Golpe da falsa audiência virtual: o falso advogado agora tem ‘juiz’

O telefone vibra. É o seu advogado no WhatsApp, com foto, nome e o número do seu processo. Ele avisa que há uma audiência urgente marcada para agora, por vídeo, e que o juiz já está esperando. Em poucos minutos você está diante de uma tela com o brasão do Tribunal, uma pessoa de toga e outra que se apresenta como promotor. Tudo parece oficial. Nada é.
Esse é o golpe da falsa audiência virtual, a versão mais sofisticada do já conhecido golpe do falso advogado. Os criminosos deixaram de apenas mandar mensagens pedindo Pix e passaram a encenar uma sessão judicial inteira para convencer a vítima. Apesar dos alertas de tribunais, da OAB e da imprensa, muita gente continua caindo, e vale entender por quê.
Tudo começa com uma pesquisa. Os golpistas consultam processos públicos nos sites dos tribunais e ali encontram o nome das partes, o número da ação, o assunto discutido e o nome do advogado. Com essas informações em mãos, entram em contato pelo WhatsApp usando o nome e a foto do advogado verdadeiro ou do escritório. A conversa gira em torno de uma “audiência de conciliação emergencial” ou de um valor que estaria pronto para ser liberado, como uma indenização aguardada há anos.
Em seguida vem a encenação. A vítima é chamada para uma videochamada em que aparecem logotipos falsificados do Tribunal de Justiça ou da OAB. Comparsas fazem o papel de juiz, promotor ou servidor da Justiça, usam termos jurídicos e falam com a firmeza de quem tem autoridade. Nos casos mais elaborados, os criminosos recorrem à inteligência artificial para imitar rostos e vozes. No meio da suposta audiência surge a exigência: para liberar o dinheiro, é preciso pagar na hora um Pix de “custas”, “taxas” ou “impostos”. Outra tática frequente é pedir que a vítima compartilhe a tela do celular, o que permite aos golpistas enxergar senhas e invadir aplicativos de banco.
Quem cai nesse golpe não é ingênuo. A fraude é desenhada para desligar o senso crítico. Quando o interlocutor cita o número correto do processo e detalhes da causa, a vítima conclui que só alguém de dentro saberia aquilo, sem imaginar que esses dados costumam estar disponíveis para qualquer pessoa. A presença de um “juiz” intimida, e poucos se sentem à vontade para questionar um magistrado no meio de uma audiência, sobretudo quando ele fala em prazos, multas ou perda do direito. Por fim, há a esperança. Quem espera há anos por uma indenização ouve que o dinheiro será liberado agora, desde que pague uma pequena taxa, e a pressa faz o resto. Golpista nenhum quer que você tenha tempo para pensar ou para ligar para alguém.
Por isso, alguns sinais devem acender o alerta imediatamente: um contato vindo de número novo, ainda que com a foto do seu advogado; uma audiência “marcada para agora”, sem aviso prévio; qualquer pedido de Pix, transferência ou boleto para liberar valores do processo, sobretudo para contas de pessoas físicas ou de empresas sem relação com o Judiciário; pedidos para compartilhar a tela, instalar aplicativos ou informar códigos recebidos por SMS; e a pressão para não desligar a chamada nem falar com ninguém antes de pagar.
A regra de ouro é simples: a Justiça não cobra Pix por WhatsApp, e juiz não liga para pedir dinheiro. Custas judiciais, quando existem, são pagas por guias oficiais emitidas pelo próprio tribunal, e o valor de uma indenização é liberado por alvará ou transferência judicial, nunca mediante pagamento antecipado da parte. Diante de qualquer contato estranho, o melhor caminho é encerrar a conversa e ligar para o advogado no número que você já tinha, ou ir pessoalmente ao escritório, jamais usando o telefone ou o link enviado na própria mensagem suspeita. Também ajuda combinar com o advogado uma palavra-código conhecida só pelos dois, consultar o andamento do processo no site oficial do tribunal e verificar a situação do profissional no Cadastro Nacional dos Advogados, disponível no site da OAB. Audiências verdadeiras são comunicadas com antecedência, por intimação e por meio do advogado constituído. Nunca compartilhe a tela do celular com desconhecidos, ative a verificação em duas etapas no WhatsApp e converse com familiares, especialmente os mais velhos, que costumam ser alvo preferencial. E lembre-se de que nenhum direito legítimo desaparece porque você pediu uma hora para confirmar uma informação. Aos advogados, cabe avisar os clientes, por escrito, de que o escritório nunca pede pagamentos por mensagem, e deixar claros quais são os canais oficiais de contato.
Se, apesar de tudo, o golpe acontecer, agir rápido aumenta as chances de recuperar o dinheiro, e não há motivo para vergonha, porque do outro lado estão profissionais do crime. O primeiro passo é ligar imediatamente para o banco e pedir a abertura do MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Pix, que permite tentar bloquear e reaver o valor na conta de destino. Quem compartilhou a tela ou informou senhas deve bloquear os cartões e trocar as senhas do banco, do e-mail e do WhatsApp. Em seguida, é importante registrar boletim de ocorrência, o que em muitos estados pode ser feito pela delegacia online, guardar todas as provas, como prints das conversas, o número usado, os comprovantes de pagamento e eventuais gravações, e avisar o advogado verdadeiro, que poderá comunicar a OAB e o tribunal e ajudar a alertar outros clientes.
O golpe do falso advogado não desapareceu. Ele se profissionalizou e hoje tem roteiro, figurino, cenário e, às vezes, rostos e vozes criados por inteligência artificial. A tecnologia muda, mas a lógica continua a mesma: pressa, autoridade e um pedido de dinheiro. A melhor defesa segue sendo a desconfiança saudável. Diante de qualquer cobrança ligada a processo judicial, pare, desligue e confirme pelos canais que você já conhece. E compartilhe este alerta com quem você ama, porque a informação ainda é a forma mais barata de proteção.
