Perder é Pior que não Ganhar
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Eu trabalhava na Mares do Sul, uma revista de turismo. Além de diretor geral, fazia também o comercial, o que me levava a viajar ao Rio Grande do Sul de tempos em tempos. Ívano Casagrande era o representante comercial no Estado.
Estávamos os dois almoçando. Os celulares eram novidade e ele, vez por outra, interrompia o almoço e a conversa para “administrar” a crise familiar de um casal amigo. As querelas dos amigos de Casagrande estavam na fase dos desaforos mútuos, principalmente do marido que não admitia a separação – pedida pela mulher –, aprontando sucessivos escândalos.
– Que é isso!? – comentei. – Esse seu amigo realmente é sujeito complicado. Por que não deixa a mulher seguir seu caminho?
– É da vida… – simplificou Ívano. – Somos todos iguais. Ninguém aceita perder…
Retruquei, argumentando que não cabia espernear, melhor aceitar os fatos como eles são. Ele então partiu para exemplo prático, acontecido tempos antes.
– Vamos imaginar que você esteja extremamente atarefado, envolvido em mil problemas… Eu lhe telefono, dizendo que temos possibilidade de fechar um bom anúncio, página dupla. Mas o diretor da empresa exige sua presença aqui, amanhã de tarde. O que seria possível, bastaria pegar um avião e viajar uma hora. Você vai pensar duas vezes e é capaz de não largar suas outras tarefas para vir até aqui… Não é isso?
– É… – concordei.
– Agora, outro fato… Lembra do sujeito das botas, da Serra, que tinha programação de anúncio de meia página na revista? Ele resolveu cancelar os anúncios, numa sexta de tarde. Eu lhe telefonei no sábado, contando o caso e explicando que só havia um jeito de reverter a decisão. Era você falar com ele pessoalmente. Mais um detalhe: ele viajaria segunda ao meio-dia para a Europa. Que foi que fizemos? Segunda cedo, estávamos os dois na frente do sujeito das botas. Pra isso você viajou, de carro, seis horas, domingo de madrugada, enquanto eu rodei outras duas horas, daqui até a serra.
– Foi… – concordei de novo.
– Pois é… Isso vale pra tudo na vida… Nós até aceitamos não ganhar. Mas esperneamos quando perdemos alguma coisa que julgamos já ser nossa…
História relembrada pelo Ívano Casagrande.
