NOSSO SILÊNCIO, NOSSA VERGONHA

Há um texto célebre do pós-guerra, comumente atribuído a Bertolt Brecht, mas parido da alma do pastor luterano Martin Niemöller. Não era manifesto partidário; era uma dolorosa confissão. Niemöller calou diante da caçada aos comunistas, aos sindicalistas e aos judeus porque se julgava a salvo na sua redoma. Calou até o instante em que bateram à sua própria porta — e não havia mais alma viva para gritar por ele.

A moral dessa história reside na mecânica da omissão consentida: a liberdade nunca é confiscada de um só golpe. Ela é entregue aos pedaços, em fatias mornas de silêncio, sob o pretexto cômodo de que o arbítrio só sangra o vizinho.

O Brasil dos nossos dias vem encenando uma versão peculiar desse enredo.

Tudo começa no pilar mais elementar da democracia: a liberdade de informar. Quando o Supremo Tribunal Federal autorizou a quebra de sigilo da fonte de um jornalista no Maranhão — após denúncias sobre o uso de veículo oficial —, o sinal de alarme soou com atraso. O sigilo de fonte, cravado no artigo 5º da Constituição, não é concessão de ocasião nem benesse de tribunal; é o oxigênio da imprensa livre. Quando o julgador relativiza uma garantia pétrea para conter o desconforto de uma autoridade, a toga corre o risco de se confundir com a parte interessada.

O episódio escancara uma lição elementar de teoria do poder: instituições não operam por lealdade de ocasião. O poder que se expande sem amarras, mesmo quando aplaudido em nome de causas nobres, não cultiva alianças perpétuas. A imprensa que outrora aplaudiu o ativismo desmedido contra adversários do momento hoje assiste à devassa de suas próprias fontes — prova de que a garantia sacrificada em nome do inimigo de ocasião pode, amanhã, ser cobrada de quem apenas fazia seu trabalho de informar.

A parábola de Niemöller segue desconfortavelmente atual. Quando quem dita os limites do poder é o próprio poder, cada setor descobre, mais cedo ou mais tarde, o custo da conveniência e da omissão. A pergunta que fica não é sobre os erros de ontem, mas sobre o amanhã: quem restará para erguer a voz quando a porta a se fechar for a sua?

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