BRIVAEL LE POGAM, A NOVA DIREITA FRANCESA

Há uma cena recorrente na política contemporânea ocidental: basta alguém defender menos Estado, propriedade privada, liberdade econômica, controle das fronteiras ou a preservação da cultura nacional para que a discussão deixe de ser sobre aquilo que essa pessoa está dizendo. Surge a etiqueta — “extrême droite”, na França; “far right”, no mundo anglófono; “extrema derecha”, na Espanha e na América Latina; “estrema destra”, na Itália; “extrema-direita”, em Portugal e no Brasil; “Rechtsextremismus”, na Alemanha. Mudam a língua, o país e o sistema político; o rótulo permanece. Para Le Pogam, isso não é coincidência. É o produto de uma esquerda militante que, ao longo de décadas, ocupou posições estratégicas na imprensa, na academia e na formação política, influenciando inclusive partidos que se apresentam como de centro. O resultado é uma fronteira semântica que funciona quase da mesma maneira em diferentes democracias: determinadas ideias são desqualificadas antes de serem discutidas, simplesmente porque foram colocadas do lado errado da fronteira. É justamente contra esse mecanismo que Brivael Le Pogam construiu sua intervenção política.
Aos 36 anos, o francês chegou à política vindo de um lugar pouco habitual para um intelectual de direita: a engenharia de software e o empreendedorismo tecnológico. Começou a programar aos 12 anos. Aos 16, lançou um jogo on-line que chegou a 50 mil jogadores e lhe proporcionava uma renda superior à de seus professores. Depois vieram duas décadas de trabalho com sistemas distribuídos, a experiência na Teads e a sociedade com Laodis Menard, com quem fundaria sucessivas empresas de tecnologia.
Em 2016 surgiu a Owls, voltada aos jogadores de videogame e à formação de partidas entre usuários compatíveis. Em 2022 vieram a Snipets, projeto de inteligência artificial para trabalhar com informação, e o Imagine, relacionado a avatares de inteligência artificial. No ano seguinte nasceu a Argil, posteriormente concentrada na produção audiovisual com avatares digitais. Em 2024, a empresa entrou na turma Summer da Y Combinator, uma das mais prestigiadas aceleradoras de startups do mundo, e captou €4,9 milhões.
A trajetória empresarial é inseparável de sua visão política. Le Pogam pertence a uma geração para a qual tecnologia é ferramenta de trabalho, criação e riqueza. O verbo que organiza seu pensamento é build: construir. Builder é aquele que cria empresas, produtos e sistemas, assume riscos e transforma uma ideia em alguma coisa concreta. A oposição entre construir e desconstruir aparece repetidamente em seus textos.
É a partir daí que sua crítica à French Theory ganha sentido. Le Pogam coloca de um lado Descartes, Pascal e Tocqueville e, de outro, Foucault, Derrida e Deleuze. Sua crítica não é dirigida apenas às teorias individuais desses autores, mas ao que considera o resultado político de sua combinação e posterior difusão internacional.
Foucault aparece associado à interpretação das instituições e do conhecimento pelas relações de poder. Derrida, à desconstrução dos significados estáveis. Deleuze, à diferença, ao desejo, ao devir e à rejeição das estruturas fixas. Le Pogam vê na difusão dessas ideias, especialmente nas universidades americanas, a formação de uma cultura intelectual que passou a desconfiar da verdade, das instituições, das normas e das estruturas tradicionais.
Sua formulação é direta: “Une génération entière a appris à déconstruire et n’a jamais appris à construire.” Uma geração inteira aprendeu a desconstruir e não aprendeu a construir.
É nesse mesmo mapa que ele coloca a Escola de Frankfurt. Horkheimer, Adorno e Marcuse são associados à mudança de eixo da esquerda ocidental depois que a revolução proletária deixou de ser uma perspectiva concreta nas sociedades industriais do Ocidente. O conflito teria migrado da fábrica para a cultura, das relações de produção para as instituições, da economia para a escola, a família, a linguagem e os costumes.
É justamente nessa capacidade de disputar o terreno das ideias que Le Pogam reconhece uma das maiores habilidades históricas dos marxistas. A força do método, em sua leitura, não esteve apenas na defesa de uma determinada doutrina econômica, mas na capacidade de perceber que quem controla as palavras, as instituições e as categorias usadas para interpretar a realidade controla uma parte decisiva do debate político. Quando a revolução econômica perdeu força no Ocidente, o conflito foi deslocado para a cultura, para a linguagem, para a universidade, para a imprensa e para a formação das novas gerações. A operação mais eficiente não seria convencer cada indivíduo de cada tese, mas modificar previamente o vocabulário com que ele passaria a pensar. É nesse sentido que Le Pogam vê a esquerda marxista como estrategicamente brilhante: ela compreendeu que moldar as categorias mentais de uma sociedade é mais poderoso do que simplesmente disputar suas eleições.
O Club of Rome completa esse percurso. The Limits to Growth, publicado em 1972, aparece para Le Pogam como uma expressão da passagem do planejamento econômico para uma nova administração das escolhas individuais, agora sob a justificativa dos limites ambientais. O controle deixa de ser apresentado apenas como instrumento de igualdade e passa também a ser apresentado como instrumento de proteção do planeta.
É na interpretação do nazismo, porém, que sua tese política ganha maior contundência.
Le Pogam sustenta que o grande golpe semântico do século XX foi colocar Hitler na extrema-direita. Para ele, foi a esquerda que colocou Hitler e o nazifascismo na direita, consolidando depois da Segunda Guerra Mundial uma classificação que teria consequências políticas profundas. Ao colocar o nazismo no extremo oposto do espectro, a esquerda teria criado uma fronteira moral em torno da direita e preservado para si o papel de adversária natural de todo totalitarismo.
Na leitura de Le Pogam, essa operação permitiu que o socialismo atravessasse o século XX carregando os crimes de Stalin, Mao, do Gulag e de Pol Pot sem perder a condição de corrente política progressista, enquanto o nazismo ficava reservado ao campo adversário. A expressão “extrema-direita” seria a continuação desse mecanismo: uma categoria que permite aproximar um adversário do nazismo antes mesmo que suas ideias sejam examinadas.
É nesse ponto que Ludwig von Mises ocupa lugar central. O problema do cálculo econômico no socialismo, formulado por Mises em 1920, fornece uma das bases econômicas da oposição de Le Pogam ao controle estatal. Sem propriedade privada dos meios de produção e sem preços formados pelo mercado, desaparece o mecanismo pelo qual milhões de decisões individuais produzem informação para a alocação dos recursos. O Estado pode ordenar, mas não consegue substituir o conhecimento disperso entre produtores, consumidores, investidores e trabalhadores.
Friedrich Hayek amplia essa mesma questão pelo problema do conhecimento. A informação necessária para organizar uma sociedade encontra-se dispersa entre milhões de indivíduos e não pode ser concentrada integralmente em uma autoridade central. Para Le Pogam, liberdade econômica e liberdade política estão, portanto, ligadas pela mesma questão: quem possui o poder de decidir e quem possui o direito de decidir por si próprio.
Adam Smith, John Locke, Montesquieu, Benjamin Constant e Tocqueville integram essa tradição liberal. Raymond Aron ocupa posição particularmente importante no lado francês dessa genealogia: um intelectual que enfrentou o totalitarismo mantendo a razão, a análise dos fatos e a defesa da liberdade individual no centro de sua obra.
O resultado é o eixo que Le Pogam propõe para substituir a velha divisão política: controle contra liberdade. De um lado, planejamento, concentração de poder, intervenção econômica e a transferência de decisões individuais para estruturas coletivas. De outro, propriedade, responsabilidade individual, iniciativa privada e liberdade para decidir sobre o próprio trabalho e o próprio patrimônio.
É por isso que “extrema-direita” ocupa espaço tão grande em seus textos. Para Le Pogam, a expressão não é apenas uma classificação ideológica. Ela funciona como mecanismo de encerramento do debate. Elon Musk pode ser chamado de nazi; Javier Milei, colocado na extrema-direita; Sarah Knafo, tratada como xenófoba. A acusação substitui a discussão. O adversário deixa de ser alguém cujas ideias devem ser examinadas e passa a ser alguém que precisa ser moralmente isolado.
Sua crítica alcança também a estrutura de produção do conhecimento. Historiadores, universidades, imprensa e instituições culturais aparecem em seus textos como partes de um sistema que consolidou essa linguagem política durante décadas. A internet rompeu parte desse monopólio. Le Pogam percebeu isso antes de transformar-se em comentarista político porque sua própria carreira nasceu dentro da tecnologia.
Sua audiência cresceu na mesma velocidade. Seus textos alcançaram dezenas de milhões de visualizações individualmente e, em determinados períodos, centenas de milhões de impressões. Em um balanço divulgado por ele, chegaram a 800 milhões de impressões, 6,8 milhões de interações e 4,2 milhões de curtidas em seis meses. A plataforma deixou de ser apenas um meio de divulgação e tornou-se parte de sua própria intervenção intelectual.
A crítica à French Theory desemboca, então, numa concepção mais ampla de civilização. Para Le Pogam, uma sociedade precisa acreditar que existe verdade, distinguir o bem do mal e reconhecer que existe um patrimônio cultural que merece ser transmitido. Quando toda instituição é reduzida a uma relação de poder, toda norma a uma forma de violência e toda tradição a uma construção arbitrária, a sociedade perde os critérios pelos quais pode escolher aquilo que deve preservar.
É nesse contexto que Albert Camus aparece como referência. Camus representa, para Le Pogam, uma forma de revolta que não precisa desembocar no totalitarismo: a crítica radical da sociedade sem a transformação dessa crítica em autorização para o poder absoluto. Sua oposição a Sartre interessa justamente porque coloca limites morais à revolução.
A trajetória de Le Pogam, portanto, não começou na política. Começou diante de um computador. Passou pelo desenvolvimento de jogos, pela engenharia de software, por empresas de tecnologia, pela inteligência artificial, por investidores e pela Y Combinator. Só depois chegou à disputa intelectual que hoje o tornou conhecido.
Essa origem explica também sua linguagem. Le Pogam não fala como um político profissional. Fala como empresário e engenheiro: identifica um problema, procura a estrutura que o produz e tenta substituí-la por outra. A mesma disposição que o levou a criar produtos tecnológicos aparece agora em sua tentativa de reconstruir as categorias da política.
O que está em jogo para ele não é apenas uma defesa da direita francesa. É a disputa pelo significado das palavras que organizam o debate ocidental. Extrema-direita, liberdade, controle, propriedade, Estado, verdade, poder. Quem define essas palavras determina também os limites do debate.
É por isso que Brivael Le Pogam se tornou uma figura que merece atenção muito além da França. Ele não surgiu de um partido, de uma redação ou de uma universidade. Surgiu do mundo da tecnologia, construiu empresas, ganhou dinheiro, criou uma audiência e entrou na política pela porta da batalha intelectual.
Le Pogam quer mudar o mapa da política. E quem muda o mapa muda também a posição de cada adversário dentro dele.
