O Brasil pode se dar ao luxo de produzir menos?
Empresas fecham unidades, cortam empregos e enfrentam dificuldades financeiras; reduzir a jornada sem elevar a produtividade acrescenta mais um desafio a uma economia já pressionada

Dia após dia, os sinais de dificuldades na economia brasileira vão se acumulando.
Grandes empresas reduzem estruturas.
Lojas fecham.
Empregos desaparecem.
Milhões de empresas estão inadimplentes.
Famílias possuem parte crescente de sua renda comprometida com dívidas.
E, neste exato momento, o Congresso discute uma mudança que, embora possa representar um benefício importante para a qualidade de vida dos trabalhadores, também produzirá custos econômicos que não podem simplesmente ser ignorados: o fim da escala 6×1 acompanhado da redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial.
O debate precisa ser feito com responsabilidade.
O trabalhador merece melhores condições de vida.
Merece tempo com sua família.
Merece descanso.
Merece saúde.
Isso não está em discussão.
A pergunta é outra:
a economia brasileira, nas condições atuais, possui produtividade suficiente para absorver esse custo sem consequências sobre emprego, preços e competitividade?
Existem motivos concretos para preocupação.
O Bradesco, por exemplo, eliminou 2.448 postos de trabalho e fechou 324 agências nos 12 meses encerrados em junho. É verdade que o banco permanece altamente lucrativo e que parte significativa desse processo está relacionada à digitalização dos serviços bancários. Ainda assim, o exemplo mostra uma realidade empresarial cada vez mais presente: produzir mais utilizando estruturas menores.
No varejo, a situação das Casas Bahia é muito mais dramática.
Uma das marcas mais tradicionais do país pediu recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas, anunciou o fechamento de 298 lojas e realizou um amplo programa de redução de pessoal. As demissões coletivas mais recentes chegaram a ser suspensas provisoriamente pela Justiça enquanto se discute a necessidade de negociação sindical.
São exemplos diferentes, mas revelam uma característica comum.
Empresas estão buscando reduzir custos.
Algumas porque mudaram seu modelo de negócios.
Outras porque estão financeiramente sufocadas.
Nesse ambiente, aumentar compulsoriamente o custo da hora trabalhada exige enorme cautela.
A proposta que tramita no Congresso acaba com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial. O texto já passou pela Câmara e está em discussão no Senado.
A matemática empresarial é simples.
Se uma empresa precisa funcionar durante a mesma quantidade de horas, mas cada empregado passa a trabalhar menos mantendo o mesmo salário, existem algumas alternativas.
Contratar mais pessoas.
Pagar horas extras.
Automatizar atividades.
Reduzir horários de funcionamento.
Aumentar preços.
Ou tentar produzir mais durante cada hora trabalhada.
A última alternativa seria a ideal.
O problema é justamente a produtividade brasileira.
Dados recentes do FGV IBRE mostraram queda de 0,5% na produtividade por hora trabalhada no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. O país carrega há décadas dificuldades estruturais relacionadas a qualificação, infraestrutura, tecnologia, burocracia e eficiência.
É nesse contexto que a mudança preocupa.
Estudo da Confederação Nacional da Indústria estima que a redução da jornada poderia aumentar os custos das empresas brasileiras entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano, dependendo da necessidade de novas contratações ou de pagamento de horas extras.
No cenário mais elevado, seria um acréscimo próximo de 7% na folha de pagamentos.
A indústria também afirma que 97% das empresas do setor seriam afetadas e aponta como principais preocupações o aumento dos custos, a perda de competitividade e possíveis reduções na produção.
Existem estudos em sentido contrário.
Pesquisadores e defensores da mudança argumentam que trabalhadores mais descansados podem produzir mais por hora, adoecer menos e apresentar menor rotatividade. Há experiências empresariais em que jornadas menores foram acompanhadas por melhora de produtividade e resultados.
Esse argumento precisa ser respeitado.
Mas existe uma diferença fundamental entre uma empresa reduzir voluntariamente sua jornada depois de avaliar sua própria produtividade e o país inteiro estabelecer a mudança por determinação constitucional.
Uma empresa de tecnologia não possui a mesma realidade de um supermercado.
Uma indústria altamente automatizada não possui a mesma estrutura de um restaurante.
Um escritório não funciona da mesma maneira que um hospital.
Um pequeno comerciante não possui a capacidade financeira de uma multinacional.
É exatamente por isso que uma mudança dessa dimensão não deveria ser tratada apenas como uma disputa entre quem “defende” e quem “não defende” o trabalhador.
A discussão é muito mais complexa.
Se o Brasil tivesse produtividade elevada, juros baixos, empresas capitalizadas e uma economia crescendo de maneira consistente, a transição seria naturalmente mais fácil.
Não é essa nossa realidade.
Temos milhões de empresas inadimplentes.
Famílias fortemente endividadas.
Crédito caro.
Juros ainda elevados.
Contas públicas deficitárias.
Grandes empresas em processos de reestruturação.
E uma produtividade entre as mais baixas entre os países em desenvolvimento.
Nesse cenário, adicionar custos sem antes aumentar a eficiência pode produzir justamente aquilo que ninguém deseja: mais automação acelerada, informalidade, redução de vagas e fechamento de pequenos negócios.
Quem mais sofrerá se isso acontecer?
O trabalhador de menor renda.
Aquele que possui menor qualificação.
Aquele que tem mais dificuldade de encontrar outro emprego.
Aquele que depende integralmente do salário recebido no final do mês.
Um país não enriquece simplesmente distribuindo aquilo que ainda não conseguiu produzir.
Riqueza precisa ser criada.
Produtividade precisa crescer.
Empresas precisam investir.
Trabalhadores precisam ser mais qualificados e melhor remunerados.
Só depois desse processo uma sociedade consegue trabalhar menos horas sem necessariamente produzir menos riqueza.
Esse deveria ser o verdadeiro objetivo brasileiro:
trabalhar melhor para poder trabalhar menos.
Não apenas reduzir horas por decreto e esperar que a produtividade apareça depois.
O fim da escala 6×1 pode representar uma conquista social importante.
Mas conquista social sustentável precisa estar apoiada em capacidade econômica.
Caso contrário, aquilo que pretende beneficiar o trabalhador poderá terminar produzindo efeitos exatamente sobre quem se pretende proteger.
O Brasil precisa melhorar as condições de trabalho.
Mas precisa fazer isso ao mesmo tempo em que aumenta drasticamente sua produtividade.
Sem riqueza sendo produzida, não existe legislação capaz de tornar um país mais rico.
E, no final, quando a economia enfraquece, a história mostra sempre a mesma realidade:
quem ganha menos é quem sofre primeiro e sofre mais.
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