Ninguém é uma Ilha

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Mário de Mari era o mais importante construtor e incorporador de Curitiba. Eu era um aprendiz de publicitário. Até que eu escrevia bem, mas entendia pouco de marketing. E talvez menos ainda das sutilezas da vida.

Na agência de publicidade na qual eu trabalhava descobriram um longínquo parentesco que me possibilitava freqüentar a casa do Mário de Mari, também cliente da empresa. A partir daí, o chefe – toda vez que precisava aprovar os textos de uma nova campanha – arrumava um pretexto para me delegar a tarefa, responsabilidade dos contatos e não dos redatores.

Mário de Mari percebeu logo meu constrangimento. Também entendeu que eu, dada a pouca experiência no mundo dos negócios, não conseguia me esquivar do encargo. Quando a secretária da agência telefonou pedindo novo encontro para apresentação de textos, agendou a conversa para o final da tarde.

Aguardei, constrangido como sempre, na ante-sala, o entra e sai de diversos executivos. Finalmente, a secretária abriu a porta da sala do chefe e me convidou a entrar. Ficamos só nós dois. A princípio não entendi a deferência. Ou ele realmente me considerava especial ou talvez aproveitasse a situação para dispensar os serviços da empresa…

A imensa sala era dividida em três ambientes: a escrivaninha de trabalho, uma enorme mesa de reuniões e um conjunto de sofás. Foi para lá que ele se dirigiu, convidando-me a acompanhá-lo. Ofereceu-me um copo de whisky. Recusei. Ficou com o copo na mão, bebericando lentamente o líquido amarelo mergulhado em gelo. Pediu para ler os textos.

– Foi você que escreveu? – perguntou.

Confirmei, com um aceno de cabeça.

– Estão bons. Você tem talento… Mas não foi pra isso que pedi que viesse depois do expediente…

– …

– Tenho observado seu constrangimento – começou; era homem direto, sem rodeios. – Também sei que estão usando você e o nosso relacionamento pra aprovar as campanhas. Não me importo. Aliás, até prefiro, porque os contatos da agência, na maioria, são chatos. Mas queria esclarecer alguns detalhes.

– …

– Vamos combinar o seguinte… Nós dois sabemos o que está acontecendo. Você continua autorizado a vir me apresentar os textos e as campanhas. Mas eu vou ter liberdade de não aprovar o que achar ruim ou errado. E você não vai levar isso como coisa pessoal, nem ficar chateado.

– Sim, senhor – concordei, aliviado.

– Tem mais uma coisa. E essa é pessoal… Conselho de mais velho, de homem que já viu quase tudo na vida… Aproveite a oportunidade para iniciar seus próprios relacionamentos. Ninguém é uma ilha, a não ser que escolha ser uma. Se souber cultivar bons relacionamentos – não confunda relacionamento com amizade – irá descobrir que, quando chegar aos 50 anos, encontrará muitas portas abertas e a vida será mais fácil para você. Caso contrário, as dificuldades serão as mesmas de agora. A escolha é sua!

Nos caminhos e descaminhos da vida, perdi o contato com Mário de Mari.

A lição valeu…

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