O Brasil precisa de propostas, não de uma campanha de destruição dos adversários

Problemas estruturais estão diante de todos; o eleitor precisa saber como os candidatos pretendem enfrentá-los, quanto custará e de onde virão os recursos

Imagem gerada por IA

Que o Brasil possui problemas enormes não é novidade para ninguém.

O cidadão convive diariamente com impostos elevados, juros altos, violência, dificuldades na saúde, infraestrutura insuficiente, saneamento incompleto, baixo crescimento econômico e contas públicas pressionadas.

Os diagnósticos existem.

O que ainda falta, principalmente neste período eleitoral, são respostas objetivas.

Seria extremamente positivo para o país se os candidatos à Presidência da República deixassem, pelo menos por algum tempo, a estratégia de desconstrução dos adversários e concentrassem seus esforços na apresentação de propostas concretas.

O eleitor já sabe que os candidatos discordam.

Já conhece as acusações.

Já ouviu quem considera quem incompetente, corrupto, radical, despreparado ou perigoso para o país.

Mas existe uma pergunta muito mais importante:

O que cada um pretende fazer se vencer a eleição?

Comecemos pela carga tributária.

Em 2025, os tributos arrecadados pela União, estados e municípios representaram 32,4% do Produto Interno Bruto brasileiro.

Quem entende que essa carga precisa ser reduzida deve explicar como fará isso sem ampliar ainda mais o déficit público.

Quais impostos serão reduzidos? Quais despesas serão cortadas? Qual será o impacto sobre estados e municípios?

Não basta dizer que o brasileiro paga muito imposto. É preciso mostrar como mudar essa realidade.

Outro tema fundamental é a enorme quantidade de famílias dependentes de programas de transferência de renda.

Auxílio social é indispensável para quem precisa.

O objetivo de uma política pública, entretanto, deveria ser criar condições para que cada vez mais famílias conquistem autonomia, emprego e renda suficientes para não depender permanentemente do Estado.

Como fazer isso? Qualificação profissional? Atração de investimentos? Incentivos ao empreendedorismo? Redução do custo de contratação?

Essas são as propostas que o eleitor precisa conhecer.

Também precisamos discutir crescimento econômico.

O Brasil não conseguirá melhorar de maneira consistente salários, arrecadação, emprego e qualidade dos serviços públicos se continuar crescendo abaixo de seu potencial.

Como aumentar a produtividade? Como estimular investimentos privados? Como reduzir burocracia? Como melhorar a segurança jurídica? Como tornar nossas empresas mais competitivas?

Dizer que o país precisa crescer é fácil.

Explicar como alcançar crescimento sustentável é outra história.

As contas públicas talvez representem um dos debates mais urgentes.

O setor público brasileiro encerrou 2025 com déficit primário, enquanto os juros nominais ultrapassaram R$ 1 trilhão.

Nenhum governo pode gastar permanentemente mais do que arrecada sem produzir consequências.

Quem deseja governar precisa explicar como pretende alcançar, no mínimo, equilíbrio entre receitas e despesas antes dos juros.

Vai reduzir gastos? Aumentar receitas? Rever programas? Modificar regras previdenciárias? Realizar uma reforma administrativa?

Essas respostas precisam aparecer antes das eleições e não depois da posse.

Segurança pública é outro tema que não permite frases genéricas.

O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, o equivalente a 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes. Embora o número tenha recuado, continua representando dezenas de milhares de famílias atingidas pela violência todos os anos.

Como enfrentar organizações criminosas? Como melhorar as polícias? Como integrar União, estados e municípios? Como impedir que facções controlem territórios e atividades econômicas? Como melhorar o sistema penitenciário?

O eleitor precisa conhecer o plano.

Nossa infraestrutura também exige respostas.

Rodovias ruins aumentam o custo do transporte, reduzem a competitividade das empresas, provocam acidentes e dificultam o desenvolvimento regional.

Qual será a prioridade? Concessões? Investimento público? Parcerias com a iniciativa privada? Ferrovias? Portos?

Não basta prometer obras. É preciso dizer quais, quanto custarão e como serão financiadas.

Na saúde, a população conhece as dificuldades.

Filas para consultas, exames e cirurgias, falta de especialistas e desigualdades regionais fazem parte da realidade de milhões de brasileiros.

Como reduzir essas filas? Como melhorar a atenção básica? Como utilizar tecnologia para acelerar diagnósticos? Como distribuir melhor médicos e especialistas?

Mais uma vez, respostas concretas.

O saneamento básico talvez seja um dos maiores exemplos de problemas que atravessam governos.

Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico indicam que pouco mais de 62% da população brasileira é atendida por rede coletora de esgoto.

Isso significa que dezenas de milhões de brasileiros ainda não possuem acesso a um serviço básico em pleno século XXI.

Qual é o plano para universalizar o saneamento? Quanto será investido? Qual será a participação da iniciativa privada? Quais regiões receberão prioridade? Quando as metas serão atingidas?

Somente esses temas já seriam suficientes para produzir uma campanha eleitoral de altíssimo nível.

Carga tributária.

Emprego e redução da dependência de auxílios.

Crescimento econômico.

Equilíbrio fiscal.

Segurança pública.

Infraestrutura.

Saúde.

Saneamento.

Não precisamos de mais frases de efeito.

Precisamos de metas.

Não precisamos apenas saber quem os candidatos consideram culpado pelos problemas.

Precisamos saber como pretendem resolvê-los.

E existe outra pergunta fundamental que deveria acompanhar cada promessa:

Quanto custa e de onde virá o dinheiro?

Essa talvez seja uma das maiores deficiências do debate político brasileiro.

É muito fácil prometer hospitais, rodovias, redução de impostos, novos benefícios, reajustes salariais e investimentos.

Difícil é explicar como tudo isso caberá no orçamento.

Uma campanha responsável deveria apresentar prioridades, fontes de financiamento e prazos.

Também deveria admitir que determinados problemas não serão resolvidos em quatro anos.

O eleitor merece essa honestidade.

Direita, esquerda e centro possuem visões diferentes sobre o tamanho do Estado, impostos, segurança, economia e políticas sociais.

Ótimo.

É exatamente dessas diferenças que uma democracia necessita.

Mas que sejam diferenças apresentadas por meio de projetos.

Que um candidato defenda determinada solução e outro apresente alternativa diferente.

Que o eleitor compare.

Que escolha.

Que cobre depois.

O que pouco acrescenta ao país é transformar toda a eleição em uma competição para descobrir quem consegue destruir melhor a reputação do adversário.

Evidentemente, denúncias relevantes precisam ser investigadas.

A vida pública dos candidatos deve ser fiscalizada.

Erros administrativos precisam ser expostos.

Mas isso não pode ocupar praticamente todo o debate.

O Brasil possui problemas grandes demais para desperdiçar uma eleição discutindo apenas pessoas.

Precisamos discutir o país.

Se os candidatos apresentassem propostas consistentes somente para esses oito temas, já teríamos uma campanha muito mais útil à população.

Depois de décadas repetindo problemas semelhantes, talvez esteja na hora de mudar também a forma como fazemos eleições.

Menos acusações.

Menos slogans.

Menos frases preparadas para viralizar.

Mais números.

Mais propostas.

Mais planejamento.

E principalmente uma resposta clara à pergunta que realmente interessa ao eleitor:

Se você for eleito, o que fará para melhorar o Brasil e como pretende fazer?

Só isso já representaria um enorme avanço na qualidade da nossa democracia.

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