O EFEITO MELONI

Giorgia Meloni está prestes a entrar para a história da República Italiana por um motivo que diz muito sobre a transformação política do país. Em 4 de setembro, ao superar os 1.412 dias do segundo governo de Silvio Berlusconi, ela se tornará a primeira-ministra que permaneceu por mais tempo consecutivamente no Palazzo Chigi desde a fundação da República. O número, por si só, é expressivo em um país cuja história política recente foi marcada por governos de curta duração, coalizões instáveis e sucessivas mudanças de primeiro-ministro. Mais significativo ainda é o fato de Meloni ter chegado ao poder em 2022 como líder de uma direita que durante décadas ocupou posição marginal no sistema político italiano e, desde então, ter conseguido preservar sua maioria, atravessar crises internas e externas e transformar sua permanência em estabilidade.
Às vésperas do recorde, Meloni concedeu extensa entrevista ao New York Times, que procurou compreender não somente a primeira-ministra, mas a transformação da direita italiana que a levou ao poder. A reportagem recupera sua formação política desde a adolescência e acompanha a trajetória que a conduziu da periferia da direita pós-fascista ao comando de uma das principais economias europeias. Meloni apresenta a coerência como fundamento de sua permanência: afirma que nunca procura dizer aquilo que imagina que os outros desejam ouvir, mas aquilo em que realmente acredita. Sua mensagem política continua assentada em identidade, soberania, família, segurança e orgulho nacional, temas que deixaram de pertencer exclusivamente à direita radical e passaram a ocupar o centro do debate europeu.
O resultado político dessa trajetória não pode ser dissociado de uma percepção mais ampla sobre a Itália atual. Quem percorreu recentemente Roma, Florença, Verona, Milão ou outras cidades italianas encontra um país particularmente aprazível, com centros históricos preservados, espaços públicos movimentados, comércio ativo e forte presença de visitantes estrangeiros. A comparação com França e Espanha depende, naturalmente, da cidade e da experiência de cada viajante, mas a impressão de recuperação italiana não está restrita à percepção individual. Há indicadores que apontam na mesma direção.
Em 2025, a Itália ultrapassou 479 milhões de pernoites turísticos e superou a França nesse indicador. A receita gerada pelo turismo internacional produziu superávit de €22,7 bilhões, enquanto o fluxo de visitantes estrangeiros continuou crescendo. Em 2026, a tendência permanece positiva: no primeiro semestre, as chegadas aumentaram 4,43%, e o índice de satisfação dos turistas alcançou 87,5 pontos em 100. O desempenho das hospedagens também colocou a Itália em posição particularmente favorável diante de seus principais concorrentes europeus. Não se trata de atribuir exclusivamente ao governo Meloni o resultado de uma atividade que depende de fatores econômicos, culturais e geográficos muito mais amplos, mas é difícil ignorar que a melhora da percepção externa coincide com um período de estabilidade política incomum.
A própria economia oferece outros elementos para essa leitura. O déficit público italiano se aproximou do limite de 3% estabelecido pela União Europeia, enquanto a avaliação de risco da dívida melhorou. Depois de anos em que a Itália era frequentemente apresentada como o elo frágil da zona do euro, o país passou a transmitir maior previsibilidade institucional. O crescimento econômico permanece modesto e problemas estruturais, especialmente salários, produtividade, dívida e serviços públicos, continuam longe de resolvidos. A Itália não se transformou repentinamente em potência econômica. O que mudou foi a combinação entre estabilidade política, disciplina fiscal e confiança externa.
É nesse ambiente que deve ser compreendido o chamado efeito Meloni. Sua relação com Donald Trump ganhou importância porque a primeira-ministra italiana foi capaz de manter diálogo com Washington sem abandonar sua inserção europeia. A convergência em temas como imigração, segurança e crítica à cultura woke aproximou os dois governos, mas Meloni procurou preservar uma característica própria: defender os interesses italianos sem transformar a política externa em extensão de alianças pessoais. A Itália tornou-se, assim, interlocutora relevante tanto para a administração americana quanto para seus parceiros europeus.
Há ainda uma dimensão simbólica que ajuda a explicar a força de Meloni. Sua célebre afirmação de ser “mulher, mãe, italiana e cristã” sintetizou uma reação cultural que ultrapassou os limites tradicionais da direita. O que antes poderia ser considerado discurso identitário passou a encontrar espaço crescente em sociedades europeias preocupadas com imigração, segurança, demografia e preservação cultural. Meloni percebeu essa mudança antes de muitos de seus adversários e conseguiu transformá-la em linguagem eleitoral sem abandonar a institucionalidade do cargo que ocupa.
O recorde de setembro, portanto, é mais do que uma marca cronológica. Ele representa a consolidação de uma liderança que chegou ao poder despertando receios dentro e fora da Itália e que, quatro anos depois, tornou-se parte central do equilíbrio político europeu. A Itália que Meloni governa continua carregando seus velhos problemas, mas apresenta também sinais de confiança renovada. Para quem acaba de atravessar suas cidades, essa mudança pode ser percebida antes mesmo de aparecer nas estatísticas. E quando a percepção das ruas encontra números favoráveis no turismo, na estabilidade e na confiança internacional, fica mais difícil tratar a transformação como simples impressão.
Meloni está prestes a bater o recorde de permanência no governo. Mais importante, está prestes a deixar de ser apenas a mulher que chegou ao Palazzo Chigi contra todas as expectativas para se tornar a líder que demonstrou ser capaz de permanecer nele. Na política italiana, onde permanecer sempre foi quase tão difícil quanto chegar, essa diferença é histórica.
