Somos todos Incompetentes
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Amadeu era o “secretário fac totum” do candidato a governador. Competente e eficiente, conseguia organizar a agenda do chefe e os demais assuntos da campanha. Nada ficava pendente ou com solução adiada.
O candidato elegeu-se governador e Amadeu continuou como secretário particular. Raras vezes vi um gabinete oficial funcionar com tanta eficiência. Dois anos depois, diversos secretários de Estado pedem afastamento do governo para disputar as eleições municipais. Homem de confiança do governador, Amadeu foi “promovido”. De secretário particular passou a secretário de Estado. As reclamações tornaram-se freqüentes e recorrentes. A eficiência de Amadeu desaparecera, como que por “feitiço dos adversários”.
Anos depois, Betty, minha mulher, foi convidada para importante cargo na secretaria de Cultura do município onde trabalhava como bibliotecária. Quem a convidou, explicou-lhe que o convite era decorrência do excelente trabalho que tinha feito na direção da biblioteca.
Ela não teve dúvidas em declinar do convite. Perguntei-lhe os motivos: o salário não era compensador? Havia algum componente político na recusa?
– Não, simplesmente não estou preparada para o cargo – explicou. – Eles me acham competente porque faço bem o que conheço e o que gosto de fazer. O dinheiro que vou ganhar a mais na secretaria de Cultura não compensa o desgaste e o risco. Vai demorar pouco pra todos esquecerem o que fiz na biblioteca, mas com certeza irão lembrar o que fizer de errado, ou não fizer, na nova função… Quando se trata de fazer o que não conhecemos, somos todos incompetentes!
Sem querer, Betty explicou a trajetória de Amadeu.
Betty continua bibliotecária.
Amadeu voltou a ser o competente secretário do mesmo político.
