PERSPECTIVA POLÍTICA
Estratégias partidárias, divergências internas e o financiamento bilionário das campanhas mostram diferentes faces de uma eleição em que decisões tomadas agora poderão produzir consequências muito além das urnas de 2026.
Republicanos faz a escolha que parecia lógica
Depois das idas e vindas
Depois de avanços, recuos e muitas dúvidas, Republicanos e o senador Cleitinho finalmente acertaram os ponteiros.
O parlamentar disputará o Governo de Minas Gerais.
A decisão encerra uma situação que vinha causando estranheza no cenário político mineiro.
Cleitinho lidera os levantamentos eleitorais divulgados até agora e aparece com vantagem sobre os demais concorrentes.
Para um partido político, possuir em seus quadros o líder das pesquisas para governar o segundo maior colégio eleitoral brasileiro e abrir mão dessa candidatura seria uma decisão difícil de explicar.
Ao final, prevaleceu a lógica eleitoral.
Uma decisão que interessa aos dois lados
A candidatura faz sentido para Cleitinho.
Também faz sentido para o Republicanos.
O senador entra na disputa ocupando atualmente uma posição privilegiada nas pesquisas, embora, como sempre registramos, levantamentos representem apenas fotografias do momento e não antecipem resultados eleitorais.
Para o partido, a dimensão é ainda maior.
O Republicanos já governa São Paulo com Tarcísio de Freitas, que mantém índices elevados de aprovação e aparece na liderança dos cenários pesquisados para a eleição estadual.
Agora terá também um candidato competitivo em Minas Gerais.
Estamos falando dos dois maiores colégios eleitorais do Brasil.
São Paulo e Minas Gerais
Naturalmente, nenhuma eleição está decidida.
Campanhas começam, adversários crescem, fatos novos surgem e pesquisas podem mudar.
Mas existe uma análise estratégica que precisa ser feita.
Caso os atuais cenários eleitorais de São Paulo e Minas Gerais sejam confirmados nas urnas, o Republicanos poderá terminar as eleições de 2026 governando os dois estados com os maiores eleitorados do país.
Isso significaria administrar São Paulo e Minas Gerais simultaneamente.
Poucos partidos brasileiros poderiam iniciar o próximo ciclo político dispondo de uma estrutura dessa dimensão.
E 2030 começa a entrar no horizonte
Pode parecer cedo para falar das eleições presidenciais de 2030.
E realmente é.
Quatro anos representam muito tempo na política e inúmeros acontecimentos poderão alterar completamente o cenário nacional.
Mas partidos não trabalham apenas pensando na próxima eleição.
Também constroem posições para os ciclos seguintes.
Governar os dois maiores colégios eleitorais brasileiros significaria possuir estruturas políticas importantes, lideranças estaduais fortes e capacidade ampliada de participar das grandes articulações nacionais.
Não garantiria ao Republicanos uma candidatura presidencial competitiva em 2030.
Mas certamente lhe proporcionaria condições privilegiadas para participar dessa construção.
Depois de tantas idas e vindas em Minas Gerais, a decisão finalmente parece seguir uma lógica política compreensível.
Se São Paulo e Minas Gerais confirmarem nas urnas aquilo que hoje aparece nas pesquisas, o Republicanos sairá de 2026 não apenas fortalecido. Sairá administrando os dois maiores colégios eleitorais do Brasil e olhando para 2030 de uma posição política bastante diferente.
Quando a crítica pode produzir o efeito contrário
Uma divergência que voltou à superfície
Uma antiga divergência dentro do Partido Liberal voltou a produzir repercussão na política catarinense.

A deputada estadual Ana Campagnolo já havia manifestado resistência à candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina quando o nome dele começou a ser colocado na disputa.
Depois de meses de tensão, houve uma aproximação. Carlos pediu desculpas publicamente à deputada e ambos chegaram a participar de eventos partidários, transmitindo a impressão de que o episódio havia sido superado.
Nesta semana, entretanto, a divergência voltou a ficar evidente.
Durante uma gravação realizada em Itajaí, ao lado da candidata ao Senado Carol De Toni e do vice-prefeito Rubens Angioletti, Campagnolo deixou o enquadramento no momento em que começou um pedido de votos para Carol e Carlos Bolsonaro.
A política também produz efeitos inesperados
O episódio possui uma dimensão maior do que uma simples divergência interna.
Em grupos políticos com forte identificação ideológica e elevada mobilização de militantes, críticas ou resistências dirigidas a determinada candidatura podem produzir um efeito diferente daquele inicialmente imaginado.
Em vez de enfraquecer o alvo, podem estimular seus apoiadores a reagir em sua defesa.
É um movimento conhecido na política: diante da percepção de que determinada liderança está sendo questionada ou atingida, parte de sua base tende a aumentar o grau de mobilização e demonstrar ainda mais apoio.
Isso não significa que o fenômeno ocorra automaticamente.
Mas é uma variável que não pode ser desconsiderada.
Santa Catarina possui características próprias
Santa Catarina apresenta forte identificação com o campo político liderado por Jair Bolsonaro, demonstrada pelos resultados das últimas eleições.
Essa característica torna particularmente interessante observar como esse eleitorado reagirá a uma divergência ocorrida dentro do próprio Partido Liberal.
Carlos Bolsonaro e Carol De Toni são os candidatos definidos pelo PL para as duas vagas ao Senado por Santa Catarina. Por isso, quando uma resistência pública surge dentro da própria legenda, o episódio ganha uma dimensão política diferente.
Entre eleitores com forte identificação ideológica, críticas ou resistências dirigidas a uma candidatura podem provocar justamente a reação contrária: estimular sua base a demonstrar ainda mais apoio.
Não existe garantia de que isso acontecerá.
Mas, considerando as características do eleitorado catarinense e a forte identificação de uma parcela significativa dele com o bolsonarismo, é uma possibilidade política que merece ser observada durante a campanha.
Nem toda crítica enfraquece
A política possui inúmeros exemplos de críticas que terminaram fortalecendo justamente aquele que se pretendia atingir.
Quanto mais ideologicamente mobilizada é uma base eleitoral, maior pode ser sua disposição para defender suas principais referências diante de confrontos, inclusive quando eles surgem dentro do próprio campo político.
Por isso, campanhas precisam avaliar não apenas aquilo que dizem ou fazem.
Precisam também considerar como cada gesto será interpretado pelos diferentes segmentos do eleitorado.
O episódio envolvendo Ana Campagnolo e Carlos Bolsonaro ainda poderá produzir novos desdobramentos e, evidentemente, não permite antecipar qualquer resultado eleitoral.
Mas oferece uma reflexão interessante sobre comportamento político.
Na política, nem toda crítica produz desgaste. Dependendo de quem critica, de quem é criticado e da identificação do eleitorado envolvido, o efeito pode ser exatamente o contrário.
O saco sem fundo das eleições
Quase R$ 5 bilhões de dinheiro público
As eleições de 2026 terão aproximadamente R$ 4,9 bilhões disponíveis no Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
São recursos públicos destinados aos partidos políticos para custear as despesas eleitorais de seus candidatos.
O dinheiro vem do orçamento da União.
Ou seja, em última análise, dos impostos pagos pela população brasileira.
A distribuição segue critérios definidos pela legislação. Parte considera a representação das legendas no Congresso Nacional e os votos obtidos na última eleição para a Câmara dos Deputados.
Mas existe também uma parcela distribuída igualmente entre todos os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral.
Mesmo uma legenda sem representação no Congresso terá direito a aproximadamente R$ 3,3 milhões.
A democracia tem um custo
Campanhas eleitorais custam dinheiro.
Existem despesas com comunicação, deslocamentos, equipes, produção de conteúdo, materiais, estrutura e inúmeras outras atividades necessárias para que candidatos possam apresentar suas propostas aos eleitores.
O financiamento público também surgiu como uma resposta à proibição das doações empresariais e à necessidade de criar mecanismos legais e transparentes para custear as campanhas.
Portanto, o debate não deve ignorar a necessidade de algum modelo de financiamento eleitoral.
A pergunta legítima é outra:
Qual deve ser o tamanho desse custo para a sociedade?
E ainda existem as vaquinhas
Além dos bilhões destinados pelo Fundo Eleitoral, candidatos também podem arrecadar recursos por meio do financiamento coletivo, as conhecidas vaquinhas eleitorais.
A prática é legal e regulamentada pela Justiça Eleitoral.
As doações são voluntárias e precisam ser identificadas e posteriormente incluídas nas prestações de contas das campanhas.
Nada existe de irregular nesse mecanismo.
Mas a situação produz uma cena curiosa.
Depois de a sociedade financiar, por meio dos impostos, quase R$ 5 bilhões destinados às campanhas, o mesmo cidadão passa a receber mensagens, vídeos e apelos de candidatos pedindo novas contribuições para financiar suas eleições.
Legalmente, são situações completamente diferentes.
Para o bolso do eleitor, porém, a origem continua sendo a mesma.
Quanto deve custar uma eleição?
Talvez esteja chegando o momento de o Brasil discutir com maior profundidade o custo de seu sistema eleitoral.
Não para impedir que candidatos façam campanha.
Nem para restringir a democracia.
Mas justamente para perguntar se existem formas mais eficientes e menos onerosas de permitir que ideias, propostas e candidaturas cheguem à população.
A tecnologia reduziu drasticamente o custo da comunicação. Redes sociais permitem alcançar milhões de pessoas. Debates, entrevistas e conteúdos digitais ampliaram enormemente as possibilidades de contato com o eleitor.
Mesmo assim, o financiamento das campanhas continua movimentando bilhões de reais.
A democracia tem um custo.
Isso é inevitável.
Mas, quando quase R$ 5 bilhões de recursos públicos são destinados às campanhas e ainda assistimos candidatos pedindo novas contribuições diretamente aos cidadãos, é legítimo perguntar: quanto uma eleição realmente precisa custar ao brasileiro?
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