebol.
Mas a transformação definitiva do estádio aconteceria quando a África do Sul conquistou o direito de organizar a Copa do Mundo de 2010.
O antigo Soccer City foi praticamente reconstruído. As obras começaram em 2007 e ampliaram a arena para aproximadamente 94 mil lugares durante o Mundial, tornando-a o maior estádio da competição.
O projeto arquitetônico buscou deliberadamente uma identidade africana.
A fachada foi inspirada na calabash, recipiente tradicional produzido a partir de uma cabaça e utilizado em diferentes regiões do continente. Painéis em tons terrosos, avermelhados e alaranjados passaram a envolver o estádio, criando a aparência de uma enorme peça artesanal apoiada sobre uma base que, iluminada à noite, procura lembrar o fogo sob um recipiente.
A proposta era clara: o principal estádio da primeira Copa africana precisava parecer africano.
Essa escolha transformou o Soccer City em uma das arenas visualmente mais reconhecíveis construídas para uma Copa do Mundo.
Em 11 de junho de 2010, o momento esperado durante décadas finalmente chegou.
África do Sul e México entraram em campo para abrir o primeiro Mundial realizado no continente. Mais do que uma partida, aquele jogo carregava enorme significado simbólico.
Aos 55 minutos, Siphiwe Tshabalala recebeu pela esquerda, avançou e acertou um chute poderoso no ângulo do goleiro mexicano Óscar Pérez.
Era o primeiro gol da Copa do Mundo da África.
A narração, a explosão das arquibancadas e a comemoração coletiva dos jogadores sul-africanos transformaram o lance em uma das imagens eternas dos Mundiais. O México ainda empataria com Rafael Márquez, e a partida terminaria em 1 a 1.
O resultado acabou se tornando secundário diante do significado daquele gol.
Durante um mês, o FNB Stadium permaneceu no centro da competição. Recebeu partidas da fase de grupos, das oitavas de final, das quartas e voltou a ser escolhido para o acontecimento máximo do futebol mundial.
Em 11 de julho de 2010, Espanha e Holanda entraram em campo para disputar a final.
Nenhuma das duas seleções havia sido campeã mundial.
A partida foi intensa, equilibrada e marcada por forte disputa física. Aos 116 minutos da prorrogação, quando a possibilidade de decisão por pênaltis começava a se aproximar, Andrés Iniesta recebeu dentro da área e marcou o gol que mudaria a história do futebol espanhol.
Espanha 1 a 0.
Pela primeira vez, o país era campeão mundial.
O FNB Stadium havia aberto a primeira Copa da África com o gol de Tshabalala e a encerrava testemunhando o primeiro título mundial da Espanha.
Entre uma imagem e outra, o continente havia recebido o mundo.
A Copa de 2010 também deixou uma marca sonora impossível de separar do estádio: as vuvuzelas. O som contínuo produzido pelas tradicionais cornetas sul-africanas acompanhou praticamente todas as partidas e dividiu opiniões entre jogadores, jornalistas e torcedores estrangeiros.
Para os sul-africanos, porém, as vuvuzelas faziam parte de uma cultura de arquibancada muito anterior ao Mundial.
Dentro do Soccer City, com dezenas de milhares delas sendo tocadas simultaneamente, o ruído tornou-se a trilha sonora de uma Copa inteira.
Depois do Mundial, o estádio retomou sua função cotidiana. O FNB Stadium tornou-se a principal casa do Kaizer Chiefs, um dos clubes mais populares da África e gigante do futebol sul-africano.
Suas arquibancadas recebem também o Soweto Derby, disputado entre Kaizer Chiefs e Orlando Pirates. A rivalidade é uma das maiores do continente africano e mobiliza torcedores muito além de Joanesburgo.
Quando os dois clubes se enfrentam, o estádio que recebeu uma final de Copa do Mundo assume outra identidade. As cores, os cantos e as rivalidades locais substituem o ambiente internacional, demonstrando que a arena conseguiu algo fundamental para qualquer legado esportivo: continuar viva depois do grande evento.
A seleção sul-africana também utiliza o FNB Stadium em partidas importantes, mantendo a relação entre o local e os Bafana Bafana.
Mas nenhum acontecimento posterior reforçou tanto sua dimensão histórica quanto o ocorrido em dezembro de 2013.
Nelson Mandela morreu aos 95 anos.
O mesmo estádio que havia recebido uma grande manifestação após sua libertação em 1990 foi escolhido para sediar a principal cerimônia pública em sua homenagem.
Chefes de Estado, autoridades internacionais e dezenas de milhares de sul-africanos participaram do evento. Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, esteve entre os líderes que discursaram.
O ciclo histórico era impressionante.
Mandela havia passado pelo estádio no momento em que a África do Sul começava a desmontar o apartheid.
Duas décadas depois, o país retornava ao mesmo lugar para se despedir dele.
Poucos estádios do mundo possuem uma ligação tão direta com a trajetória política de uma nação.
O FNB Stadium também recebeu grandes apresentações musicais e eventos internacionais, aproveitando sua enorme capacidade e a infraestrutura criada para o Mundial. Artistas como U2, Coldplay, Ed Sheeran e Red Hot Chili Peppers estiveram entre os nomes que utilizaram a arena.
Ainda assim, é o futebol que continua definindo sua imagem mundial.
Em uma série dedicada aos Templos do Futebol, o FNB Stadium merece uma posição especial porque sua história demonstra que alguns estádios ultrapassam completamente os limites do esporte.
Ali, a África do Sul celebrou seu maior título continental.
Ali, Nelson Mandela falou ao país depois de recuperar a liberdade.
Ali, Tshabalala marcou o primeiro gol da primeira Copa do Mundo africana.
Ali, Andrés Iniesta transformou a Espanha em campeã mundial.
E ali, anos depois, milhares de pessoas voltaram a se reunir para se despedir de Mandela.
Poucos lugares conseguem concentrar futebol, política, transformação social e memória coletiva dessa maneira.
Quando a FIFA decidiu realizar uma Copa do Mundo pela primeira vez na África, precisava de um palco que representasse algo maior do que uma competição.
Encontrou em Joanesburgo uma arena em forma de calabash.
O mundo a conheceu como Soccer City.
A África já sabia que aquele lugar significava muito mais.
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