UM JANTAR RARO

Fomos, eu e a Tina, ao Campeche para conhecer o novo projeto do nosso querido amigo, chef Narbal Corrêa. No complexo praiano Casa diPraia, ao final da Servidão Cristóvão Luiz Martins, 230, está o Raro Mar & Montanha, uma casa que tem no mar e nos ingredientes de Santa Catarina a base de sua cozinha, mas que vai além deles ao buscar produtos, sabores e referências de diferentes regiões do Estado.
Logo que chegamos, pedimos um espumante: o Terrara Goethe Champenoise Brut, da Vigna Mazon, de Urussanga, elaborado com a uva Goethe pelo método Champenoise. A escolha não poderia ser mais apropriada para começar o jantar. A Goethe tem uma história muito particular no Sul de Santa Catarina. Desenvolvida nos Estados Unidos no século XIX, a variedade foi introduzida na região de Urussanga e encontrou ali condições para se adaptar de tal maneira que acabou se tornando parte da identidade vitivinícola local.
Os Vales da Uva Goethe constituem um território vitivinícola próprio, de baixa altitude, clima subtropical úmido e características de solo e relevo diferentes das áreas de altitude da Serra Catarinense. Em 2025, a região recebeu a Denominação de Origem para seus vinhos, reconhecimento que consolida uma história construída ao longo de gerações em torno de uma variedade que encontrou no sul catarinense um território particularmente favorável.
Começamos com ostras fresquíssimas da Fazenda Marinha Ostravagante, do Ribeirão da Ilha, servidas impecáveis com aioli. Depois vieram deliciosos e clássicos moules à la crème, com um pão excelente para chuchar no molho. São pratos que conversam diretamente com a identidade de Florianópolis, onde a pesca artesanal, a maricultura e a cultura açoriana ajudaram a construir uma cozinha que tem nos frutos do mar um de seus maiores patrimônios.
Antes dos pratos principais, Narbal preparou uma ostra especial que não está no cardápio: aberta na concha, coberta com uma fina camada de pâte brisée e levada ao forno até dourar. A receita está registrada no Manual do Cultivo de Ostras, da Epagri, na preparação intitulada “Ostras cobertas com pâte brisée (massa podre)”. É uma daquelas preparações em que a técnica aparece sem se sobrepor ao produto. A crosta delicada, dourada no forno, contrasta com a ostra e concentra ainda mais seu sabor.
Eu pedi polvo com batatas ao murro. A Tina escolheu o peixe grelhado e pediu que as batatas rústicas substituíssem o arroz que acompanhava o prato. Os dois estavam muito bem executados, o que não é surpresa em uma cozinha comandada pelo Narbal. Seu trabalho sempre esteve ligado à relação entre produto, território e mar, e isso aparece tanto na escolha dos ingredientes quanto na maneira de tratá-los.
Essa relação ultrapassa as paredes do restaurante. Narbal é um dos grandes embaixadores da gastronomia de Florianópolis e de Santa Catarina e tem participação na trajetória da cidade como integrante da Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Gastronomia. Florianópolis recebeu esse reconhecimento em 2014, tornando-se a primeira cidade brasileira a obter o título. Desde então, o programa tem promovido intercâmbios com cidades gastronômicas de diferentes países, levando chefs, produtores, ingredientes e conhecimento catarinense para fora do Brasil.
Narbal participou de vários desses intercâmbios e foi coordenador da Confraria Sabores de Floripa, ligada ao programa. A confraria se tornou espaço de encontro, qualificação e divulgação dos profissionais da gastronomia da cidade, ajudando a transformar a chancela da UNESCO em trabalho concreto. Em diferentes ocasiões, Narbal levou a cozinha de Florianópolis para encontros internacionais, entre eles Macau, na China, onde participou pela primeira vez em 2016 e voltou em outras edições. Em 2024, esteve novamente no palco do Festival Gastronômico de Macau, ao lado do chef Igor Krupp, e participou da representação de Florianópolis em novas edições do evento.
No mesmo dia, mais cedo, haviam passado por lá Leo Corvo, publicitário e criador do projeto gastronômico Não Tem Chef, e Caio Coppolla, comentarista de política, economia e justiça. É um daqueles sinais de que o Raro começa a chamar atenção para além do público habitual dos restaurantes da cidade.
No final do jantar veio a surpresa. Narbal me presenteou com uma garrafa que ele próprio havia colocado no mar. A história faz parte do projeto “Caieira, o vinho que viveu o mar”, desenvolvido nas águas da Caieira da Barra do Sul, no extremo sul da Ilha de Santa Catarina. Em dezembro de 2024, garrafas foram submersas naquele trecho da Baía Sul, numa experiência que coloca o vinho em contato direto com o ambiente marinho.
É justamente essa relação com o mar que torna o projeto tão interessante. Não se trata apenas de guardar garrafas em outro lugar, mas de levar o vinho para um ambiente que faz parte da própria história de Narbal e de Florianópolis. O mar deixa de ser cenário e passa a integrar a experiência. Quando a garrafa retorna à superfície, traz consigo as marcas desse percurso: o vidro está recoberto pelas incrustações marinhas que se formaram durante o longo período em que permaneceu submerso.
Narbal levou também essa experiência para fora do Brasil, inclusive para Macau, onde o projeto despertou grande interesse. É coerente com sua própria trajetória: levar para outros lugares não apenas pratos, mas histórias, produtos e formas de relação com o território catarinense.
Há muito mais a explorar no Raro Mar & Montanha. Foi um primeiro jantar e, naturalmente, ficou a vontade de voltar para conhecer outras criações de Narbal, experimentar mais do cardápio e acompanhar a evolução da casa. O endereço ajuda. O Raro está a poucos metros da praia e tem uma relação física muito direta com o Campeche. Nos dias de sol, tenho pouca dúvida de que vai bombar. Tem todos os elementos para funcionar como um verdadeiro beach bar, mas com algo que o diferencia: uma cozinha comandada por um chef que conhece profundamente o mar, os produtos e a gastronomia de Santa Catarina.
O Raro que merece ser descortinado aos poucos, com calma e recorrência
