Multiplike Gestão de Recursos — de Joinville ao crédito estruturado que financia empresas pelo Brasil

Em Joinville, longe dos endereços tradicionais do mercado financeiro brasileiro, a Multiplike construiu uma trajetória que ajuda a contar uma nova fase de Santa Catarina: a de empresas que não produzem apenas bens físicos, mas também soluções financeiras sofisticadas para sustentar o crescimento de outras companhias. A origem do grupo é apresentada pela própria empresa como 1999, quando começou a atuar no mercado de crédito; em entrevistas, o fundador e CEO Volnei Eyng descreve o começo como uma operação pequena, de aprendizado rápido e muita disciplina, voltada a gerar crédito fora da rigidez bancária tradicional.
O que nasceu como uma operação de crédito empresarial foi ganhando estrutura, governança e ambição. A Multiplike passou a atuar com securitização, depois avançou para fundos de investimento em direitos creditórios, a chamada indústria dos FIDCs, até organizar uma engrenagem mais completa: securitizadora, gestora de recursos, FIDCs e instituição financeira. Na prática, a empresa se especializou em transformar recebíveis e ativos de crédito em instrumentos capazes de financiar companhias de médio e grande porte — um trabalho que não aparece na vitrine, mas que pode decidir se uma indústria compra matéria-prima, se uma construtora toca obra ou se uma empresa atravessa um ciclo de juros altos com fôlego.
A Multiplike Gestão de Recursos é uma das peças centrais dessa arquitetura. A própria companhia a descreve como uma empresa especializada na administração de carteiras de títulos e valores mobiliários, com foco em FIDCs, habilitada junto à CVM para exercer essa atividade. O cadastro público da gestora registra abertura em 20 de outubro de 2017, em Joinville, com atividade principal ligada à administração de fundos por contrato ou comissão — um marco que dá forma jurídica a uma competência que o grupo já vinha desenvolvendo: originar, analisar, estruturar e acompanhar crédito com método.
A lógica dos FIDCs multicedentes e multissacados talvez pareça técnica demais para o leitor comum, mas sua função é simples de entender: em vez de depender de um único tomador ou de uma única carteira, o fundo reúne créditos de diferentes empresas e diferentes pagadores, buscando diversificação e controle de risco. No caso do Multiplike FIDC, a companhia informa uma carteira formada por direitos creditórios originados em operações com múltiplos cedentes e sacados, incluindo duplicatas, contratos, notas de crédito comerciais, CCBs e recebíveis de cartão. É crédito estruturado com lastro na economia real.
Os números recentes mostram o tamanho que essa construção alcançou. A Multiplike informa ter mais de R$ 70 bilhões em créditos cedidos, R$ 5 bilhões em patrimônio líquido e investimentos previstos de R$ 36 milhões em tecnologia em 2026. Em outra frente, reportagens especializadas destacaram a atuação da gestora em crédito para o agronegócio, com sede em Joinville e originação superior a R$ 3 bilhões no setor, além de projeção de R$ 4,1 bilhões em operações com empresas do agro em 2025.
O passo mais recente da história veio com a autorização para operar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI) — na prática, uma financeira. A aprovação do Banco Central amplia o grupo econômico e permite novas fontes de captação, sem substituir as operações já existentes por meio de FIDCs, securitizadoras e gestora. Segundo a própria empresa, a implantação será gradual, com foco em compliance, segregação de estruturas e regras regulatórias. Em 2026, reportagem da Capital Aberto apontou que a financeira passou a permitir ao grupo captar também via varejo, pulverizando o passivo e reduzindo o custo médio dos recursos usados para financiar empresas.
A tecnologia também virou parte da identidade. A Multiplike afirma investir em operações mais eficientes e seguras e posiciona a área de crédito como uma estrutura que combina escuta ativa, prazos, limites e taxas definidos de acordo com a realidade de cada empresa. É um discurso financeiro, mas com impacto concreto: por trás de uma operação aprovada há análise de risco, conferência documental, esteiras digitais, governança, monitoramento e equipe técnica. O dinheiro que chega ao caixa de uma empresa, antes de virar capital de giro ou expansão, passa por gente e sistema trabalhando em silêncio.
Como em outras histórias desta série, os números contam apenas parte do caminho. Há um componente humano na construção da Multiplike: profissionais de crédito, tecnologia, jurídico, compliance, comercial e gestão que ajudaram a transformar uma empresa catarinense em referência nacional em um segmento de alta complexidade. Em 2025, reportagens locais registraram que a companhia distribuiu cerca de R$ 14,5 milhões em participação nos lucros aos colaboradores, o equivalente a 8,3 salários, e abriu novas vagas em Joinville — sinal de que o crescimento também se traduz em oportunidade de carreira dentro do estado.
Há desafios evidentes no horizonte: inadimplência corporativa, ciclos de juros, regulação, competição com bancos, exigências de governança e o teste permanente de qualidade da carteira. Mas a história da Multiplike mostra uma virtude catarinense aplicada ao mercado financeiro: crescer com método, profissionalizar processos e transformar confiança em ativo. Num setor em que reputação se constrói devagar e se perde rápido, a disciplina talvez seja o maior patrimônio.
Linha do tempo — marcos essenciais
• 1999 — Origem da Multiplike, segundo relato institucional, com atuação no mercado de crédito empresarial.
• 2012 — Formalização da Multiplike Securitizadora S.A., com sede em Joinville, conforme cadastro público.
• 20/10/2017 — Abertura da Multiplike Gestão de Recursos Ltda., voltada à administração de fundos por contrato ou comissão.
• 07/02/2018 — Início do Multiplike FIDC, fundo de direitos creditórios em condomínio aberto, segundo página do produto.
• 2025 — Autorização para operar como SCFI, ampliando a atuação do grupo como instituição financeira.
• 2025 — Atuação no agro ganha destaque, com mais de R$ 3 bilhões originados no setor e projeção de R$ 4,1 bilhões em operações.
• 2026 — Multiplike informa mais de R$ 70 bilhões em créditos cedidos, R$ 5 bilhões em patrimônio líquido e investimento previsto de R$ 36 milhões em tecnologia.
Mais do que uma cronologia de produtos financeiros, a trajetória da Multiplike é um retrato de uma Santa Catarina que também sabe inovar no capital, no risco e na inteligência de mercado. Fica aqui o reconhecimento a quem construiu essa jornada em Joinville: fundadores, lideranças e equipes que transformaram análise, confiança e tecnologia em crédito para empresas de todo o Brasil. Porque, no fim, financiar bem também é construir — só que, muitas vezes, antes da fábrica, da obra e da próxima expansão saírem do papel.
