A renúncia de Santiago Peña, diante da ameaça de impeachment, não significa uma mudança de orientação política no Paraguai. A sucessão pelo vice-presidente Pedro Alliana preserva o Partido Colorado no comando do país, mantendo uma tradição conservadora que atravessou décadas e resistiu até mesmo à experiência esquerdista de Fernando Lugo, entre 2008 e 2012.

A crise provocada pelo colapso do Ueno Bank e pelas relações empresariais atribuídas a Peña ganhou dimensão decisiva quando Horacio Cartes, ex-presidente e principal liderança colorada, retirou-lhe a sustentação política. A oposição participou da ofensiva, mas a substituição presidencial foi viabilizada por uma ruptura interna. Alliana, politicamente próximo de Cartes, assegura a continuidade do grupo governante.

Essa estabilidade de orientação ganha especial relevância diante da crescente atração exercida pelo Paraguai sobre empresas brasileiras. O país oferece energia abundante, custos operacionais competitivos e um ambiente tributário que favorece a instalação de indústrias voltadas à exportação.

O principal instrumento é o regime de maquila, sistema que permite importar matérias-primas e componentes com suspensão de tributos, industrializá-los em território paraguaio e exportar os produtos acabados, mediante tributação específica de apenas 1% sobre o valor agregado local. Trata-se de uma política concebida para atrair investimentos, gerar empregos e integrar o Paraguai às cadeias internacionais de produção.

Empresas catarinenses como Karsten e Döhler já participam desse movimento, que poderá ganhar intensidade após a reeleição de Lula. Uma consultoria especializada registrou 25 consultas empresariais nas primeiras 48 horas posteriores ao resultado eleitoral, revelando o interesse de empresários brasileiros em alternativas produtivas no país vizinho.

A proximidade geográfica, a integração pelo Mercosul e as diferenças de custos tornam o Paraguai especialmente atraente para quem pretende manter o mercado brasileiro sem concentrar toda a produção no Brasil.

Enquanto prosseguem as iniciativas de contestação da reeleição brasileira, Assunção se prepara para receber novos investimentos. A crise presidencial paraguaia não altera, por si, os fundamentos dessa estratégia econômica.

Muda o ocupante do Palácio de López, mas permanecem o Partido Colorado, a orientação conservadora e os incentivos que vêm atraindo capital brasileiro. No Paraguai, a turbulência política não representa necessariamente mudança de rumo.

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