Idade para Dizer Não!
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

A preocupação com a ecologia começava a criar corpo no Brasil. Um secretário de governo inventou nova moda: transformar cidadãos comuns em “fiscais da natureza”. Com direito a carteirinha oficial, expedida pelo órgão ambiental. Em poucos meses, havia centenas de fiscais voluntários com olhos vigilantes espiando e denunciando as mais diversas transgressões – reais e imaginárias.
Pouco preparados para o novo ofício e para o exercício do poder, seus excessos logo se transformaram num problema, fugindo ao controle do bom senso. Tudo era pretexto para denúncia: de invasões a áreas protegidas por lei a brigas de vizinhos por limites de cercas.
O governo tinha um novo dilema: limitar a concessão de novas carteiras de fiscais voluntários.
Um partidário do governador aproveita um contato informal, no decorrer de evento festivo, para encaminhar pedido verbal: também queria ser fiscal da natureza. Pedido negado, sem maiores explicações. E aceito, sem insistência.
Tempos depois, outro correligionário faz pedido idêntico, novamente durante evento informal, ao secretário do meio ambiente, na presença do governador. Seguindo o exemplo do chefe, o secretário nega o pedido. Para surpresa do grupo, a reação não é passiva. O correligionário inconformado esbraveja, reclama, diz-se discriminado, injustiçado.
Passado o mal-estar, o governador chama a atenção do subordinado.
– Não estou entendendo – argumenta o secretário. – Segui seu exemplo…
– A essência está correta, a forma não – corrige o governador. – Quantos anos você tem? Quarenta? Quarenta e cinco? Você poderia ter dito que precisava de tempo para estudar o caso, mostrar-se interessado no assunto, para só depois negar o pedido. O cidadão – percebendo seu interesse – acabaria aceitando o fato. Pessoas com sessenta anos ou mais – como eu – têm o direito de dizer não, sem maiores explicações. Esse é um privilégio da idade…
História presenciada pelo autor.
