PRAIA DO JOÃO PAULO, A MISSÃO

Foto: Arquivo do Colunista

Uma antiga fotografia da Praia do João Paulo mostra uma bela e limpa faixa de areia branca, pequenas embarcações junto à margem e uma comunidade que tinha naquela enseada um lugar de trabalho, convivência e lazer. Era uma paisagem integrada à vida das pessoas. Hoje, a mesma margem conta outra história. A areia praticamente desapareceu, a lama avançou e a relação da comunidade com aquela praia foi profundamente alterada.

Recuperar a Praia do João Paulo é devolver à paisagem uma qualidade que ela já teve, incorporando as necessidades de hoje e as possibilidades que começam a se abrir para amanhã. Não se trata de reproduzir uma fotografia antiga, mas de recuperar a praia dentro de uma realidade diferente, que já conta com o trapiche, um entreposto público de pescados prestes a entrar em operação, novas perspectivas para a gastronomia e a possibilidade de transporte marítimo de passageiros.

Antes de qualquer intervenção, porém, é fundamental compreender a dinâmica que levou à atual configuração da enseada. A Praia do João Paulo está inserida na Baía do Saco Grande, submetida a marés, correntes, ondas e processos de transporte sedimentar próprios. Estudos realizados pela UFSC identificaram uma camada de lama sobre o sedimento arenoso natural e apontaram a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre suas características e possíveis fontes, além de aperfeiçoar a modelagem hidrodinâmica. Esse diagnóstico deve orientar qualquer projeto de recuperação.

As tempestades de oeste, especialmente as associadas a ciclones extratropicais, merecem atenção particular. A energia desses eventos interfere na circulação e na movimentação dos sedimentos e pode alterar significativamente o comportamento da enseada. O projeto precisa considerar tanto as condições habituais quanto os episódios extremos que atingem o litoral catarinense.

As mudanças climáticas acrescentam uma variável que já não pode ser ignorada no planejamento costeiro. Independentemente da discussão sobre suas causas originárias, a ocorrência de eventos extremos precisa integrar os parâmetros de qualquer intervenção. A recuperação deverá considerar as condições atuais e a necessidade de maior resiliência diante de tempestades severas.

O caminho começa por estudos de padrão internacional, envolvendo as diferentes áreas necessárias à compreensão do sistema costeiro. A evolução da linha de costa precisa ser reconstituída, e as alternativas devem ser testadas por modelagem antes da definição de qualquer obra.

O engordamento poderá ser uma dessas alternativas. Se confirmado pelos estudos, será necessário encontrar uma jazida compatível com o sedimento que existia originalmente na praia, inclusive em granulometria e cor. A recuperação de uma bela faixa de areia branca depende tanto da escolha do material quanto de sua compatibilidade com a dinâmica local.

Outras soluções também precisam permanecer em análise. Dunas frontais, recomposição da vegetação de restinga, enrocamento ou estruturas de proteção poderão ser indicados conforme os resultados obtidos. Até mesmo um molhe poderá ser estudado, se demonstrada sua conveniência para a dinâmica da enseada. A solução deve nascer do conhecimento técnico, e não de uma escolha antecipada.

A recuperação da praia também exigirá atenção ao espaço que está além da areia. O acesso, o estacionamento e a circulação precisam ser reorganizados sem comprometer o caráter público da futura orla. Áreas para crianças, contemplação e esportes de areia podem completar esse desenho e devolver ao lugar uma utilização cotidiana que hoje se perdeu.

O João Paulo já possui uma infraestrutura que durante décadas foi reivindicada pelos pescadores. O trapiche público foi entregue em março de 2021, com 210 metros de extensão. A estrutura melhorou as condições de embarque e desembarque e passou a oferecer uma alternativa à antiga operação diretamente na faixa de areia.

Agora, o entreposto acrescenta outra dimensão. Em 28 de março, foi inaugurada a edificação do primeiro entreposto público de pescados de Florianópolis, junto ao trapiche, ao final da Servidão Nonô. O equipamento foi projetado para armazenagem, manuseio e comercialização do pescado e terá cessão de uso à cooperativa de pescadores artesanais. A estruturação operacional está em andamento, com previsão de início das atividades neste mês.

A nova estrutura poderá melhorar as condições de conservação e comercialização e criar melhores condições para que o pescador agregue valor à produção. Também abre espaço para que o pescado local tenha maior presença na gastronomia do próprio bairro.

A Festa do Pescador Artesanal expressa outra dimensão dessa identidade. A primeira edição foi realizada em 2023 e a quarta acontece em 7 de setembro próximo. A programação reúne gastronomia, música, cultura e as tradições da comunidade pesqueira.

Desde a primeira edição, em 2023, parte da festa ocupava justamente a área onde hoje está instalado o entreposto, inclusive o espaço destinado à praça de alimentação. A nova estrutura resolveu uma antiga demanda dos pescadores, mas criou a necessidade de encontrar outro espaço para a festa. A questão merece ser incorporada ao planejamento da orla, com um local adequado para sua realização e para outras atividades comunitárias.

A gastronomia poderá ganhar importância nesse novo cenário. Com melhores condições de armazenamento e comercialização, o pescado poderá encontrar novos canais de consumo dentro do próprio bairro. A criação de estruturas gastronômicas na orla pode aproximar o produto de sua origem e criar uma atividade econômica vinculada à pesca artesanal.

O saneamento é outra condição indispensável. A Estação de Tratamento de Esgoto do João Paulo foi inaugurada em março de 2025, e a expansão da rede coletora e das ligações domiciliares precisa acompanhar a recuperação ambiental da região. A qualidade da água será determinante para qualquer projeto de requalificação da praia.

A Reurb também precisa integrar o planejamento. O João Paulo possui uma ocupação consolidada, com famílias que vivem e trabalham na região há décadas. A regularização do que for juridicamente possível, associada à melhoria da infraestrutura, pode conferir maior segurança à comunidade e permitir que a transformação da orla ocorra sem romper com o território que lhe deu origem.

A Marina da Beira-Mar Norte acrescenta uma perspectiva de longo prazo. A implantação do projeto poderá modificar a relação da cidade com a Baía Norte e está associada à possibilidade de um sistema de transporte marítimo de passageiros. Para o João Paulo, isso significa que a futura conexão pelo mar precisa ser considerada no planejamento da orla.

O estacionamento também precisa ser enfrentado. A praia recuperada, o entreposto, a festa e as atividades gastronômicas exigirão uma organização maior dos acessos. A solução deverá acomodar veículos e operações de serviço sem comprometer o espaço destinado à circulação de pedestres, lazer e convivência.

Essas conquistas, as já obtidas e as que ainda estão por vir, não surgiram por geração espontânea. São resultado de uma luta coletiva capitaneada por Silvani Ferreira, que durante anos manteve a comunidade mobilizada em torno das reivindicações dos pescadores. Sua atuação foi fundamental para manter essas demandas presentes até que algumas delas se transformassem em obras e equipamentos concretos.

O trabalho teve também o apoio técnico do consultor Mário Augusto S. Thiago, dentro de um planejamento estratégico construído com a comunidade. A proposta é dar unidade às diferentes demandas e estabelecer uma visão de longo prazo para o bairro, evitando que cada necessidade seja tratada de maneira isolada.

Ao longo das últimas três gestões municipais, esse processo contou com apoio irrestrito da Prefeitura de Florianópolis. A continuidade da interlocução permitiu que diferentes reivindicações avançassem em momentos distintos, desde o trapiche e o saneamento até o entreposto.

Desde o início desse processo, venho prestando, de forma pro bono, assessoria jurídica e atuando nas relações governamentais e institucionais necessárias para que as demandas da comunidade avancem junto ao poder público e às instituições envolvidas. É uma atuação que acompanha uma construção iniciada pelos próprios pescadores e moradores do João Paulo.

O momento agora é outro. A comunidade já conquistou estruturas que durante muito tempo pareciam distantes, e a discussão deixou de estar limitada à solução de carências imediatas. A recuperação da praia passa a ser a próxima grande questão, e ela exigirá a mesma combinação que permitiu chegar até aqui: comunidade organizada, planejamento e apoio institucional.

A fotografia antiga não precisa ser reproduzida. Ela pode servir como referência de uma paisagem que merece voltar a existir, agora sob condições ambientais, urbanas e sociais diferentes. O João Paulo tem diante de si a oportunidade de recuperar sua praia sem perder aquilo que faz daquele lugar uma comunidade pesqueira. É uma obra que começa muito antes da primeira carga de areia e que, se bem planejada, poderá definir por décadas a relação daquele bairro com o mar.

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