Quando o vício supera a razão: o problema brasileiro termina nas bets?

Governo proibiu as apostas on-line sob o argumento de proteger famílias dos efeitos do jogo; Brasil, porém, convive com loterias oficiais, jogo do bicho, caça-níqueis clandestinos e outras modalidades que também movimentam apostas.

Existe um princípio difícil de contestar: quando o vício supera a razão, existe um problema.

Isso vale para apostas.

Vale para álcool.

Vale para drogas.

Vale para qualquer comportamento que deixe de ser uma escolha controlada e passe a dominar a vida de uma pessoa.

As bets podem, sim, produzir consequências graves.

Há pessoas que perderam economias, comprometeram salários, contraíram dívidas e desenvolveram dependência relacionada às apostas on-line.

Esse problema existe no Brasil e em diferentes partes do mundo.

Mas, diante da decisão do governo federal de proibir as bets, surge uma questão que merece ser enfrentada com objetividade:

o problema brasileiro com jogos e apostas termina nas bets?

Evidentemente, não.

O Brasil convive há décadas com diferentes modalidades de jogo.

Algumas são legais.

Outras são ilegais.

Outras funcionam clandestinamente apesar de sucessivas operações policiais.

O jogo do bicho, por exemplo, existe no país há mais de um século e permanece ilegal. As máquinas caça-níqueis também são proibidas, mas continuam aparecendo regularmente em operações de fiscalização e apreensão. A própria Câmara dos Deputados registra que jogo do bicho, cassinos clandestinos e caça-níqueis operam historicamente à margem da legislação.

Ao mesmo tempo, o próprio Estado brasileiro explora diferentes modalidades de apostas por meio das Loterias Caixa.

Mega-Sena.

Lotofácil.

Quina.

Dupla Sena.

Lotomania.

Timemania.

Loteca.

Dia de Sorte.

Super Sete.

+Milionária.

Entre outras.

São jogos legais, regulamentados e oferecidos por uma empresa pública federal.

A dimensão desse mercado é significativa.

Somente no primeiro semestre de 2025, as Loterias Caixa arrecadaram R$ 11,6 bilhões. Desse montante, aproximadamente R$ 4,4 bilhões foram destinados a programas e fundos públicos ligados a seguridade social, esporte, cultura, segurança, educação e saúde.

A Mega da Virada oferece um exemplo ainda mais visível.

A edição de 2025 arrecadou mais de R$ 3 bilhões e distribuiu um prêmio total de R$ 1,091 bilhão, dividido entre seis apostas vencedoras.

Foi o maior prêmio da história das loterias brasileiras.

Portanto, o brasileiro continua podendo apostar.

O que mudou foi a modalidade permitida.

E é exatamente aí que começa uma discussão que precisa ser mais ampla.

Se o fundamento utilizado para eliminar as bets é o risco de dependência, endividamento e destruição financeira de famílias, então o país precisa definir qual política pretende adotar para o jogo de maneira geral.

Porque o risco de comportamento compulsivo não nasce exclusivamente com uma casa de apostas esportivas.

É verdade que existem diferenças importantes entre modalidades.

Jogos on-line de funcionamento contínuo, especialmente aqueles semelhantes a caça-níqueis digitais, permitem apostas sucessivas durante 24 horas por dia e são apontados como particularmente preocupantes em discussões sobre ludopatia. Esse risco foi destacado inclusive durante debates no Senado sobre a regulamentação do setor.

Uma Mega-Sena com sorteios em dias determinados não possui exatamente a mesma dinâmica de um cassino on-line disponível permanentemente.

Essa diferença existe.

Mas ela reforça justamente a necessidade de uma política coerente baseada em graus de risco, controles, limites e prevenção — e não apenas em escolher uma modalidade para desaparecer enquanto todas as demais continuam existindo.

O governo brasileiro havia seguido esse caminho quando regulamentou as bets.

Criou identificação obrigatória dos jogadores.

Estabeleceu regras de funcionamento.

Passou a bloquear operadores clandestinos.

Determinou limites para publicidade.

Criou mecanismos de fiscalização.

Somente em 2025, a Anatel bloqueou aproximadamente 25 mil sites ilegais de apostas, enquanto 25,2 milhões de brasileiros utilizaram o mercado legal naquele ano.

Agora o modelo mudou completamente.

As bets foram proibidas.

Mas o brasileiro que possui comportamento compulsivo continuará encontrando possibilidades de apostar.

Nas loterias oficiais.

Em plataformas clandestinas que tentarem permanecer acessíveis.

No jogo do bicho.

Em caça-níqueis ilegais.

Ou em outros mercados que surgirem.

Esse é o ponto que merece reflexão.

Eliminar uma modalidade elimina o vício ou apenas desloca o apostador para outra?

A história do jogo mostra que proibição e existência clandestina frequentemente caminham juntas.

O jogo do bicho é ilegal há décadas e continua funcionando.

Caça-níqueis são proibidos e continuam sendo apreendidos.

Sites ilegais de apostas foram bloqueados aos milhares mesmo durante a existência de um mercado regulamentado.

Portanto, existe uma discussão maior do que simplesmente ser favorável ou contrário às bets.

O país precisa decidir como pretende tratar o jogo compulsivo.

Se é um problema de saúde pública, precisa de tratamento.

Se determinados produtos apresentam risco elevado, precisam de controles proporcionais a esse risco.

Se existe publicidade abusiva, precisa ser limitada.

Se pessoas vulneráveis estão comprometendo renda indispensável à sobrevivência, mecanismos de proteção precisam ser discutidos.

Se existem operadores clandestinos, precisam ser combatidos.

Mas a política precisa ter coerência.

O Estado não pode tratar o ato de apostar como socialmente destrutivo em uma modalidade e, simultaneamente, incentivar outras apostas simplesmente porque são exploradas pelo próprio poder público.

Isso não significa equiparar todas as formas de jogo.

Significa fazer a pergunta correta.

O problema são as bets ou o problema é o vício em apostas?

Se a resposta for a segunda, proibir uma modalidade será apenas uma parte de uma questão muito maior.

O Brasil continuará tendo loterias.

Continuará enfrentando jogo clandestino.

Continuará tendo pessoas capazes de jogar com equilíbrio.

E continuará tendo pessoas para quem o jogo ultrapassa o limite da razão.

É sobre estas últimas que uma verdadeira política pública precisa se concentrar.

Porque o nome da plataforma pode mudar.

O tipo de aposta também.

Quando o vício supera a razão, o problema permanece.

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