Em 2006, no segundo turno para o governo de Santa Catarina, Esperidião Amin (PP) protagonizou uma composição política que, vinte anos depois, volta a chamar atenção. Amin enfrentava Luiz Henrique da Silveira (PMDB), enquanto José Fritsch (PT), eliminado no primeiro turno, deixava o partido diante de uma nova equação eleitoral: o apoio petista a Amin estava vinculado ao apoio de Amin à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Geraldo Alckmin (PSDB).

A história, porém, começa antes e ajuda a entender por que aquela mudança foi tão significativa. Em 1994, Esperidião Amin, então no PPR, foi ele próprio candidato à Presidência da República e adversário de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que venceu a eleição. Três anos depois, já presidente nacional do PPB, partido surgido da fusão do PPR com o PP, Amin anunciou que sua legenda apoiaria a reeleição de Fernando Henrique em 1998, chegando a dizer que o faria “sem ciúmes”. Em 2002, novamente alinhado aos tucanos na disputa presidencial, apoiou José Serra (PSDB). E, no início da campanha de 2006, chegou a acompanhar visitas de Geraldo Alckmin a Santa Catarina.

Foi justamente esse histórico que tornou tão expressiva a guinada ocorrida no segundo turno de 2006. Luiz Henrique apoiava Alckmin, enquanto o PT catarinense, que quatro anos antes havia ajudado o próprio Luiz Henrique a virar uma eleição contra Amin, agora se dispunha a mudar de lado. A condição era clara: o apoio a Amin em Santa Catarina passava pelo apoio a Lula nacionalmente. Amin inicialmente resistiu, inclusive porque Alckmin havia vencido Lula no Estado por larga margem no primeiro turno.

A aproximação começou a ganhar corpo quando Hugo Biehl (PP), candidato a vice-governador na chapa de Amin, declarou apoio a Lula. Ao comentar a decisão, Amin respondeu com uma frase que parece ter sido feita para atravessar sua própria trajetória política: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo.” Disse ainda que a decisão de Biehl era um bom exemplo e que bons exemplos deveriam ser seguidos.

E seguiu. Poucos dias depois, Amin declarou voto em Lula. Mais do que isso: percorreu Tubarão, Araranguá e Criciúma com o adesivo 13 colado no peito. O político que havia apoiado Fernando Henrique em 1998, José Serra em 2002 e acompanhado Alckmin durante a campanha de 2006 terminava aquela mesma eleição trabalhando pela vitória de Lula. Amin virou a casaca.

Em troca, recebeu o apoio de setores da militância petista. A composição produziu cenas improváveis. Hugo Biehl, identificado com o setor ruralista, apareceu ao lado de Luci Choinacki (PT), historicamente ligada aos movimentos sociais e à defesa do MST. Diante do evidente contraste, ela própria tratou de estabelecer os limites daquela convivência: estavam juntos “só na campanha”.

A volta era ainda mais completa porque, em 2002, a situação havia sido praticamente inversa. Naquele ano, o apoio do PT a Luiz Henrique fora importante para uma virada sobre Amin no segundo turno. Quatro anos depois, Luiz Henrique estava com Alckmin e o PT passava para o lado de Amin. O adversário de ontem tornava-se aliado circunstancial; o aliado de ontem passava para o outro campo; e Amin, que começara 2006 próximo do candidato presidencial tucano, terminava com o 13 no peito.

Para ver como o mundo dá voltas, basta acompanhar Geraldo Alckmin. O adversário de Lula em 2006 permaneceu durante anos no PSDB e como antagonista do PT. Em 2017, chegou a dizer que Lula pretendia “voltar à cena do crime”. Hoje, Alckmin está no PSB, é vice-presidente da República e novamente candidato a vice na chapa de Lula. O homem contra quem Amin virou a casaca em 2006 acabou, ele próprio, ao lado de Lula.

A história de Amin ainda daria outras voltas. Em 2018, quando se elegeu senador, integrava a coligação “Aqui é Trabalho”, a grande aliança encabeçada por Gelson Merísio, então no PSD, para o governo de Santa Catarina. Amin foi o senador mais votado, com 1.226.064 votos. Merísio, por sua vez, declarou naquele ano voto em Jair Bolsonaro.

Hoje, Gelson Merísio está no PSB, é candidato ao governo de Santa Catarina e tem o apoio de Lula. Sua candidata a vice é Angela Albino (PDT), histórica dirigente do PCdoB, legenda pela qual foi vereadora de Florianópolis e deputada estadual e exerceu mandato de deputada federal como suplente convocada. Merísio também integra, desde 2020, o Conselho de Administração da JBS como conselheiro independente. A companhia é controlada pela J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, grupo que esteve no centro de grandes escândalos político-empresariais e cuja controladora firmou com o Ministério Público Federal acordo de leniência de R$ 10,3 bilhões em 2017.

A aproximação política de Merísio com Lula já estava explícita em 2022. Depois de ter declarado voto em Bolsonaro em 2018, Merísio apoiou Lula quatro anos depois e coordenou a campanha de Décio Lima (PT) ao governo de Santa Catarina. O próprio Merísio descreveu posteriormente essa mudança como um “cavalo de pau”. Agora é o candidato escolhido para representar o campo apoiado por Lula na disputa pelo governo catarinense. Estariam Amin e Merísio juntos de novo agora? Mesmo que informalmente?

A ironia histórica não termina aí. Luiz Henrique, o homem que derrotou Amin em 2002 e novamente em 2006, pertencia ao PMDB. O partido mudou posteriormente seu nome para MDB e reaparece agora dentro da própria candidatura de Amin: seu primeiro suplente ao Senado em 2026 é Volnei Weber (MDB). O segundo é Eni Voltolini (PP). O partido do adversário que impediu Amin de voltar ao governo catarinense ocupa, vinte anos depois, a primeira suplência de sua candidatura ao Senado.

E então chegamos a 2026. Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) são candidatos ao Senado do campo que sustenta Merísio e Lula em Santa Catarina, mas aparecem atrás dos três primeiros colocados nas pesquisas mais recentes. A última pesquisa Quaest divulgada registrou Carol De Toni (PL) com 17%, Carlos Bolsonaro (PL) com 16%, Amin com 15%, Décio com 10% e Afrânio com 4%, em seu método de consolidação dos dois votos para o Senado. O Paraná Pesquisas, divulgado na semana passada e apresentado pelo percentual de eleitores que citam cada candidato, mostrou Carol com 42,3%, Carlos com 36%, Amin com 34,2%, Décio com 15,6% e Afrânio com 6,6%. Como cada eleitor catarinense poderá votar em dois candidatos ao Senado, os percentuais desse levantamento naturalmente podem somar mais de 100%.

É nesse cenário que começam a aparecer manifestações de eleitores de esquerda cogitando Amin como voto útil para tentar impedir a eleição de Carlos Bolsonaro. A lógica é familiar: quando um adversário passa a ser considerado prioritário, diferenças políticas históricas podem ser temporariamente deixadas de lado. Exatamente a lógica sintetizada por Amin vinte anos atrás: “O inimigo do meu inimigo é meu amigo.”

A sequência é quase um resumo da elasticidade da política. Alckmin foi adversário de Lula e hoje é seu vice. Merísio estava no PSD, integrou uma grande composição com Amin e declarou voto em Bolsonaro; hoje está no PSB, disputa o governo apoiado por Lula, tem como vice uma histórica dirigente do PCdoB hoje no PDT e ocupa há anos uma cadeira no Conselho de Administração da JBS. O PMDB de Luiz Henrique derrotou Amin; seu sucessor, o MDB, agora fornece seu primeiro suplente. O PT esteve contra Amin, depois colocou parte de sua militância ao lado dele, viu-o vestir o 13 e, duas décadas depois, setores da esquerda voltam a enxergá-lo como possível instrumento eleitoral contra outro adversário.

É nesse emaranhado de aproximações, afastamentos, mudanças de lado e reencontros que a imagem do camaleão da política aplicada a Amin encontra sua matéria-prima. O episódio de 2006 é especialmente ilustrativo porque não se tratou apenas de receber votos de um campo adversário. Amin passou, durante a própria campanha, de acompanhar Alckmin a declarar voto em Lula e colocar o 13 no peito.

Mas há agora um ingrediente que torna a repetição ainda mais curiosa. Até outro dia, Amin fazia questão de marcar posição ao lado de Jair Bolsonaro (PL). Na eleição de 2022, declarou publicamente: “Eu vou votar no Bolsonaro”. Em 2024, já no Senado, manifestou solidariedade ao ex-presidente, recordou que o conhecia havia mais de três décadas e afirmou da tribuna: “Eu tenho lado”. O alinhamento não era algo presumido ou atribuído a ele por terceiros; Amin o declarava publicamente.

Agora, porém, disputa uma das vagas ao Senado justamente contra Carlos Bolsonaro (PL). A composição inicialmente desejada por Jorginho Mello incluía Amin, mas a definição da chapa do PL com Carlos e Carol De Toni deixou o senador do PP de fora. Amin seguiu outro caminho e passou a apoiar João Rodrigues (PSD) para o governo. Ao mesmo tempo, começa a ser cogitado por setores da esquerda como voto útil para impedir a eleição de Carlos.

A história, portanto, parece retornar ao ponto de partida. Em 2006, Amin acompanhava Alckmin, mudou de lado diante da nova configuração eleitoral, declarou voto em Lula e colocou o 13 no peito. Vinte anos depois, depois de se apresentar publicamente ao lado de Bolsonaro, encontra-se disputando diretamente contra um Bolsonaro e recebendo acenos de eleitores do campo político adversário. Irá virar a casaca de novo?

Só há um detalhe incômodo para quem enxergar em 2006 um roteiro a ser repetido. Naquela eleição, a composição funcionou para Lula, que se reelegeu presidente. Para Amin, nem o apoio petista nem o 13 no peito foram suficientes: Luiz Henrique venceu a eleição catarinense. Se a velha máxima estiver novamente orientando os movimentos desta eleição, convém lembrar: da outra vez, para Amin, não deu certo.

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