Perspectiva Política
A defasagem na representação de Santa Catarina expõe um desequilíbrio federativo, a escolha dos candidatos a vice revela a matemática das campanhas presidenciais e as alianças municipais mostram que o pragmatismo partidário costuma ser maior do que a fidelidade ideológica exigida dos eleitores.
Um ajuste necessário
A representação deveria acompanhar a população

A Câmara dos Deputados representa a população brasileira.
Por essa razão, a Constituição determina que o número de deputados federais de cada estado e do Distrito Federal seja proporcional à sua população, respeitando o mínimo de oito e o máximo de setenta representantes por unidade da Federação.
O princípio parece simples: estados mais populosos devem possuir bancadas maiores, enquanto aqueles com menor população terão representações menores, preservados os limites constitucionais.
Na prática, entretanto, a distribuição das cadeiras permaneceu durante décadas sem acompanhar adequadamente as mudanças demográficas do país. Enquanto algumas unidades da Federação cresceram acima da média nacional, outras perderam participação relativa na população, sem que isso produzisse a correspondente atualização na composição da Câmara.
O resultado é uma distorção que afeta a igualdade da representação popular.
Santa Catarina cresceu, mas a bancada permaneceu igual
Santa Catarina é um dos exemplos mais evidentes dessa defasagem.
O estado possui atualmente 16 deputados federais. Entretanto, seu crescimento populacional nas últimas décadas, impulsionado também por intensos movimentos migratórios, elevou de maneira significativa sua participação na população brasileira.
O Censo de 2022 registrou aproximadamente 7,6 milhões de habitantes em Santa Catarina e um crescimento de 21,8% em relação a 2010, muito superior à média nacional. Pelos cálculos utilizados nas propostas de redistribuição, o estado passaria das atuais 16 para 20 cadeiras na Câmara dos Deputados.
Não se trata de conceder um privilégio a Santa Catarina. Trata-se de reconhecer que o número de cidadãos representados por sua bancada aumentou de forma substancial, enquanto a quantidade de parlamentares permaneceu inalterada.
Quando a população cresce e a representação não acompanha esse movimento, cada deputado passa a representar proporcionalmente um número maior de pessoas do que parlamentares eleitos por outros estados.
Uma solução politicamente difícil
A correção, entretanto, produz um problema político.
Se o número total de deputados permanecer limitado aos atuais 513, o aumento das bancadas dos estados que mais cresceram necessariamente exigirá a redução da representação daqueles que perderam participação relativa na população nacional.
Foi justamente para evitar essa perda de cadeiras que o Congresso aprovou uma proposta aumentando de 513 para 531 o número de deputados federais. Pelo texto, Santa Catarina e Pará receberiam quatro novas vagas cada, enquanto outros estados também ampliariam suas bancadas. Nenhuma unidade da Federação perderia representantes.
A solução, porém, abriu outro debate legítimo: a ampliação da Câmara e seus possíveis impactos sobre os gastos públicos.
O projeto foi integralmente vetado pela Presidência da República. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal decidiu preservar para as eleições de 2026 a mesma distribuição de cadeiras utilizada no pleito anterior.
Com isso, a distorção permanece.
A dificuldade não elimina o direito
É compreensível que estados resistam à perda de representantes. Também é legítimo que a sociedade questione qualquer proposta de ampliação da estrutura política e de aumento das despesas públicas.
Mas a dificuldade de encontrar uma solução não pode servir como justificativa permanente para manter uma representação desatualizada.
O Supremo Tribunal Federal já reconheceu a omissão do Congresso e determinou a edição de uma lei complementar para revisar a distribuição das vagas de acordo com a população de cada unidade da Federação. A Constituição não estabelece que essa atualização deva ocorrer apenas quando houver consenso entre os estados beneficiados e aqueles que perderiam cadeiras.
A questão precisa ser enfrentada com transparência.
Ou o país redistribui as cadeiras existentes, fazendo com que alguns estados ganhem e outros percam representantes, ou encontra uma fórmula constitucional e financeiramente responsável para ampliar o total de vagas.
O que não parece razoável é conservar indefinidamente uma composição que já não corresponde à realidade demográfica brasileira.
A representação popular não pode permanecer congelada enquanto a população muda. Corrigir essa defasagem não é uma concessão aos estados que cresceram. É o cumprimento de um princípio básico da democracia: cidadãos devem possuir peso político equivalente, independentemente da unidade da Federação em que vivem.
Estratégia também decide eleições
Nenhuma chapa é construída por acaso
As eleições presidenciais costumam ser apresentadas como um confronto entre candidatos, partidos e propostas. Tudo isso realmente importa. Mas existe um componente que frequentemente passa despercebido pelo eleitor: a estratégia.
A formação de uma chapa presidencial raramente é fruto apenas de afinidades pessoais ou partidárias. A escolha do vice costuma resultar de uma análise cuidadosa sobre onde a candidatura já é forte, onde enfrenta dificuldades e quais alianças podem ampliar sua competitividade.
Em política, poucas decisões são tão estratégicas quanto essa.
Quando a lógica supera as preferências
A história recente oferece exemplos bastante claros.
Nos seus dois primeiros mandatos, Luiz Inácio Lula da Silva escolheu José Alencar para a Vice-Presidência da República. Além de representar Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, Alencar agregava credibilidade junto ao setor empresarial e ajudava a ampliar o diálogo da candidatura com segmentos nos quais o PT encontrava maior resistência.
Anos depois, em seu terceiro mandato, Lula repetiu a lógica ao escolher Geraldo Alckmin. Ex-governador de São Paulo, maior colégio eleitoral brasileiro, Alckmin agregava experiência administrativa, fortalecia a interlocução com o centro político e ampliava a presença da chapa em uma região historicamente mais desafiadora para o partido.
As circunstâncias eram diferentes, mas o princípio permaneceu o mesmo: utilizar a composição da chapa para reduzir vulnerabilidades e ampliar seu alcance eleitoral.
A mesma lógica tende a orientar 2026
Se a disputa presidencial realmente caminhar para uma polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, é natural que essa mesma lógica estratégica também influencie as decisões da candidatura da oposição.
Assim como Lula buscou, em diferentes momentos, fortalecer pontos em que sua candidatura apresentava maiores desafios, a tendência é que Flávio Bolsonaro também procure uma composição capaz de reduzir vulnerabilidades de natureza regional, política e demográfica.
Nesse contexto, estados como Minas Gerais e Bahia, dois dos cinco maiores colégios eleitorais do país, surgem naturalmente como espaços de grande interesse estratégico, justamente por serem regiões onde o adversário historicamente apresenta bom desempenho.
Ao mesmo tempo, outras alternativas podem ganhar força dependendo das alianças partidárias e dos acordos regionais. Pernambuco, por exemplo, também pode assumir relevância caso uma composição local represente ganhos políticos mais expressivos.
Outro aspecto que inevitavelmente entra nessa análise é o perfil do eleitorado. Pesquisas divulgadas ao longo dos últimos meses indicam que o público feminino representa um dos principais desafios para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Por isso, não surpreende que parte das especulações políticas considere a possibilidade de uma mulher integrar a chapa presidencial, buscando ampliar o diálogo com esse segmento.
Naturalmente, a decisão final envolverá muitos outros fatores, como capacidade política, histórico público, desenvoltura, identificação com diferentes setores da sociedade e os acordos nacionais entre os partidos.
A política também é construção de maiorias
O eleitor costuma analisar programas de governo, discursos e posicionamentos dos candidatos.
As campanhas, porém, fazem outro tipo de cálculo.
Elas observam o mapa eleitoral, identificam onde possuem maior densidade de votos, avaliam onde enfrentam maior resistência e procuram construir alianças capazes de ampliar seu alcance junto à sociedade.
Nem sempre essa estratégia produz o resultado esperado. Mas dificilmente uma candidatura competitiva deixa de utilizá-la.
A escolha do vice-presidente raramente acontece por acaso. Ela costuma refletir uma combinação de geografia eleitoral, perfil do eleitorado, capacidade de articulação política e construção de maiorias.
Na política, convicções ajudam a construir uma candidatura. Estratégia é o que muitas vezes permite transformá-la em maioria eleitoral.
Mais ideológicos nas urnas do que nos gabinetes
A polarização que mobiliza o eleitor
O Brasil vive uma polarização política intensa.
No debate nacional, especialmente nas eleições presidenciais, grande parte da disputa passou a ser organizada em torno de dois campos: o lulismo e o bolsonarismo. Para muitos eleitores, essa divisão ultrapassou a simples escolha entre candidatos e passou a representar valores, visões de país e até formas distintas de interpretar a sociedade.
Essa identificação produz militância, discussões familiares, rompimentos de amizades e confrontos permanentes nas redes sociais.
Enquanto uma parcela da população trata a posição política como uma convicção praticamente inegociável, partidos e lideranças demonstram uma flexibilidade muito maior quando a disputa deixa o cenário presidencial e chega aos estados e municípios.
A distância entre o discurso nacional e a prática local
Nas eleições para presidente da República, PT e PL representam atualmente os polos mais visíveis da política brasileira.
Nos municípios, porém, essa separação nem sempre resiste aos interesses locais.
Nas eleições de 2024, coligações que reuniam simultaneamente PT e PL ajudaram a eleger prefeitos em 49 municípios ainda no primeiro turno. Em determinadas cidades, os partidos associados nacionalmente a Lula e a Jair Bolsonaro integraram a mesma aliança em torno de um candidato considerado eleitoralmente viável.
O dado não representa uma irregularidade. As regras eleitorais permitem que os partidos construam coligações diferentes para as disputas municipais, levando em consideração as circunstâncias políticas de cada cidade.
Mas o fenômeno revela algo importante: a distância entre a rigidez do discurso nacional e o pragmatismo praticado nos bastidores da política local.
Quando o objetivo comum é o poder
Partidos costumam justificar essas composições afirmando que as realidades municipais são diferentes, que as questões locais superam as divergências nacionais e que determinadas alianças são necessárias para garantir governabilidade.
Em muitos casos, essa explicação pode ter fundamento. Um município possui problemas específicos, lideranças próprias e relações políticas construídas durante décadas, nem sempre reproduzindo a divisão observada no plano nacional.
Entretanto, seria ingenuidade desconsiderar que o interesse eleitoral também exerce forte influência.
Quando existe a possibilidade concreta de conquistar uma prefeitura, participar de um governo ou derrotar um adversário local, diferenças apresentadas ao eleitor como aparentemente inconciliáveis podem ser rapidamente relativizadas.
O antagonismo que mobiliza militantes nas redes sociais frequentemente perde intensidade quando as negociações ocorrem dentro dos gabinetes.
O eleitor nem sempre acompanha a negociação
É muito mais fácil para dirigentes partidários fecharem um acordo do que convencerem seus eleitores de que o adversário de ontem se tornou o aliado de hoje.
O cidadão que passou anos defendendo uma legenda, combatendo o partido adversário e acreditando que aquela divergência representava uma escolha fundamental para o país pode receber com perplexidade uma aliança local entre os mesmos grupos.
Isso ajuda a explicar por que determinadas composições, embora aprovadas pelas direções partidárias, enfrentam resistência nas bases e precisam ser apresentadas como exceções justificadas pelas circunstâncias municipais.
A política exige diálogo, negociação e capacidade de construir maiorias. O pragmatismo faz parte da democracia e, em determinadas situações, pode inclusive contribuir para superar radicalismos.
Mas os partidos precisam compreender que não podem exigir fidelidade absoluta de seus eleitores enquanto tratam suas próprias convicções como instrumentos negociáveis conforme a conveniência de cada disputa.
Na política brasileira, muitas vezes o eleitor leva a ideologia para as ruas enquanto os partidos levam o pragmatismo para os gabinetes. O desafio está em explicar por que aquilo que parece impossível no discurso nacional se torna perfeitamente aceitável quando o poder local está em jogo.
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