Quando brasileiros começam a produzir fora, o Brasil precisa prestar atenção

Empresas buscam custos menores no Paraguai, enquanto produtores rurais encontram novas oportunidades na Bolívia; movimento expõe diferenças de competitividade que o país não pode ignorar

O Brasil precisa ser repensado ou, no mínimo, precisa observar com mais atenção aquilo que está acontecendo ao seu redor.

Nos últimos anos, várias empresas brasileiras passaram a instalar parte de suas operações no Paraguai, atraídas por uma combinação conhecida: energia mais barata, carga tributária reduzida, menor burocracia, regras trabalhistas mais simples e ambiente considerado mais previsível para novos investimentos.

O regime de maquila paraguaio tornou-se um dos principais instrumentos dessa atração. Empresas que produzem no país para exportação encontram condições tributárias diferenciadas, e especialistas já apontam que a combinação entre menor tributação e custos operacionais reduzidos vem acelerando a migração de parte da produção brasileira para o território vizinho.

Esse movimento já merece atenção por si só.

Agora, surge outro fenômeno relevante.

Produtores brasileiros ligados principalmente à soja e à pecuária estão ampliando sua presença na Bolívia, especialmente em regiões com disponibilidade de terras agrícolas e custos inferiores aos encontrados em importantes fronteiras produtivas brasileiras.

A Bolívia também vem adotando medidas para ampliar a atividade agropecuária. Em janeiro deste ano, por exemplo, o governo retirou restrições à exportação de soja e eliminou controles de preços e cotas sobre determinados derivados, buscando ampliar a liberdade comercial do setor.

Além do preço das terras, produtores avaliam fatores como custo de produção, disponibilidade de áreas, regras para expansão da atividade e perspectivas de exportação.

É justamente nesse ponto que o Brasil precisa fazer uma pergunta simples: por que empresários e produtores brasileiros estão encontrando no exterior condições que consideram mais atraentes para investir?

Não significa que estejam abandonando o país em massa.

Também não significa que Paraguai ou Bolívia possuam economias superiores à brasileira.

O que significa é que capital e investimento procuram condições favoráveis.

Empresas com capacidade de escolher onde produzir analisam impostos, energia, mão de obra, legislação, logística, segurança jurídica e retorno esperado. Produtores rurais fazem cálculo semelhante ao decidir onde comprar terras e ampliar suas operações.

Quando países vizinhos conseguem oferecer vantagens significativas em alguns desses pontos, tornam-se concorrentes diretos do Brasil na disputa por investimentos.

O Paraguai entendeu essa lógica e estruturou uma política clara de atração industrial.

Na Bolívia, o movimento ocorre principalmente na expansão agropecuária. O país possui terras mais baratas em determinadas regiões e vem criando condições para ampliar a produção e as exportações agrícolas.

Existe, porém, uma diferença que precisa ser considerada com responsabilidade.

Parte da atratividade boliviana está relacionada a regras ambientais consideradas menos restritivas para a abertura de novas áreas. Isso pode reduzir custos e facilitar a expansão produtiva, mas não significa necessariamente uma vantagem sustentável no longo prazo.

A própria Bolívia enfrenta conflitos internos relacionados à expansão da agroindústria, ao uso da terra e ao aumento do risco de desmatamento e incêndios florestais. Organizações indígenas e comunidades rurais têm protestado contra mudanças que consideram favoráveis demais à expansão de grandes projetos agrícolas.

Além da questão ambiental, mercados internacionais estão aumentando suas exigências relacionadas à origem dos produtos agrícolas.

A União Europeia, por exemplo, avançou em regras que dificultam a entrada de produtos associados ao desmatamento. Isso significa que produzir com menos restrições ambientais pode oferecer vantagem imediata, mas também criar barreiras futuras para acessar mercados mais exigentes.

Por isso, o Brasil não deve responder reduzindo irresponsavelmente suas próprias proteções ambientais.

A resposta precisa estar em outro lugar.

Simplificação tributária.

Segurança jurídica.

Infraestrutura.

Energia competitiva.

Crédito acessível.

Menos burocracia.

Maior previsibilidade para quem investe.

Melhoria da produtividade.

O Brasil possui uma das maiores economias do mundo, enorme mercado consumidor, agricultura altamente tecnológica, abundância de recursos naturais e uma estrutura industrial muito superior à maioria de seus vizinhos.

Mas nenhuma dessas vantagens é permanente.

Se produzir no Brasil se torna progressivamente mais caro e complexo, empresas começam a estudar alternativas.

Se um produtor consegue comprar terras, operar com menor custo e encontrar regras mais previsíveis do outro lado da fronteira, ele naturalmente fará essa conta.

O capital não possui patriotismo suficiente para ignorar permanentemente diferenças econômicas relevantes.

Essa realidade deveria servir como alerta.

Não se trata de criticar empresários que investem no Paraguai ou produtores que compram terras na Bolívia. Eles estão tomando decisões econômicas dentro das possibilidades oferecidas por cada país.

A pergunta deve ser dirigida ao Brasil.

O que estamos fazendo para que investir aqui continue sendo a melhor escolha?

O Paraguai já mostrou que pequenas economias podem competir oferecendo simplicidade e previsibilidade.

A Bolívia começa a demonstrar que também pretende utilizar suas vantagens naturais para atrair produtores e ampliar sua capacidade agropecuária.

Enquanto isso, o Brasil convive com carga tributária elevada, juros altos, infraestrutura insuficiente, burocracia e constantes discussões sobre insegurança jurídica.

Não significa que devamos copiar modelos de outros países sem analisar suas consequências.

Significa que precisamos observar aquilo que nossos concorrentes estão fazendo corretamente e corrigir aquilo que estamos fazendo errado.

Quando empresas brasileiras instalam fábricas no Paraguai e agricultores brasileiros começam a ampliar operações na Bolívia, o problema não está necessariamente em quem vai embora.

O problema está em entender por que encontraram motivos suficientes para olhar para fora.

Esse é o debate que o Brasil precisa fazer.

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