Um Ano Depois…

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Na época, Kalkbrenner era o melhor fotógrafo de Curitiba. Sujeito versátil, dominava o estúdio com seu jogo de luzes complicado, as fotos outdoor (a palavra só seria importada anos depois) e a própria vida. Sabia viver como poucos! Trabalhava duro. Sessão de fotos com ele começava cedo, antes das 8 horas, com parada para o almoço, comida feita em casa pela Maria (mulher do Kalk) e partilhada com todos que estivessem no estúdio, em volta de grande mesa de madeira. Siesta sagrada antecedia a jornada vespertina. Mas ele sempre arrumava tempo para pescarias no pantanal e incursões pelos sertões do Brasil.

Eu não perdia oportunidade de acompanhar trabalho encomendado a ele pela agência de publicidade na qual trabalhava.

Experiente e perspicaz, Kalk sabia ler olhos e pensamentos. Eu estava num daqueles dias em que o mundo parece conspirar contra a gente. Não lembro dos detalhes, mas sei que a sucessão de equívocos começara cedo, primeiro em casa, depois no trabalho.

Kalk percebeu minha “ausência” e minha preocupação.

– Que é que está acontecendo com você? – quis saber.

Contei-lhe meus dramas particulares. Ele retrucou com nova pergunta:

– Daqui a um ano você vai se lembrar desses problemas?

Pensei um instante antes de responder.

– Não. Acho que não…

– Então não é importante! – E concluiu: – Se depois de um ano a gente não lembrar mais do problema, é porque o assunto não é assim tão importante como parece…

Lição aprendida com Kalkbrenner.

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