O VOTO PODE SER SECRETO. A POSIÇÃO DO CANDIDATO, NÃO

Foi a deputada federal Júlia Zanatta quem trouxe para o centro da campanha eleitoral catarinense uma questão que poderia facilmente passar despercebida: candidatos que integram a aliança estadual liderada pelo PL estavam distribuindo colinhas nas quais os campos destinados às demais candidaturas majoritárias permaneciam em branco. O caso de Paulinha, candidata do Podemos a deputada federal e presidente estadual do partido, tornou-se o mais conhecido, mas a cobrança de Júlia alcança todos os candidatos que integram esse campo político, inclusive os do próprio PL.

Em material de Paulinha apresentado por Júlia, apareciam o nome e o número da candidata e os de Jorginho Mello, enquanto permaneciam vazios os espaços destinados à Presidência e ao Senado. Júlia também informou ter encontrado material em que nem sequer o campo destinado ao governador estava preenchido. Foi a partir daí que cobrou publicamente uma manifestação de Paulinha sobre suas escolhas para as demais disputas majoritárias.

Paulinha respondeu que “as escolhas do Podemos não são de competência de nenhum filiado de nenhum outro partido” e completou: “Dos partidos de vocês, cuidem vocês. Do nosso, cuidamos nós”. Explicou que o Podemos apoia Jorginho Mello em Santa Catarina, mas permanece neutro na eleição presidencial, seguindo a orientação nacional da legenda. A resposta tratou da posição do partido, mas não revelou em quem a própria candidata pretende votar para presidente e para o Senado.

Foi então que Júlia voltou à carga. A deputada não questionou a autonomia partidária do Podemos nem exigiu que Paulinha adotasse a posição do PL. O que Júlia cobrou foi que a própria candidata dissesse ao eleitor em quem pretende votar nas disputas majoritárias. Se Paulinha apoia Jorginho Mello para governador, mas pretende votar em outro candidato para presidente ou para o Senado, deve deixar isso claro. O eleitor que pretende votar nela por considerá-la integrante da aliança com o PL pode perfeitamente mudar de decisão ao descobrir que suas escolhas majoritárias são diferentes. Da mesma forma, quem pensa em votar nela pode querer saber quais candidatos ao Senado e à Presidência ela pretende eleger. A decisão de Paulinha é dela; a decisão de votar em Paulinha é do eleitor.

A questão é de coerência política e de transparência diante do eleitor.

A cobrança não termina em Paulinha. O mesmo critério precisa ser aplicado aos demais candidatos do Podemos e aos candidatos dos outros partidos que integram a aliança estadual. Vale também, e necessariamente, para os candidatos do próprio PL. Se a exigência é de transparência, ela não pode ser seletiva: todos os candidatos devem deixar claro ao eleitor quais são suas escolhas nas disputas majoritárias.

Foi nesse contexto que outros candidatos, depois de questionados, passaram a atribuir a ausência de nomes a erro de gráfica e anunciaram a substituição do material. Se foi erro, corrige-se. Se foi escolha, assume-se. O eleitor precisa saber se o espaço em branco decorre de uma falha material ou revela uma decisão política.

O que também ficou evidente é que há candidatos dentro da própria aliança — inclusive dentro do PL — mais preocupados em garantir a própria eleição do que em trabalhar para eleger a chapa majoritária que lhes dá sustentação. O raciocínio é eleitoralmente conveniente: se o eleitor que vota no candidato a deputado pode escolher, para governador, senador ou presidente, alguém de fora da composição majoritária, melhor não preencher a colinha com esses nomes e correr o risco de perder votos. Preserva-se o voto proporcional, ainda que isso signifique deixar de contribuir para a eleição dos candidatos majoritários da própria aliança.

É um oportunismo sem vergonha. O candidato se beneficia da força eleitoral da aliança, utiliza a estrutura política comum, apresenta-se ao eleitor como integrante daquele campo e, na hora em que deveria ajudar a eleger a chapa majoritária, prefere manter abertas todas as portas.

Nas eleições proporcionais, é perfeitamente legítimo que não exista dobradinha. Um candidato a deputado estadual pode não ter parceiro federal, e um candidato a deputado federal pode não ter parceiro estadual. O campo correspondente pode ficar vazio. O problema surge quando a ausência dos nomes majoritários passa a funcionar como proteção eleitoral.

De um lado, o candidato pode temer perder o voto daquele eleitor que pretende votar nele para deputado, mas discorda do candidato majoritário que ele apoia. De outro, pode querer evitar que o eleitor que votaria nele justamente por estar na mesma aliança descubra que, para governador, senador ou presidente, sua preferência é por candidatos de fora da chapa. No primeiro caso, esconde-se a escolha majoritária para não perder o voto proporcional; no segundo, esconde-se a escolha majoritária para não perder o eleitor que espera coerência com a aliança. Nos dois casos, a ausência da informação interessa ao candidato, não ao eleitor.

É justamente aí que o caso de Paulinha assume outra dimensão. O eleitor que pretende votar nela por identificá-la com a aliança de Jorginho Mello pode querer saber se, na Presidência, ela está com Flávio Bolsonaro, Lula, Caiado ou outro candidato. Pode querer saber também se, para o Senado, pretende votar em Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni ou em outros nomes. Ao descobrir uma posição diferente daquela que imaginava, esse eleitor pode simplesmente decidir não votar em Paulinha.

A mesma lógica vale para os candidatos do PL. Se algum deles pretende receber votos de um eleitor que considera indispensável votar nos candidatos majoritários da legenda, mas não pretende apoiar a chapa, deveria assumir essa posição. O eleitor pode aceitar ou rejeitar. O que não deveria acontecer é o candidato tentar preservar simultaneamente todos os eleitorados possíveis omitindo suas escolhas.

A cobrança ganha ainda mais peso porque a disputa pelo Senado é parte central da composição política da direita catarinense. Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni são os candidatos do PL, e Flávio Bolsonaro defendeu publicamente o voto nos dois. Quando a liderança do grupo apresenta uma orientação definida e os espaços correspondentes permanecem em branco nas colinhas de candidatos aliados, a ausência deixa de ser politicamente neutra.

O episódio envolvendo Paulinha e Caroline de Toni acrescentou outro ingrediente. As duas apareceram em vídeo segurando a colinha sem o nome de Flávio Bolsonaro. A publicação foi posteriormente retirada, mas o material já havia circulado e provocou nova reação de Júlia, que passou a cobrar também uma manifestação de Caroline. A questão, portanto, alcançou o interior do próprio PL.

É nesse ponto que a cobrança de Júlia ganha coerência. A mesma régua precisa valer para todos. Se um candidato do Podemos pretende apoiar Jorginho e votar em outro candidato para presidente, que diga isso. Se prefere determinado candidato ao Senado, que diga. Se um candidato do PL não pretende votar em algum dos nomes apresentados pela própria legenda, que assuma sua escolha. A divergência é legítima; esconder a divergência para preservar votos de diferentes lados é outra coisa.

A reação contra Júlia foi chamá-la de radical e de histérica. Em política, entretanto, exigir clareza parece ter se tornado atitude extrema. A deputada não está exigindo unanimidade, mas que cada candidato assuma publicamente as escolhas que fará nas disputas majoritárias.

O eleitor pode aceitar que partidos façam alianças diferentes em cada nível da eleição. Pode aceitar que um candidato discorde de seu partido. Pode aceitar que Paulinha apoie Jorginho e vote em outro candidato para presidente ou para o Senado. Pode até preferir esse posicionamento. O que ele precisa é conhecê-lo antes de votar.

Talvez seja justamente por isso que a intervenção de Júlia tenha incomodado tanto. Em um ambiente de alianças flexíveis e identidades políticas cada vez mais negociadas, a coerência tornou-se rara. Pedir que o candidato diga com quem está passou a ser visto como excesso.

Não é.

É transparência.

O voto do eleitor é secreto e o partido pode até ser neutro. A posição de quem pede o voto, não.

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