Primeiro round dos debates: denúncias, ataques e as mesmas bobagens de sempre

Confrontos estaduais deveriam ajudar o eleitor a conhecer projetos de governo, mas o início da temporada eleitoral mostrou novamente candidatos mais preocupados em desconstruir adversários

Assisti a trechos dos debates promovidos pela Band neste domingo (9) nos estados do Ceará, Bahia, São Paulo, Goiás e Paraná.

Gostaria de fazer uma avaliação positiva.

Infelizmente, não consigo.

A Band abriu oficialmente a temporada dos debates estaduais de 2026, realizando confrontos simultâneos em diversos estados e no Distrito Federal. A própria emissora anunciou anteriormente que desejava colocar o eleitor no centro da cobertura, priorizando temas como segurança, educação, economia e saúde e evitando que os encontros se transformassem apenas em ataques e acusações.

A intenção era excelente.

O resultado, pelo menos nos trechos que acompanhei, ficou muito distante desse objetivo.

Mais uma vez vimos aquilo que o brasileiro já conhece.

Acusações.

Denúncias.

Ironias.

Ataques pessoais.

Discussões sobre quem fez ou deixou de fazer determinada coisa.

E muito pouco sobre aquilo que realmente deveria interessar ao eleitor: o que cada candidato pretende fazer caso seja eleito?

Desculpem o termo, caros leitores, mas em determinados momentos parece uma verdadeira palhaçada eleitoral.

Não porque debate político não deva possuir confronto.

Deve.

Um candidato precisa questionar o adversário, confrontar números, cobrar explicações e apontar erros de administrações anteriores.

Isso faz parte da democracia.

O problema ocorre quando praticamente toda a estratégia passa a ser construída sobre a desconstrução do outro.

O eleitor termina duas horas de debate sabendo exatamente por que um candidato considera seu adversário incompetente, despreparado ou indigno de receber votos.

Mas continua sem saber qual será o plano para melhorar a saúde, reduzir a criminalidade, ampliar o saneamento, melhorar estradas, elevar a qualidade da educação ou organizar as contas públicas.

Esse deveria ser o verdadeiro objetivo de um debate eleitoral.

No Paraná, por exemplo, o formato previamente definido pela Band reservou grande espaço para confrontos diretos e temas livres, justamente para permitir que os próprios candidatos administrassem suas discussões.

Em São Paulo, a emissora também concedeu ampla autonomia aos candidatos, com liberdade de confronto direto e participação reduzida do mediador em determinados momentos. A intenção declarada era permitir discussões sobre soluções para os problemas do estado.

Liberdade é importante.

Mas ela também revela prioridades.

E, quando recebem liberdade, muitos candidatos parecem preferir utilizar seu tempo para atacar o adversário.

Existe um padrão político que também chamou atenção: candidaturas ligadas ao campo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já procuram associar suas campanhas à defesa da reeleição presidencial.

Isso é absolutamente legítimo.

Partidos organizados trabalham para fortalecer seus candidatos e construir uma narrativa comum. Politicamente, faz sentido apresentar ao eleitor um projeto estadual associado a um projeto nacional.

O que chama atenção é a diferença de organização.

Enquanto determinados grupos já demonstram clareza sobre sua estratégia eleitoral nacional, outros ainda parecem concentrados em disputas internas, ataques e tentativas de demonstrar quem é mais ou menos representante de determinado campo político.

Mas essa é outra discussão.

O ponto principal é o baixo nível propositivo apresentado até aqui.

Santa Catarina já havia oferecido um sinal semelhante em seu primeiro debate. Agora, acompanhando trechos de outros estados, percebe-se que o problema não parece ser exclusivamente catarinense.

É nacional.

O Brasil possui problemas demais para desperdiçarmos os poucos momentos em que os candidatos estarão frente a frente discutindo apenas denúncias e acusações.

Queremos saber o que farão.

Como farão.

Quanto custará.

De onde virá o dinheiro.

Quais serão as prioridades.

Quais metas poderão ser cobradas daqui a quatro anos.

Não é exigir demais.

É simplesmente exigir aquilo que deveria ser a essência de uma campanha eleitoral.

Ainda estamos no início.

Outros debates acontecerão, inclusive o primeiro confronto presidencial organizado pela Band nas próximas semanas. A emissora, inclusive, estruturou sua cobertura afirmando que deseja combater justamente o déficit de conteúdo existente nas campanhas.

Esperamos que os candidatos entendam o recado.

Porque, se aquilo que vimos neste primeiro domingo for uma prévia do que teremos até outubro, será novamente mais do mesmo.

Frases de efeito.

Acusações.

Denúncias.

Cortes para redes sociais.

E o eleitor tentando adivinhar aquilo que deveria ser explicado claramente pelos candidatos: o que pretendem fazer depois de eleitos?

Democracia não precisa apenas de debates.

Precisa de debates que sirvam para alguma coisa.

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