PERSPECTIVA POLÍTICA – Quando o eleitor não acompanha a mudança
Mudanças de campo político colocam a fidelidade do eleitor à prova, ausências em debates reacendem a discussão sobre direitos e deveres dos candidatos e rumores de aproximação entre partidos mostram como os bastidores também fazem parte da campanha.
Mudar de posição faz parte da vida.
Também faz parte da política.
Pessoas reveem conceitos, mudam convicções, aproximam-se de novos grupos e podem legitimamente concluir que aquilo em que acreditavam ontem já não representa aquilo em que acreditam hoje.
O problema eleitoral para um político começa quando ele muda, mas seus eleitores não mudam junto com ele.
A história recente da política brasileira apresenta exemplos conhecidos de políticos que realizaram mudanças importantes de posicionamento e posteriormente encontraram dificuldades nas urnas.
Alexandre Frota e Joice Hasselmann estão entre os casos mais emblemáticos.
Isso não significa que suas derrotas possam ser atribuídas exclusivamente às mudanças políticas. Eleições possuem inúmeras variáveis.
Mas mostra que trocar de campo político sempre envolve riscos.
Merísio será mais um teste?
Santa Catarina poderá oferecer nesta eleição um novo caso para observarmos.

Gelson Merísio construiu boa parte de sua trajetória política no campo da centro-direita.
Em 2018, quando disputou o Governo de Santa Catarina, declarou voto em Jair Bolsonaro.
Anos depois, mudou de posição.
Apoiou Lula em 2022 e hoje, filiado ao PSB, disputa novamente o Governo de Santa Catarina como candidato apoiado pelo presidente e integrado ao grupo que se apresenta na campanha como “O Time de Lula em SC”.
O próprio Merísio não esconde essa mudança. Pelo contrário, já falou publicamente sobre ela e apresentou suas razões.
Portanto, não existe nada oculto.
Existe uma escolha política absolutamente legítima.
E agora ela será submetida ao julgamento do eleitor.
A resposta virá das urnas
A pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (24) colocou Merísio com 4% das intenções de voto.
É um número que chama atenção, mas ainda estamos no início da campanha e seria precipitado atribuí-lo à mudança de posicionamento político do candidato.
Por enquanto, existem duas perguntas interessantes a serem acompanhadas.
O eleitor que acompanhava Gelson Merísio quando ele estava na centro-direita continuará com ele agora que está no campo de Lula?
E, no movimento inverso:
o eleitor historicamente identificado com Lula e com a esquerda catarinense aceitará Merísio como seu candidato?
É justamente aí que está um dos riscos de quem atravessa de um campo político para outro.
O político pode mudar suas convicções.
Pode explicar suas razões.
Pode construir novas alianças.
Tudo absolutamente legítimo.
Mas existe algo que ele não consegue determinar:
se seus antigos eleitores farão a travessia junto com ele e se os novos estarão dispostos a recebê-lo.
Somente as urnas darão essa resposta.
Debate, ausência e base legal
Ainda repercute o primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band no domingo (23).

Ronaldo Caiado foi um dos mais contundentes ao criticar as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, chegando a defender que candidatos que não participem de debates sofram consequências mais severas.
Esta coluna também lamentou as ausências.
Continuamos entendendo que, quando um candidato decide não participar de um debate, o principal prejudicado é o eleitor.
Debates oferecem uma oportunidade diferente daquela encontrada nos programas eleitorais, comícios e redes sociais.
Neles, o candidato precisa responder perguntas, confrontar propostas, enfrentar o contraditório e demonstrar como reage quando colocado sob pressão.
Tudo isso ajuda o eleitor a formar sua própria avaliação.
Mas existe a lei
É justamente aqui que precisamos separar aquilo que gostaríamos que acontecesse daquilo que determina a legislação.
Por mais que possamos considerar importante a presença dos candidatos, a legislação eleitoral não os obriga a participar dos debates.
Consequentemente, a ausência, por si só, não constitui fundamento para cassação do registro de candidatura.
Caiado pode defender uma mudança na legislação.
Pode propor que a participação se torne obrigatória.
Pode até sugerir algum tipo de consequência eleitoral para quem faltar, desde que isso seja constitucionalmente possível e aprovado pelo Congresso.
Esse debate é legítimo.
Mas, pelas regras atuais, Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema ou qualquer outro candidato possui o direito de não comparecer.
E então chegamos a uma diferença fundamental.
Juridicamente, a ausência não produz a cassação pretendida por Caiado. Politicamente, entretanto, ela pode produzir consequências.
Quem decidirá se faltar a um debate merece ou não algum tipo de reprovação não será a Justiça Eleitoral.
Será o eleitor, através do voto.
PL e Novo: aproximação ou balão de ensaio?
Começaram a circular nos últimos dias, em veículos de comunicação, portais independentes e redes sociais, informações sobre uma possível aproximação entre PL e Novo ainda no primeiro turno da eleição presidencial.
Informações de bastidores apontam, inclusive, que conversas preliminares já teriam ocorrido.
Não existe, entretanto, qualquer anúncio oficial de acordo.
E esta diferença precisa ficar muito clara.
Em política, principalmente durante uma campanha eleitoral, informação de bastidor não pode ser transformada em fato consumado enquanto os próprios envolvidos não confirmarem sua existência.
Quando o vazamento também faz política
Mas existe outro componente interessante.
Não é incomum que possíveis movimentos políticos cheguem antecipadamente à imprensa ou circulem nos bastidores por iniciativa de pessoas envolvidas nas próprias articulações.
É o conhecido balão de ensaio.
A informação circula antes da decisão definitiva e permite observar como lideranças, partidos, adversários e, principalmente, eleitores reagem à possibilidade.
Isso não significa que esteja acontecendo neste caso.
Mas, quando informações semelhantes começam a aparecer em diferentes espaços, vale acompanhar os movimentos seguintes.
O voto útil já entrou na campanha
Existe ainda um fato concreto que ajuda a compreender o momento político.

Flávio Bolsonaro passou a trabalhar publicamente com a estratégia do chamado voto útil, buscando concentrar já no primeiro turno parcela maior do eleitorado de direita e centro-direita.
O movimento ocorre justamente num momento em que pesquisas recentes mostram crescimento de sua candidatura e uma disputa cada vez mais concentrada entre Flávio e Lula.
Uma eventual aproximação com o Novo, portanto, teria lógica eleitoral dentro dessa estratégia de concentração de votos.
Ter lógica, entretanto, não significa que acontecerá.
Por enquanto, não existe acordo anunciado entre PL e Novo.
Existem informações de bastidores.
Existe uma estratégia pública de voto útil.
E existem sinais que merecem ser acompanhados.
Agora é observar.
Se nada acontecer, poderá ter sido apenas mais uma especulação de campanha.
Se novos movimentos surgirem, talvez descubramos que aquilo que parecia apenas um rumor era, na realidade, o primeiro teste para uma articulação maior.
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