Sua história é tão poderosa que causa algum espanto não ter dado origem, até hoje, a uma biografia de maior fôlego ou inspirado uma grande produção cinematográfica, ou mesmo uma série, a qual tenho certeza teria enorme sucesso. Há nela guerra, aventura, coragem, amor, generosidade e redenção, tendo o vinho como fio condutor de uma trajetória em que a realidade parece ter sido escrita com os recursos da ficção. Através da vida de um único homem, é possível percorrer parte da história da França, da Borgonha e do próprio vinho.

Nosso personagem, um dos grandes nomes do vinho da Borgonha no século XX, herdou a Maison fundada por seu pai em Beaune. Oficial francês condecorado por bravura na Primeira Guerra Mundial, integrou a Resistência durante a ocupação nazista e protagonizou uma extraordinária fuga pelos subterrâneos da cidade na Segunda Guerra. Mas não foram propriamente o vigneron (vinhateiro), o militar ou o resistente que mais me interessaram quando reencontrei sua história. Foi o homem e a curiosa maneira como algumas escolhas feitas ao longo de sua vida, sem qualquer expectativa de recompensa futura, acabaram produzindo consequências que ele jamais poderia ter previsto.

Antes de mergulhar em sua história, faço um pequeno esclarecimento sobre o livro que me levou até ele. Em 9 de agosto de 2003, comprei na Livraria Siciliano do Beiramar Shopping, em Florianópolis, um exemplar de Vinho & Guerra: os franceses, os nazistas e a batalha pelo maior tesouro da França (Wine and War: The French, the Nazis, and the Battle for France’s Greatest Treasure), de Don e Petie Kladstrup. A data da compra permanece registrada numa pequena etiqueta da própria Siciliano, presa ao exemplar contendo dados para facilitar eventual troca.

Vinte e três anos depois, quando a própria rede Siciliano já havia desaparecido, aquela etiqueta acabou cumprindo uma função imprevista. Eu guardava alguma lembrança de que poderia ter comprado o livro para presentear meu pai e, ao constatar, graças à data nela registrada, que a compra havia ocorrido na véspera do Dia dos Pais daquele ano, tive a confirmação.

Após a leitura de meu pai, tive a oportunidade de lê-lo pela primeira vez, aos 33 anos. Agora, aos 56, estou lendo-o novamente, na expectativa de tirar dele maior proveito, com um olhar mais experiente e um repertório mais amplo e profundo, como sói acontecer nas releituras após grandes intervalos da vida.

E nessa segunda leitura reencontrei Maurice Drouhin.

Dessa vez, a passagem do livro dedicada a ele despertou uma curiosidade que não me recordo de ter tido na primeira leitura. Há aspectos de sua trajetória sobre os quais quis saber mais e lacunas que me levaram a procurar respostas para além da narrativa dos Kladstrup. Meu real interesse pelo vinho é muito recente e certamente isso contribuiu para que encontrasse agora aspectos que antes haviam me escapado.

Tenho plena consciência de que ainda sei muito pouco sobre esse vastíssimo universo. Porém, é fato que, nos últimos tempos, passei a estudá-lo com maior profundidade e a bebê-lo de forma mais atenta, o que também mudou meu olhar sobre as histórias que cercam o vinho, seus produtores e os lugares onde ele é feito.

Comecei então a seguir alguns fios da trajetória de Maurice e, a cada resposta encontrada, novas perguntas surgiam. Hoje há uma quantidade incomparavelmente maior de material disponível na internet, à qual se soma o uso auxiliar de ferramentas de inteligência artificial, facilitando enormemente a tarefa de quem já é naturalmente curioso e dificilmente se dá por satisfeito enquanto não encontra respostas que considere críveis.

Em meio à pesquisa, descobri que Maurice tinha 56 anos quando, em 1944, precisou fugir dos alemães em Beaune, exatamente a idade que tenho hoje. Essa coincidência me levou inevitavelmente a me colocar em seu lugar. Ele, homem maduro, à frente dos negócios construídos por seu pai, com sua família e toda uma vida estabelecida naquela cidade, viu-se de uma hora para outra obrigado a interromper o cotidiano, escapar pelas caves da própria Maison e buscar refúgio nos Hospices de Beaune, que, apesar da semelhança da palavra, nada têm a ver com o que em português chamamos de hospício e cuja natureza será explicada mais adiante neste artigo.

Imaginei-me, na mesma idade, subitamente obrigado a afastar-me da família, do trabalho e de tudo aquilo que compõe minha rotina para me esconder do inimigo, sem saber se seria descoberto, novamente preso ou quando poderia retomar a vida normal. Colocar-me por alguns instantes em sua posição, quando o desfecho ainda não estava escrito, tornou mais concreta para mim a dimensão humana daquela fuga.

Don e Petie Kladstrup tinham credenciais especialmente adequadas para encontrar histórias como essa. Ambos vieram do jornalismo americano. Don construiu carreira como correspondente de televisão e recebeu três prêmios Emmy, enquanto Petie trabalhou no jornalismo escrito e se especializou em temas ligados à França, país onde o casal passou a viver.

Wine and War, publicado originalmente em 2001, não seria uma incursão isolada nesse território. Quatro anos depois, eles lançariam Champagne: How the World’s Most Glamorous Wine Triumphed over War and Hard Times e, em 2021, Champagne Charlie: The Frenchman Who Taught Americans to Love Champagne, sobre Charles Heidsieck. Há um fio bastante claro em sua obra: a partir do vinho, os Kladstrup encontram pessoas e histórias que ajudam a compreender seu tempo, transformando aquilo que poderia ser apenas literatura sobre vinho em narrativa sobre a própria condição humana.

Vinho & Guerra tem grande força narrativa, recupera memórias familiares e apresenta personagens extraordinários dentro de uma história muito mais ampla sobre o destino do vinho francês durante a ocupação alemã. O livro me apresentou Maurice, mas, nesta releitura, acabou funcionando como ponto de partida para conhecer melhor um homem cuja trajetória se revelaria ainda mais extraordinária à medida que avancei para além de suas páginas.

Maurice Drouhin nasceu em Beaune, em 1888, filho de Joseph Drouhin, fundador, em 1880, da Maison que ainda hoje leva o nome da família. Sua juventude foi atravessada pela Primeira Guerra Mundial, durante a qual serviu como oficial francês. O domínio do inglês e do alemão colocou-o numa posição incomum e o levou a atuar como oficial de ligação junto às forças americanas. Como capitão do Exército francês, serviu junto à 84ª Brigada de Infantaria da 42ª Divisão americana, a célebre Rainbow Division, e recebeu a Distinguished Service Cross dos Estados Unidos por sua atuação durante as operações de outubro de 1918.

É também da Primeira Guerra o episódio que revela de maneira mais clara o aspecto humanista que tanto me chamou a atenção. Durante um combate, um soldado alemão foi atingido e permaneceu ferido entre as posições adversárias. Maurice determinou que seus homens suspendessem o fogo e permitiu que soldados inimigos atravessassem o campo para buscar o companheiro. Segundo o relato preservado pelos Kladstrup, antes de retornarem às próprias linhas, os alemães pararam diante do oficial francês e lhe prestaram continência.

Maurice contou o episódio numa carta enviada à mulher, Pauline, que decidiu encaminhá-la a um jornal. Assim, um fato que poderia ter permanecido restrito aos homens presentes naquele campo de batalha ganhou registro público. Mais de vinte anos depois, quando Maurice foi preso pelos alemães durante a ocupação da França, Pauline lembrou-se daquela carta. Encontrou-a guardada, reuniu-a ao exemplar do jornal que reproduzira a história e entregou ambos ao comandante alemão responsável por sua prisão.

Em 13 de fevereiro de 1942, Maurice foi libertado, sem que jamais lhe fosse apresentada qualquer explicação oficial. Don e Petie Kladstrup observam que a carta e o recorte do jornal certamente contribuíram para esse desfecho, embora muitos em Beaune acreditassem também ter pesado sua amizade com Adolph Segnitz, o Weinführer encarregado da administração do setor vitivinícola na França ocupada. Qual desses fatores foi decisivo nunca se soube. O que permanece extraordinário é a possibilidade de que uma decisão tomada diante de um adversário ferido, em meio à brutalidade de um conflito, tenha atravessado mais de duas décadas para reaparecer quando o próprio Maurice estava à mercê do mesmo exército inimigo.

Terminada a Primeira Guerra, retornou a Beaune e assumiu progressivamente os negócios da família. Sob sua direção, a Maison Joseph Drouhin ampliou seu patrimônio de vinhedos, inclusive com aquisições no Clos des Mouches. Em 1925, Maurice passou também a integrar a comissão administrativa dos Hospices de Beaune e, de 1941 a 1955, seria seu vice-presidente.

É aqui que cabe explicar o que são os Hospices. Sua origem remonta a 1443, quando Nicolas Rolin e Guigone de Salins fundaram o Hôtel-Dieu de Beaune para oferecer assistência hospitalar aos pobres. Ao longo dos séculos, doações sucessivas fizeram da instituição também proprietária de importantes vinhedos, criando uma ligação singular entre assistência, patrimônio e vinho que permanece viva na Borgonha.

Durante a ocupação alemã, Maurice envolveu-se profundamente com a Resistência e acabou preso em agosto de 1941. Nem mesmo o cárcere interrompeu sua atuação. Pauline enviava-lhe livros de Alexandre Dumas e, por meio de um código previamente combinado entre ambos, o casal mantinha uma correspondência clandestina que continha informações destinadas à Resistência, incluindo movimentos de tropas alemãs e instruções para a passagem de pessoas pela Linha de Demarcação. Libertado em fevereiro de 1942, Maurice sabia que continuava sob suspeita. Dois anos depois, em 1944, voltou a ser procurado pelos alemães. Dessa vez, conseguiu escapar. Entrou nas caves da própria Maison e desapareceu no mundo subterrâneo que conhecia por uma vida inteira dedicada ao vinho. Atravessou as galerias sob Beaune até alcançar os Hospices, onde encontrou abrigo. A instituição à qual se dedicava havia quase vinte anos e da qual era então vice-presidente tornava-se, naquele momento, seu refúgio.

As cartas que escreveu a Pauline durante o período em que permaneceu preso revelam também um Maurice profundamente humano. Procurava tranquilizar a esposa, demonstrava preocupação constante com os filhos e com o futuro da Maison, transmitia orientações sobre a colheita e o engarrafamento dos vinhos — entre eles o Romanée-Conti de 1938 — e insistia para que ela mantivesse a serenidade. Ao mesmo tempo em que participava clandestinamente da Resistência, permanecia, tanto quanto lhe era possível, marido, pai e vigneron.

Meu conhecimento sobre o vinho, por sua vez, vem se aprofundando por meio de cursos e degustações com Ian Oliver e Fábio Lobosco. Ian, autor de O Crítico Antigourmet, é formado em Letras pela USP, com pós-graduação em Gastronomia Autoral pela PUCRS, formação em gastronomia pela Le Cordon Bleu e WSET nível 3. Conhecido pela grande repercussão de suas críticas e por um texto brilhante, culto e frequentemente ácido, embora pessoalmente seja de uma tranquilidade absoluta, dedica-se também ao estudo e ao ensino da análise sensorial de vinhos e alimentos.

Lobosco, notável advogado e professor de Direito, integrante do primeiro grupo de graduados a concluir com sucesso no Brasil o curso online do WSET Diploma, é de uma energia impressionante e parece entrar numa espécie de transe quando fala de vinho, percorrendo de memória regiões, produtores, safras e viticultores numa extraordinária riqueza de detalhes.

A esse aprendizado somam-se as conversas com João Lombardo, jornalista, sommelier e profundo conhecedor da enogastronomia, aqui em Florianópolis, e Maurício Mileski, coproprietário da Vinícola Serra do Sol, em Urubici, ambos amigos que o vinho me trouxe, além de Eduardo Araújo, outro grande sommelier brasileiro, e de tantos profissionais que compartilham seu conhecimento e contribuem para a difusão dessa extraordinária cultura. Com todos eles tenho aprendido, seja por meio das conversas, seja pelos cursos, degustações e grandes vinhos, e, com o perdão do clichê socrático, quanto mais conheço sobre esse universo, mais percebo o quanto ainda há por conhecer.

Mas, ao falar daqueles com quem venho aprendendo sobre vinho, não posso deixar de homenagear meu próprio pai, que, muito antes de eu pensar em estudar esse universo ou procurar compreendê-lo com a atenção que hoje lhe dedico, já havia incorporado o vinho naturalmente à nossa mesa e à convivência familiar. Com grande generosidade, sempre pôs vinho à mesa e faz questão de servi-lo em abundância, tanto nas refeições mais simples quanto nas grandes ocasiões. Meu interesse em aprofundar os conhecimentos sobre vinho veio muito mais tarde, mas, graças também ao meu pai, o vinho sempre esteve por perto.

Minha recente viagem pela Itália também contribuiu para essa aproximação. Não foi propriamente uma viagem dedicada a visitar vinícolas, mas acabou sendo, de muitas maneiras, uma viagem em torno do vinho. Ao percorrer parte da Itália central e setentrional, procurei entender o que se produzia em cada região e, a cada garrafa, conhecer sua origem, as uvas, o produtor e as características do que estava bebendo.

Conversar sobre os vinhos nos bares e restaurantes e relacioná-los à comida e ao lugar foi uma forma de compreendê-los dentro de sua própria paisagem e da cultura das pessoas que os produzem e bebem.

A história de Maurice despertou também em mim a vontade de voltar à França e ir a Beaune. As caves pelas quais escapou continuam existindo sob o centro histórico e ligadas à Maison Joseph Drouhin, ainda hoje conduzida pela família. Até onde consigo me recordar, nunca bebi um vinho da Maison, uma lacuna que certamente pretendo corrigir. Beaune passou a representar para mim algo além de um destino vinícola: é um daqueles raros lugares onde vinho, território e história parecem pertencer a uma mesma narrativa.

Há histórias cuja força está menos em cada acontecimento isolado do que na maneira como eles acabam se encontrando. É nesse encadeamento que a trajetória de Maurice encontra em mim uma ressonância particular, ligada à minha formação espírita e à maneira como compreendo o livre-arbítrio e a responsabilidade pelas escolhas que fazemos ao longo da vida. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória, princípio cuja raiz remonta às origens do cristianismo e encontra em Paulo, na Epístola aos Gálatas (6:7), uma de suas formulações mais conhecidas: “aquilo que o homem semear, isso também colherá”.

Não como uma fórmula simplória pela qual cada boa ação recebe automaticamente uma recompensa, muito menos como explicação religiosa que se possa impor à biografia de um homem cujas convicções espirituais desconheço. Maurice fez escolhas altruísticas sem conhecer as consequências que poderiam produzir décadas depois. Não semeou para colher. Simplesmente agiu de acordo com aquilo que as circunstâncias lhe apresentavam e com os valores que parecem ter orientado suas decisões.

O gesto humanitário diante do soldado alemão ferido pode ter contribuído para que sua própria vida fosse poupada muitos anos depois. A dedicação aos Hospices antecedeu, também em quase duas décadas, o momento em que precisaria encontrar abrigo justamente ali. Nada disso poderia ter sido previsto quando aquelas escolhas foram feitas. Mas a história ainda reservaria a Maurice um último gesto, desta vez consciente, de retribuição.

Depois da guerra, em gratidão aos Hospices de Beaune pelo acolhimento que recebera durante a perseguição alemã, Maurice doou à instituição mais de 2,5 hectares de vinhedos classificados como Beaune Premier Cru. Das vinhas doadas nasceu a Cuvée Maurice Drouhin, que perpetua seu nome e integra o patrimônio vinícola dos Hospices, cujos vinhos são destinados ao célebre leilão anual de Beaune. A instituição que um dia lhe ofereceu abrigo recebeu dele, em retribuição, uma parcela de terra que continuaria produzindo muito além de sua vida.

É difícil imaginar uma expressão mais concreta para a ideia de semeadura e colheita em sua própria história. Quando chegou sua vez de agradecer, Maurice retribuiu com aquilo que conhecia melhor: a vinha. A terra que doou continua produzindo e, safra após safra, seu nome permanece num vinho nascido justamente desse gesto.

A Maison Joseph Drouhin, por sua vez, atravessou gerações e permanece nas mãos da família. Conhecer Maurice despertou em mim a curiosidade de mergulhar também nos vinhos hoje produzidos por seus descendentes, expressão contemporânea de uma tradição iniciada por Joseph e consolidada pelo filho.

Essa é, afinal, uma das grandes virtudes da releitura. Voltei a Vinho & Guerra depois de ter me aproximado mais profundamente do universo do vinho e encontrei um livro diferente, não porque suas páginas tivessem mudado, mas porque eu já não era o mesmo leitor. Conhecimentos adquiridos nesse intervalo permitiram que enxergasse aspectos que antes haviam passado despercebidos e, ao mesmo tempo, o próprio livro abriu novas portas para continuar aprendendo.

Maurice Drouhin foi uma delas. E foi assim que uma história que pouco me marcara na primeira leitura acabou, tantos anos depois, despertando em mim o desejo de conhecer melhor o homem, seu legado no vinho e a Borgonha à qual sua vida esteve tão profundamente ligada.

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