PERSPECTIVA POLÍTICA – Quando os movimentos também mandam recados
Movimentos de campanha podem revelar problemas ou oportunidades, decisão da Justiça Eleitoral reacende o debate sobre desinformação e números mostram como a disputa presidencial de 2026 difere daquela realizada há quatro anos.
Campanhas eleitorais não se comunicam apenas por discursos, entrevistas ou programas eleitorais.
Alguns movimentos também mandam recados para quem acompanha uma eleição.
Na quinta-feira, o governo Lula produziu dois deles.
O presidente anunciou o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, elevando o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691.
No mesmo dia, ao lado do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, Lula anunciou a intenção de disponibilizar gratuitamente pelo SUS as chamadas canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade. A incorporação ainda depende dos estudos e protocolos que estão sendo preparados pelo Ministério da Saúde.
As duas medidas possuem justificativas próprias nas áreas social e de saúde.
Mas foram apresentadas por um presidente que também é candidato à reeleição, na reta final de uma disputa presidencial.
E isso permite outra leitura.
As campanhas sabem mais do que nós
Campanhas presidenciais possuem pesquisas, acompanhamento de opinião pública e diferentes instrumentos para observar diariamente o comportamento do eleitorado.
Nós conhecemos as pesquisas que são publicadas.
As campanhas conhecem também aquelas que encomendam para consumo próprio.
Por isso, quando movimentos importantes acontecem na reta final de uma eleição, existem informações que ajudam a orientar decisões e que não necessariamente estão disponíveis para quem observa a campanha de fora.
Nesse caso, pelo menos duas interpretações são possíveis.
Duas leituras para o mesmo movimento
A primeira: Lula pode estar em crescimento ou identificando uma tendência favorável nos levantamentos internos. Nesse cenário, medidas de forte alcance popular poderiam fazer parte de uma estratégia para ampliar esse movimento na reta final.
A segunda é exatamente a inversa: o adversário pode estar avançando ou apresentando tendência de crescimento. Nesse caso, medidas de grande alcance poderiam buscar conter esse movimento e recuperar ou consolidar apoio eleitoral.
São hipóteses diferentes.
E não temos elementos para afirmar qual delas, se alguma, explica as decisões tomadas.
O que sabemos é que dois movimentos de grande repercussão popular aconteceram no mesmo dia, a pouco mais de duas semanas da eleição.
As campanhas provavelmente possuem muito mais informações do que nós sobre o momento eleitoral.
O recado nós conseguimos perceber. O que ainda não conhecemos é a informação que pode estar por trás dele.
Quando a desconstrução ultrapassa o limite
Esta coluna tem defendido reiteradamente que campanhas eleitorais deveriam dedicar mais espaço às propostas e menos à desconstrução dos adversários.

A situação se torna ainda mais problemática quando essa desconstrução utiliza informações que não correspondem aos fatos.
Um episódio da campanha catarinense trouxe novamente essa discussão.
A Justiça Eleitoral determinou a suspensão imediata de uma propaganda da coligação do candidato João Rodrigues que fazia acusações relacionadas ao patrimônio da família do governador e candidato à reeleição Jorginho Mello.
O que encontrou a Justiça
Na decisão liminar, o desembargador eleitoral Jaime Machado Júnior apontou três inconsistências centrais na propaganda.
Segundo o relator, foram atribuídos ao filho do governador dois imóveis pertencentes a terceiros; a propaganda apresentou como pertencente ao núcleo familiar uma empresa da qual Jorginho Mello não é sócio; e afirmou que as chamadas holdings da família teriam adquirido mais de 50 imóveis nos últimos anos.
Ao analisar a documentação apresentada no processo, o magistrado registrou que, entre 2018 e 2025, o acréscimo imobiliário identificado na empresa da qual Jorginho é sócio correspondeu a um imóvel e uma vaga de garagem, incorporados em 2022.
Para o relator, o conjunto das inconsistências se enquadra na vedação à desinformação na propaganda eleitoral. A liminar determinou a suspensão da peça e proibiu a divulgação de conteúdo substancialmente idêntico, estabelecendo multas em caso de descumprimento.
A proposta continua sendo o melhor caminho
Existe uma questão maior neste episódio.
Quando uma campanha escolhe desconstruir um adversário, assume também a responsabilidade pela exatidão das informações que coloca diante do eleitor.
E quanto mais grave for uma acusação, maior deveria ser o cuidado com aquilo que a sustenta.
Uma eleição oferece espaço suficiente para confrontar projetos, resultados, prioridades e propostas.
Esta coluna já adotou uma frase para sintetizar aquilo que espera das campanhas:
“A crítica faz parte da democracia. A proposta faz parte da responsabilidade.”
O episódio acrescenta apenas mais uma palavra a essa reflexão:
verdade.
Duas eleições, dois momentos diferentes
A eleição presidencial deste ano possui uma característica semelhante à disputa de 2022.
A polarização permanece.

Há quatro anos, os dois principais nomes eram Lula e Jair Bolsonaro.
Agora são Lula e Flávio Bolsonaro.
Mas, se a polarização continua, alguma coisa importante mudou.
Os números.
A fotografia de quatro anos atrás
Em 15 de setembro de 2022, pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno, o Datafolha mostrava Lula com 45% das intenções de voto e Jair Bolsonaro com 33%.
A diferença era de 12 pontos percentuais.
Quatro anos depois, praticamente no mesmo momento do calendário eleitoral, a fotografia é diferente.
Na pesquisa divulgada pelo Datafolha em 17 de setembro de 2026, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 36%.
A diferença caiu para três pontos percentuais, dentro da margem de erro de dois pontos da pesquisa.
São eleições diferentes, candidatos diferentes e circunstâncias diferentes.
Mas existe ainda outra mudança importante.
Os lugares também se inverteram
Em 2022, Lula disputava a eleição como oposição.
Jair Bolsonaro era o presidente tentando conquistar um novo mandato.
Agora é Lula quem ocupa a Presidência e busca a reeleição.
A posição de quem governa possui uma característica inevitável: o candidato carrega para a campanha aquilo que a população reconhece como resultado positivo de sua administração, mas também responde pelos problemas que o eleitor associa ao governo e ao país.
Quatro anos atrás, essa condição pertencia a Jair Bolsonaro.
Agora pertence a Lula.
Por isso, comparar apenas os nomes seria insuficiente.
A polarização permanece, mas os personagens, as posições que ocupam e a distância entre eles mudaram.
Em setembro de 2022, naquela fotografia do Datafolha, eram 12 pontos.
Em setembro de 2026, são três.
A eleição continua polarizada. O momento eleitoral é que não é o mesmo.
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