Na alta gastronomia, reputação nunca foi um detalhe. Muito antes das redes sociais, grandes restaurantes construíam seu prestígio pela recomendação dos clientes, pela crítica especializada e pelo reconhecimento de quem conhecia o ofício. O ambiente digital apenas ampliou esse fenômeno. O marketing passou a chamá-lo de earned media, a mídia espontânea: a visibilidade conquistada quando alguém decide compartilhar uma experiência por iniciativa própria, sem publicidade contratada nem qualquer obrigação comercial. Em um universo onde consumidores são expostos diariamente a milhares de mensagens comerciais, poucas formas de comunicação preservam tanta credibilidade quanto a recomendação espontânea.

Foi nesse contexto que o Nakaixa Sushi, em Florianópolis, conquistou uma projeção incomum. No sábado, 1º de agosto, Romário esteve no restaurante para uma noite de omakase ao lado do DJ Anão e amigos. Depois da visita, publicou em seu perfil no Instagram uma selfie registrada no local, marcou a localização do Nakaixa e expôs o restaurante aos cerca de 5,6 milhões de seguidores que o acompanham no Brasil e no exterior. Sua trajetória no futebol faz com que essa audiência ultrapasse o universo dos torcedores e alcance empresários, executivos, atletas, dirigentes esportivos, jornalistas, artistas e admiradores espalhados por diferentes continentes.

A importância da publicação também está na marcação da localização do Nakaixa. É natural que seguidores de figuras públicas procurem saber onde elas estiveram. Ao clicar na localização marcada por Romário, o usuário chega imediatamente ao conjunto de publicações feitas naquele endereço e, a partir delas, ao perfil do restaurante. Para uma casa que construiu sua clientela sem publicidade paga, esse recurso amplia significativamente as possibilidades de descoberta por um público que talvez jamais chegasse ao Nakaixa por outros caminhos.

Sua presença nas redes sociais é consequência de uma trajetória que começou muito antes da internet. Revelado pelo Vasco da Gama, Romário transformou-se em ídolo no PSV Eindhoven, alcançou reconhecimento mundial no Barcelona e ainda vestiu as camisas de Flamengo, Valencia, Fluminense, Al Sadd, Miami FC, Adelaide United e America-RJ, além do retorno ao Vasco. Campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1994 e eleito pela FIFA o melhor jogador do mundo naquele mesmo ano, tornou-se um dos maiores atacantes da história do futebol e, posteriormente, senador da República.

Segundo relato do chef Mateus Proença, ao final da noite Romário comentou que o Nakaixa havia “ganhado um cliente”.

Também chama atenção a trajetória do próprio Nakaixa. Praticamente escondido em uma rua sem saída no bairro Santa Mônica, distante dos polos gastronômicos e do circuito turístico de Florianópolis, o restaurante jamais contou com localização privilegiada para conquistar público. Mantém presença nas redes sociais, mas nunca estruturou seu crescimento em anúncios pagos ou publicações impulsionadas. A clientela foi sendo formada pela experiência oferecida à mesa e pelo boca a boca, que continua sendo uma das formas mais eficientes de construir reputação na alta gastronomia.

Criado inicialmente como delivery, o Nakaixa transformou-se em uma casa especializada em omakase sob o comando do chef Mateus Proença. Ao longo dessa evolução, consolidou uma proposta que contraria boa parte da adaptação brasileira da culinária japonesa. Ingredientes como salmão e cream cheese deixaram de fazer parte do cardápio para dar lugar a uma cozinha baseada na sazonalidade, na técnica tradicional do sushi e na valorização dos pescados catarinenses.

A decisão exigiu mais do que conhecimento técnico. Exigiu disposição para contrariar um padrão consolidado no mercado brasileiro. Durante décadas, boa parte dos consumidores passou a associar sushi quase exclusivamente ao salmão, aos hot rolls e às combinações com cream cheese. O Nakaixa optou por outro caminho. Em vez de adaptar sua cozinha ao gosto predominante, passou a formar um público disposto a descobrir novas espécies de peixes, diferentes texturas, cortes e maturações, devolvendo ao omakase sua essência: a confiança no chef e na qualidade da matéria-prima disponível naquele dia.

Ao longo dos anos, formou-se uma clientela que passou a procurar justamente aquilo que diferencia o Nakaixa da maior parte dos restaurantes japoneses brasileiros. Muitos frequentadores chegaram estranhando a ausência do salmão. Com o tempo, compreenderam que a proposta da casa não era substituir um peixe por outro, mas romper com a padronização que se consolidou na culinária japonesa brasileira. O que inicialmente parecia uma ausência acabou transformando-se em um dos principais símbolos de sua identidade.

A proposta do Nakaixa passou a chamar a atenção de quem conhece a gastronomia japonesa. Ian Oliver, crítico gastronômico de O Globo e criador de O Crítico Antigourmet, recomendou o restaurante em mais de uma oportunidade. Em Santa Catarina, Cacau Menezes publicou diversas notas sobre a casa em sua tradicional coluna diária no ND, a de maior audiência do Estado. O restaurante conquistou ainda respeito entre chefs de tradicionais restaurantes japoneses do eixo Rio–São Paulo e entre integrantes da comunidade japonesa no Brasil, reconhecimento pouco comum para uma casa fora dos grandes polos gastronômicos do país.

O reconhecimento alcançou também o exterior. Entre os profissionais que passaram pelo balcão do Nakaixa está o chef português Rodrigo Castelo, do restaurante Ó Balcão, em Santarém, distinguido com uma estrela Michelin e uma Estrela Verde Michelin. Assim como Rodrigo Castelo construiu sua reputação valorizando os peixes de rio e os produtos do Ribatejo, Mateus Proença consolidou o Nakaixa tendo os pescados catarinenses como eixo de sua cozinha. Outro chef português que conheceu o restaurante foi Nuno Nobre.

A presença de Romário no Nakaixa também teve sua própria história. A sugestão para que o DJ Anão o levasse ao restaurante partiu deste colunista. Ao final da noite, segundo relato do chef Mateus Proença, Romário comentou que o Nakaixa havia “ganhado um cliente”.

Foi essa sequência de acontecimentos que culminou na publicação feita por Romário. Ela não surgiu de uma ação promocional, de uma parceria comercial ou de uma estratégia de marketing, mas da experiência vivida naquela noite. Em um perfil onde restaurantes quase nunca aparecem entre as publicações, a decisão de incluir o Nakaixa em seu feed conferiu ao restaurante uma exposição de alcance internacional diante de milhões de seguidores.

O episódio representa mais um capítulo de uma história construída de forma pouco comum. Um restaurante instalado discretamente em uma rua sem saída de Florianópolis conquistou primeiro seus clientes, depois o respeito da crítica gastronômica, da imprensa, de chefs brasileiros e estrangeiros e da comunidade japonesa. A publicação de Romário apenas ampliou a visibilidade de um trabalho que já havia consolidado sua reputação, confirmando que, na alta gastronomia, o reconhecimento mais valioso continua sendo aquele que nasce espontaneamente da experiência de quem se senta à mesa.

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