PERSPECTIVA POLÍTICA – Escolha política não é preconceito
Declarações de Lula em Santa Catarina colocam em discussão a diferença entre divergência política e preconceito, debate ao governo reforça a necessidade de políticas de Estado e possibilidade de segundo turno amplia o espaço para propostas.
Esta coluna preferiu não entrar no assunto no calor das primeiras repercussões.
Mas a declaração ganhou dimensão e merece um registro.

Durante ato de campanha realizado sábado, em Florianópolis, o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva questionou a resistência de parte do agronegócio catarinense ao seu campo político.
Ao conversar no palanque com o candidato ao governo Gelson Merísio, Lula perguntou por que o setor não gostava deles e levantou uma hipótese:
“Acho que é uma questão de pele, porque sou nordestino ou porque eu sou pobre.”
Não foi a primeira vez, neste ano, que Lula relacionou resistências encontradas em Santa Catarina a questões dessa natureza.
Já havia acontecido em Itajaí
Em junho, durante passagem por Itajaí, o presidente afirmou que os catarinenses não poderiam permitir que prevalecesse no estado “o racismo”, falou em “síndrome de grandeza” e criticou a ideia de uma “hegemonia branca”.
O contexto daquela declaração era outro.
Lula tratava de políticas de cotas raciais e fazia críticas ao governador Jorginho Mello.
Agora, em Florianópolis, o assunto era a resistência política de parte do agronegócio ao presidente.
São situações diferentes.
Mas existe um ponto comum: novamente uma divergência encontrada por Lula em Santa Catarina foi relacionada pelo próprio presidente a questões de origem, condição social ou preconceito.
E é justamente aí que esta coluna discorda.
O voto também expressa convicções
Santa Catarina possui suas características políticas e eleitorais.
O eleitor pode escolher a direita, a esquerda ou o centro. Pode apoiar ou rejeitar um presidente, independentemente daquilo que seu governo tenha destinado ao estado ou a determinado setor econômico.
Escolha política não é, por si só, demonstração de preconceito.
A própria história eleitoral catarinense oferece exemplos interessantes.
Em 2002, Ideli Salvatti, do PT, tornou-se a primeira mulher eleita para representar Santa Catarina no Senado.
Ideli nasceu em São Paulo, construiu sua trajetória política no estado e recebeu mais de um milhão de votos dos catarinenses.
O PT possui história em Santa Catarina. Lula possui eleitores no estado. Outros campos políticos possuem atualmente maior apoio eleitoral.
São escolhas feitas pelo eleitor.
E talvez seja exatamente aí que esteja o ponto principal desta discussão:
discordar politicamente também é um direito.
Divergência política não deveria ser confundida com preconceito.
Problemas de governo ou problemas de Estado?
Nesta segunda-feira tivemos o primeiro debate desta eleição reunindo, ao mesmo tempo, os três principais candidatos ao Governo de Santa Catarina apontados pelas pesquisas: Jorginho Mello, João Rodrigues e Gelson Merísio.

Também participou o candidato Ralf Zimmer.
Durante mais de duas horas, apareceram temas conhecidos dos catarinenses e também de eleitores de praticamente todos os estados brasileiros.
Fila na saúde.
Salário e valorização dos professores.
Obras.
Realizações de governo.
Aquilo que foi feito e aquilo que deixou de ser feito.
Os nomes mudam. As eleições passam.
Muitos dos problemas permanecem.
Quatro anos não começam do zero
Em toda eleição surge a promessa de resolver problemas que acompanham a administração pública há décadas.
Quem está no governo apresenta aquilo que realizou.
Quem pretende chegar apresenta aquilo que fará diferente.
Mas existe uma realidade que deveria ocupar mais espaço nesses debates: grande parte dos principais problemas públicos é estrutural.
Filas na saúde não nasceram neste governo. A valorização dos professores não começou a ser discutida nesta eleição. Infraestrutura, segurança, mobilidade e eficiência dos serviços públicos atravessam diferentes administrações.
Trocar o governador não faz esses problemas desaparecerem.
E trocar novamente quatro anos depois também não.
Talvez a proposta mais importante seja a continuidade
Por isso, seria interessante ouvir mais propostas estruturantes.
Programas construídos para permanecer independentemente de quem vença a eleição seguinte.
Metas de dez ou vinte anos.
Indicadores que permitam acompanhar resultados.
Projetos que possam ser aperfeiçoados pelo próximo governo em vez de simplesmente substituídos porque mudou o ocupante do cargo.
Governadores passam.
O Estado permanece.
Talvez parte dos problemas que discutimos eleição após eleição continue justamente porque ainda pensamos demais em programas de governo e pouco em políticas de Estado.
E existe uma diferença importante entre os dois conceitos:
um programa precisa sobreviver a uma eleição. Uma política de Estado precisa sobreviver a vários governos.
Quando a escolha exige mais uma rodada
As pesquisas eleitorais apresentam cenários bastante diferentes pelo Brasil.
Em muitos estados, os números indicam disputas que podem avançar para o segundo turno.
Na eleição presidencial, os levantamentos também apontam nessa direção. Lula e Flávio Bolsonaro concentram a maior parcela das intenções de voto, mas os números registrados até agora indicam a possibilidade de uma segunda votação.
Existem exceções.
Em estados como São Paulo e Santa Catarina, pesquisas recentes apresentam cenários nos quais a disputa pelo governo pode terminar ainda no primeiro turno, caso os números sejam confirmados nas urnas.
São apenas fotografias do momento.
Mas existe uma característica interessante quando uma eleição avança para uma segunda rodada.
O eleitor precisa ser conquistado novamente
No primeiro turno, cada candidato conversa principalmente com seu eleitorado e procura ampliar sua base.
No segundo, a situação muda.
Restam apenas dois candidatos e milhões de eleitores precisam fazer uma nova escolha.
Quem votou em um terceiro nome passa a ser disputado pelas duas candidaturas que permaneceram.
E isso deveria produzir uma consequência positiva para o debate.
Os candidatos precisam ampliar o diálogo.
Precisam explicar melhor seus projetos.
Precisam apresentar razões para conquistar também quem não os escolheu inicialmente.
Mais participação, mais cobrança
A ideologia naturalmente faz parte de uma eleição.
As pessoas possuem convicções, valores e diferentes visões sobre qual deve ser o papel do Estado e quais caminhos o país ou seu estado deveriam seguir.
Mas uma eleição também deveria ser uma oportunidade para comparar propostas, resultados, prioridades e modelos de gestão.
Quanto maior o envolvimento da população nesse processo, maior pode ser também a cobrança sobre aqueles que pretendem governar.
Democracia não se fortalece apenas quando mais pessoas votam.
Fortalece-se também quando mais pessoas querem saber em quem estão votando, o que cada candidato pretende fazer e como pretende fazer.
Se houver segundo turno, teremos mais alguns dias de campanha.
Que sejam também mais alguns dias de propostas.
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