Central Ailos — de Blumenau ao cooperativismo financeiro que fortalece comunidades

Em 1951, em Blumenau, funcionários da Companhia Hering criaram uma cooperativa de crédito com um propósito muito concreto: ajudar trabalhadores a conquistar casa própria, máquinas de costura, bicicletas, vacas e outros bens essenciais para a vida naquele tempo. Chamava-se Cooperativa de Crédito Organizações Hering, a CrediHering. O que parecia uma iniciativa de apoio entre colegas de fábrica acabaria se transformando em uma das raízes mais fortes do cooperativismo financeiro catarinense. Com o passar dos anos, a cooperativa ampliou o atendimento para a comunidade, tornou-se Viacredi e ajudou a preparar o caminho para um sistema maior.

A virada institucional veio em 2002, quando a Viacredi e outras duas cooperativas constituíram a Central CECRED, hoje Central Ailos. A ideia era simples e poderosa: unir cooperativas para ganhar escala, padronizar serviços, fortalecer governança e ampliar o acesso a soluções financeiras com base comunitária. Nascia ali uma estrutura de segundo grau — a “cooperativa das cooperativas” — capaz de apoiar as filiadas em tecnologia, produtos, fiscalização, risco, planejamento e representação institucional.

Ao longo do tempo, o sistema foi deixando de ser apenas uma soma de cooperativas regionais para se tornar uma marca integrada. Em 2018, a antiga CECRED passou por reposicionamento e adotou o nome Ailos, inspirado em “Ayllu”, palavra associada a uma forma de organização comunitária andina baseada no trabalho cooperativo. Mais do que trocar a placa, era um gesto de síntese: dizer ao mercado e aos cooperados que havia uma identidade comum por trás das diferentes cooperativas filiadas.

Hoje, a Central Ailos atua como o coração estratégico, tecnológico e institucional do sistema. Sua função é integrar, apoiar e fiscalizar; conduzir o planejamento sistêmico; representar as cooperativas junto a entidades como Banco Central, OCB, Confebrás e OCESC; além de centralizar áreas como crédito, canais de relacionamento, comunicação, financeiro, compensação, riscos, compliance, auditoria, tecnologia e gestão de pessoas. É um trabalho que raramente aparece para o cooperado no balcão, mas que sustenta a confiança de quem abre conta, contrata crédito, investe, usa cartão, faz Pix ou busca apoio para o próprio negócio.

Os números recentes mostram o tamanho dessa construção. Em 2025, o Sistema Ailos somou R$ 28,6 bilhões em ativos totais, R$ 18,8 bilhões em carteira de crédito, R$ 19,5 bilhões em carteira de investimentos e R$ 226 milhões em sobras colocadas à disposição dos cooperados em assembleias. No mesmo ano, a chamada Economia da Cooperação — diferença gerada por taxas, rendimentos, capital social e retorno de sobras em comparação a alternativas tradicionais de mercado — totalizou R$ 3,9 bilhões.

Mas o cooperativismo financeiro não se mede apenas por balanço. Ele se mede pelo dinheiro que fica na comunidade, pelo pequeno empreendedor que encontra crédito, pela família que reorganiza a vida financeira, pelo jovem que aprende a poupar e pela empresa local que consegue crescer sem perder autonomia. Em 2025, o sistema registrou mais de 1.100 eventos assembleares, com 327.671 participantes e 180.794 votantes — um lembrete de que, no modelo cooperativo, o associado não é apenas cliente: é dono, participante e corresponsável pelo rumo da instituição.

A dimensão humana também aparece na educação. O Ailos informa que suas cooperativas oferecem acesso gratuito ao Ailos Educação, iniciativa que já impactou mais de 7 milhões de pessoas em mais de 20 anos. Em 2025, foram mais de 1 milhão de participações, mais de 9.700 eventos e mais de 200 cursos em plataforma EAD. É uma frente menos visível do que o crédito, mas decisiva para o desenvolvimento local: formar pessoas para lidar melhor com dinheiro, empreender com mais segurança e participar da vida econômica da própria região.

A expansão recente confirma a força do modelo. A própria página institucional do Ailos já apresenta o sistema como a união de 14 cooperativas, ao lado da Central e da Corretora, com mais de 1,7 milhão de cooperados. A estrutura mantém sede em Blumenau, na Rua General Osório, e segue combinando atendimento presencial, tecnologia única e padronização de serviços para crescer sem romper com a lógica comunitária que originou tudo.

Se números ajudam a contar a história, são as pessoas que dão sentido a ela. Há quem trabalhe na Central desenvolvendo sistemas, analisando riscos, construindo produtos, apoiando cooperativas, cuidando de compliance, comunicação, auditoria, atendimento e governança. Há também conselheiros, dirigentes, colaboradores e cooperados que, em cada cidade, fazem o modelo acontecer na prática. É uma engrenagem discreta, mas essencial: quando funciona bem, transforma crédito em oportunidade, tecnologia em proximidade e resultado financeiro em benefício compartilhado.

Há desafios no horizonte — concorrência digital, regulação cada vez mais exigente, segurança cibernética, educação financeira e a necessidade de crescer sem perder o vínculo local. Mas a história da Central Ailos mostra uma vantagem difícil de copiar: a capacidade de unir escala e pertencimento. Ser grande, nesse caso, não significa ficar distante. Significa fazer com que uma decisão tomada em Blumenau volte em forma de atendimento melhor, crédito mais justo, sobras distribuídas, educação e desenvolvimento nas comunidades onde as cooperativas estão presentes.

Linha do tempo — marcos essenciais
1951 — Funcionários da Companhia Hering criam a CrediHering, origem da atual Viacredi e uma das bases históricas do Sistema Ailos.
2002 — A Viacredi e outras duas cooperativas constituem a Central CECRED, hoje Central Ailos.
2002 — Início das ações de educação cooperativa que mais tarde evoluiriam para o Ailos Educação/Progrid.
2018 — A CECRED passa a se chamar Ailos, em reposicionamento de marca inspirado na ideia de cooperação comunitária.
2019 — Nasce a Ailos Corretora, ampliando a oferta de soluções de proteção pessoal e patrimonial às cooperativas.
2025 — Sistema registra R$ 28,6 bi em ativos, R$ 18,8 bi em crédito, R$ 19,5 bi em investimentos e R$ 226 mi em sobras.
2025 — Economia da Cooperação alcança R$ 3,9 bilhões e as assembleias somam mais de 327 mil participantes.
2026 — O sistema se apresenta como união de 14 cooperativas, Central e Corretora, com sede em Blumenau.

Mais do que uma cronologia de crescimento, a história da Central Ailos é um retrato do que Santa Catarina constrói quando transforma confiança em sistema. O que começou como apoio entre trabalhadores, em Blumenau, tornou-se uma estrutura financeira robusta, moderna e cooperativa — capaz de competir em tecnologia sem abrir mão do relacionamento humano. Fica aqui o reconhecimento aos pioneiros, aos dirigentes, às equipes técnicas e aos cooperados que fizeram dessa jornada uma prova de que dinheiro, quando circula com propósito, também constrói comunidade.

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