RECICLANDO CONCHAS

Meu interesse pelas conchas descartadas depois do consumo de moluscos não nasceu agora. Há muitos anos acompanho a maricultura catarinense por meio de clientes, amigos e relações profissionais e, com ela, a questão do destino dado àquilo que sobra depois que a carne chega à mesa. Nesse período, conheci estudos sobre o aproveitamento das conchas como corretivo de solo, fonte de cálcio para alimentação animal, agregado para pavimentação e componente de materiais de construção. Mais tarde, minha proximidade com a L’Atelier Rosie, na França, acrescentou outra perspectiva: conchas de ostras e mexilhões trituradas e incorporadas a resina são utilizadas nos cabos de facas artesanais destinadas ao mercado de luxo. Recentemente, ao conhecer empresas francesas que empregam o mesmo material em revestimentos, bancadas, mobiliário e objetos, retomei o assunto para entender até onde essas iniciativas avançaram e quais delas podem oferecer uma alternativa economicamente viável ao descarte.
O problema é mundial. Estudos científicos estimam que o processamento de bivalves produza mais de 10 milhões de toneladas de conchas por ano, e a concha pode representar entre 65% e 90% do peso vivo do animal, conforme a espécie. Não se trata de resíduo tóxico: seu principal componente é carbonato de cálcio e ela pertence naturalmente aos ecossistemas marinhos. O problema aparece quando grandes volumes são concentrados em terra ou lançados no mar sem critério. Depois do processamento, permanecem restos de tecido, matéria orgânica, sal e sedimentos que podem produzir odores e lixiviados durante a decomposição, enquanto o volume acumulado cria dificuldades de armazenamento e destinação. Na Coreia do Sul, onde a produção de ostras gera centenas de milhares de toneladas de conchas por ano, esse passivo adquiriu dimensão industrial.
No oceano, a situação é diferente. Conchas limpas podem ser utilizadas na restauração de bancos de ostras, oferecendo substrato para a fixação de novos indivíduos. Nos Estados Unidos, programas recolhem conchas de restaurantes e unidades processadoras para devolvê-las ao ambiente. O descarte indiscriminado, entretanto, pode alterar o substrato, soterrar organismos e concentrar matéria orgânica em locais inadequados. A mesma concha pode ter função ecológica ou constituir problema ambiental conforme a forma e o local de sua disposição.
Algumas utilizações já possuem mercado consolidado. A concha moída pode funcionar como fonte de cálcio e corretivo de acidez do solo, aplicação respaldada por extensa literatura agronômica. Na alimentação animal, conchas de mexilhão são processadas e comercializadas na Dinamarca como fonte de cálcio para aves há décadas. Nesses mercados, a matéria-prima reciclada substitui insumos que já possuem compradores e aplicações estabelecidas.
Outras utilizações avançaram principalmente no campo experimental. Conchas podem ser calcinadas para produzir óxido de cálcio, empregadas em processos de tratamento de água e incorporadas a concreto, argamassa, blocos, pavimentos e pavers. Os resultados dependem da espécie, da granulometria, do tratamento e da proporção incorporada, enquanto a calcinação acrescenta consumo elevado de energia e emissão de dióxido de carbono. A possibilidade técnica de utilizar conchas, portanto, precisa ser acompanhada de análise econômica e ambiental.
A logística pode decidir essa equação. Estudo da Universidade Federal de Santa Catarina que comparou o descarte de conchas de ostras em aterro com sua reciclagem para obtenção de carbonato de cálcio encontrou menor impacto ambiental no cenário de reciclagem, mas a vantagem estava condicionada à distância entre a origem e a unidade de processamento, calculada em aproximadamente 323 quilômetros. Para um material pesado, volumoso e de baixo valor antes do beneficiamento, transportar a concha por longas distâncias pode consumir parte significativa do benefício obtido com sua recuperação.
A construção civil interessa justamente pela capacidade de absorver grandes volumes. Um cabo de faca utiliza pouca matéria-prima; um paver, uma placa, um agregado ou uma indústria de insumos minerais pode consumir toneladas. Japão e Coreia do Sul desenvolveram aplicações com conchas em materiais de construção e continuam pesquisando formas de absorver volumes expressivos sem tornar o processamento mais caro ou ambientalmente menos favorável que o uso de materiais convencionais.
A França encontrou outro caminho, particularmente interessante por transformar a própria concha em elemento visível do produto. O país gera aproximadamente 250 mil toneladas de resíduos coquilleiros por ano e, segundo a ADEME, apenas pequena parcela é valorizada. A Ostrea, na Bretanha, desenvolveu um material semelhante ao terrazzo, com conchas incorporadas a uma matriz mineral, destinado a bancadas, revestimentos e mobiliário. A empresa avançou para a escala industrial, com fábrica de 5.600 metros quadrados e capacidade inicial projetada para valorizar cerca de 2 mil toneladas anuais de resíduos. Em Nantes, a Malàkio desenvolveu um compósito formado por aproximadamente 60% de conchas recicladas e 40% de matriz mineral, que seca ao ar e é utilizado em objetos, luminárias e mobiliário. A Guscio, na região de Boulogne-sur-Mer, criou o Marbre des Mers, produzido com fragmentos de conchas de Saint-Jacques e mexilhões para mesas, bancadas e outros objetos.
Nesses materiais, os fragmentos permanecem visíveis e conferem textura e identidade à superfície. A concha deixa de ser apenas um agregado e passa a participar da linguagem do produto. A CSBT Environnement trabalha em outra escala, transformando conchas de vieiras em carbonato de cálcio para diferentes setores industriais e procurando substituir matéria-prima convencional de origem mineral. São mercados distintos: o design atribui alto valor a pequenas quantidades, enquanto a indústria de insumos pode absorver volumes muito maiores.
Minha relação com a L’Atelier Rosie está nessa primeira ponta. Uma faca artesanal jamais consumirá conchas em quantidade capaz de alterar a estatística de resíduos de uma região produtora, mas demonstra que uma pequena quantidade de material descartado pode alcançar alto valor quando sua origem passa a integrar a identidade do objeto. Entre o cabo de uma faca e a utilização de toneladas em materiais de construção existe espaço para revestimentos, bancadas, mobiliário e outros compósitos de maior valor agregado.
Santa Catarina reúne condições particularmente favoráveis para explorar essa cadeia. Em 2024, segundo a Epagri, foram produzidas no Estado 6.239 toneladas de mexilhões e 2.462 toneladas de ostras, além de vieiras. Como as conchas representam parcela muito significativa do peso dos animais, a produção de alimentos marinhos gera necessariamente uma corrente expressiva de material mineral.
No Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, pesquisa da UFSC estimou em 1.158.189 quilos o volume de conchas descartado por cultivos e restaurantes durante apenas um ano. O estudo avaliou a possibilidade de transformar o material em produto comercial e encontrou viabilidade técnica, embora a configuração econômica daquele momento não justificasse a implantação de uma unidade industrial. O problema, portanto, já havia sido identificado e quantificado localmente muito antes de as experiências francesas com materiais de superfície ganharem visibilidade.
A matéria-prima catarinense também é mais diversificada do que as estatísticas da maricultura sugerem. No litoral sul, o consumo tradicional de mariscos de praia inclui o massambique, também chamado massambeque, associado ao Donax hanleyanus, além do marisco-branco. No litoral centro-norte, os chamados “buzos”, denominação popular utilizada para gastrópodes marinhos consumidos tradicionalmente na região, também deixam suas conchas. Na Baía Babitonga, o bacucu da lama, pertencente ao gênero Mytella e conhecido em outras regiões como sururu, integra a pesca artesanal e a alimentação local. Estudos realizados na própria baía encontraram predominância de Mytella guyanensis nos bancos naturais analisados.
Não há base científica para transformar todos esses fluxos em uma única estimativa estadual. Produção ou captura não correspondem automaticamente à quantidade de conchas descartada, e as estatísticas disponíveis não foram estruturadas para medir esse resíduo. Elas revelam, contudo, que Santa Catarina possui uma diversidade de moluscos consumidos muito maior do que aquela representada pelas estatísticas da maricultura, com resíduos provenientes de cultivos, beneficiamento, restaurantes, mercados e pesca artesanal distribuídos por diferentes regiões do litoral.
O Estado possui também os mercados capazes de receber essa matéria-prima. No Sul catarinense está um dos principais polos brasileiros de revestimentos cerâmicos, ao lado de indústrias de concreto, pavimentação e transformação mineral. Há ainda agricultura, fabricação de móveis e uma cadeia de design que pode explorar aplicações de maior valor agregado. A proximidade entre parte dessas atividades e as áreas produtoras reduz justamente o custo logístico que pode inviabilizar projetos semelhantes em regiões onde a produção está dispersa.
A partir dessa estrutura, diferentes frações podem encontrar diferentes destinos. Conchas adequadas à restauração ambiental podem retornar ao mar; outras podem seguir para agricultura ou alimentação animal; frações de maior volume podem ser utilizadas em pavers, agregados e materiais de construção; material com características estéticas pode compor revestimentos, bancadas e mobiliário; e conchas suficientemente puras podem ser transformadas em carbonato de cálcio para a indústria. A viabilidade de cada caminho dependerá da qualidade do material, do processamento necessário, da distância e do mercado consumidor.
Antes de qualquer investimento industrial, seria necessário conhecer melhor essa matéria-prima. Quanto de cada espécie é gerado? Onde se concentra? Qual o custo de coleta, higienização, secagem e moagem? Como variam umidade e salinidade? Qual granulometria serve para cada aplicação? Quanto custa transportar o material até cada mercado? Essas informações permitiriam comparar tecnologias, definir escalas e verificar, por meio de análises de ciclo de vida, quais usos realmente apresentam vantagem ambiental.
Santa Catarina tem uma combinação pouco comum de matéria-prima e capacidade industrial. A maricultura fornece ostras, mexilhões e vieiras em escala comercial; a pesca artesanal acrescenta berbigões, bacucus, mariscos e outros moluscos; restaurantes e unidades de beneficiamento concentram resíduos; universidades já produziram conhecimento sobre seu aproveitamento; e a indústria dispõe de capacidade para transformar materiais minerais em produtos destinados à construção, à arquitetura e ao design.
A experiência francesa mostra que não é necessário escolher entre alto valor e grande volume. São mercados diferentes, que podem coexistir dentro da mesma cadeia. Uma pequena parcela de conchas pode adquirir alto valor em objetos e produtos de luxo, enquanto quantidades muito maiores podem ser absorvidas por revestimentos, pavimentação, agricultura, construção ou matérias-primas industriais. O que importa é encontrar, para cada fluxo, a aplicação que melhor equilibre valor, custo, logística e impacto ambiental.
Depois de tantos anos acompanhando a maricultura catarinense e, mais recentemente, conhecendo de perto experiências francesas, considero oportuno que esse assunto passe a integrar a discussão sobre o futuro da maricultura no Estado. Agregar valor ao molusco não significa apenas melhorar o produto que chega ao consumidor. Também significa encontrar usos economicamente viáveis para a matéria que permanece depois dele.
