PERSPECTIVA POLÍTICA

Com as candidaturas definidas, a política catarinense entra oficialmente na campanha enquanto estratégias partidárias e o respeito às regras eleitorais lembram que a democracia se fortalece tanto pelas escolhas do eleitor quanto pelo cumprimento das instituições.

Santa Catarina terá escolhas qualificadas

O quadro está definido

Encerradas as convenções partidárias, os três principais candidatos ao Governo de Santa Catarina estão confirmados para a disputa eleitoral.

Jorginho Mello, João Rodrigues e Gelson Merísio possuem trajetórias diferentes, representam projetos políticos distintos e disputarão o voto dos catarinenses a partir de suas propostas e prioridades.

Há, entretanto, uma característica comum entre eles: os três possuem experiência na vida pública e conhecem a realidade política e administrativa do estado.

Independentemente do resultado das urnas, Santa Catarina terá alternativas com histórico suficiente para que o debate eleitoral seja construído em torno daquilo que realmente importa: propostas, capacidade de gestão e visão de futuro.

Experiência no governo e no Legislativo

Candidato à reeleição, Jorginho Mello construiu uma das trajetórias políticas mais extensas de Santa Catarina.

Foi vereador, deputado estadual, deputado federal e senador antes de assumir o governo estadual em 2023.

No atual mandato, sua administração promoveu investimentos em diferentes regiões do estado, enquanto os índices de aprovação e as pesquisas eleitorais divulgadas até o momento o colocam em posição de destaque na disputa.

Alguns levantamentos apontam, inclusive, a possibilidade de vitória ainda no primeiro turno.

Pesquisa não define eleição, mas demonstra a força política com que o governador inicia a campanha.

Experiência municipal e parlamentar

João Rodrigues também apresenta uma trajetória marcada pela passagem pelos poderes Legislativo e Executivo.

Foi deputado estadual, deputado federal e prefeito de Pinhalzinho. Em Chapecó, exerceu quatro mandatos como prefeito, tornando-se uma das lideranças políticas mais conhecidas do Oeste catarinense.

Sua experiência à frente de administrações municipais oferece ao eleitor elementos concretos para avaliar seu estilo de gestão, suas prioridades e o projeto que pretende apresentar para todo o estado.

Gelson Merísio, por sua vez, foi vereador, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Também exerceu interinamente o governo estadual e disputou o segundo turno da eleição para governador em 2018.

Nos últimos anos, afastou-se dos mandatos eletivos e ampliou sua atuação na iniciativa privada, acrescentando à trajetória política uma experiência no ambiente empresarial.

Agora é o momento das propostas

A experiência acumulada pelos três principais candidatos qualifica a disputa, mas não decide o voto.

Ter ocupado cargos públicos é importante. Demonstrar o que se pretende fazer com a responsabilidade de governar Santa Catarina será ainda mais.

A partir de agora, caberá às campanhas apresentar soluções para infraestrutura, saúde, educação, segurança, desenvolvimento econômico, equilíbrio regional e qualidade dos serviços públicos.

Aos eleitores, caberá comparar trajetórias, propostas, alianças e capacidade de execução.

Santa Catarina terá diante de si três candidatos experientes e com trajetória compatível com a responsabilidade de governar o Estado.

Agora, a responsabilidade passa a ser de todos.

Dos candidatos, que deverão apresentar projetos consistentes.

E dos eleitores, que terão a tarefa de analisar essas propostas e decidir qual delas representa o melhor caminho para o futuro de Santa Catarina.


Entre as ruas e os gabinetes

A neutralidade também possui uma estratégia

A política possui duas grandes dimensões. Uma acontece nas ruas, nos discursos, nas convenções e no contato direto com o eleitor. A outra é construída nos gabinetes, onde partidos negociam alianças, calculam riscos e procuram preservar seus espaços de poder.

O Progressistas decidiu manter sua neutralidade na eleição presidencial. A posição já havia sido anunciada anteriormente e foi confirmada mesmo depois de Flávio Bolsonaro afirmar que a senadora Tereza Cristina aceitara integrar sua chapa como candidata a vice-presidente.

A decisão é legítima e faz parte da autonomia partidária. Mas neutralidade política não significa ausência de estratégia.

Ao não aderir oficialmente a nenhum dos principais candidatos, o PP mantém abertas as possibilidades de diálogo com o futuro governo, independentemente do resultado das urnas.

O cálculo também passa pelos estados

As decisões nacionais dos partidos raramente são tomadas sem considerar suas consequências regionais.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, disputará a reeleição no Piauí, estado onde Lula e seus aliados historicamente apresentam forte desempenho eleitoral. Um apoio nacional ostensivo à candidatura de Flávio Bolsonaro poderia aumentar a polarização da disputa local e produzir riscos adicionais para o projeto eleitoral do dirigente partidário.

Não existe confirmação oficial de que essa tenha sido a razão determinante para a neutralidade.

Mas seria pouco realista imaginar que a situação eleitoral do presidente da legenda e os interesses dos diretórios estaduais não tenham participado do cálculo.

Na política, uma decisão nacional quase sempre precisa acomodar diversos projetos regionais.

Uma lógica ainda mais difícil de compreender

Em Minas Gerais, o Republicanos enfrenta uma situação diferente, mas igualmente reveladora.

O senador Cleitinho aparece na liderança das pesquisas para o governo estadual. Mesmo assim, o partido anunciou que ele não será candidato, atribuindo a decisão às indefinições do próprio parlamentar.

A assessoria de Cleitinho, por sua vez, sustenta que sua pré-candidatura continua mantida.

A contradição chama atenção porque o Republicanos governa São Paulo, maior colégio eleitoral do país, e possui possibilidades concretas de permanecer no comando do estado. Conquistar também Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral brasileiro, significaria ampliar de maneira extraordinária o peso político da legenda.

Abrir mão dessa oportunidade, pelo menos na lógica aparente, é uma decisão difícil de compreender.

O que as ruas ainda não conhecem

No caso do PP, é possível identificar interesses nacionais e regionais que ajudam a explicar a neutralidade. No Republicanos, as motivações ainda não estão suficientemente claras para quem acompanha os fatos fora dos espaços de negociação partidária.

Não existem elementos públicos suficientes para afirmar que tenha ocorrido algum acordo oculto ou uma composição mais ampla. Mas decisões dessa dimensão dificilmente são tomadas sem considerar alianças, candidaturas nacionais, apoios cruzados e projetos futuros.

É justamente nessa diferença que aparecem as duas faces da política.

Nas ruas, partidos apresentam discursos, candidatos e identidades ideológicas.

Nos gabinetes, calculam riscos, preservam lideranças e negociam posições que nem sempre são imediatamente compreendidas pelos eleitores.

Nada disso representa, por si só, qualquer irregularidade. Estratégia e pragmatismo fazem parte da atividade política.

Mas a sociedade também possui o direito de compreender por que determinadas decisões aparentemente contrariam os objetivos naturais de uma legenda.

A política visível explica parte do jogo.

A outra parte, muitas vezes, somente aparece depois que os acordos já foram concluídos.


A mesma regra deve valer para todos

Quando um episódio deixa de ser isolado

A legislação eleitoral existe para garantir equilíbrio entre os candidatos e assegurar que a disputa ocorra dentro das mesmas regras para todos.

Recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi multado pela Justiça Eleitoral por pedir votos para Simone Tebet e Marina Silva durante um evento realizado em São Paulo. A decisão ainda pode ser objeto de recurso.

Poucos dias depois, durante a convenção estadual do PT na Bahia, Lula voltou a pedir votos para Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner, Rui Costa e, na sequência, para sua própria candidatura à reeleição.

É justamente essa repetição que transforma o episódio em tema de reflexão.

A questão não é apenas jurídica

Um único episódio poderia ser interpretado como um equívoco de interpretação da legislação ou um excesso de discurso.

Quando comportamento semelhante volta a ocorrer depois de uma decisão da Justiça Eleitoral sobre fato da mesma natureza, o debate deixa de ser apenas jurídico.

Passa também a envolver a postura de quem ocupa o mais alto cargo da República diante das regras que disciplinam o processo eleitoral.

Naturalmente, caberá novamente à Justiça Eleitoral analisar os fatos e decidir se houve ou não infração.

É assim que funciona o Estado de Direito.

O exemplo começa por quem governa

O presidente da República, assim como governadores, prefeitos e todos os candidatos, possui o direito de defender seu projeto político e buscar a reeleição.

Mas também possui a responsabilidade de observar rigorosamente a legislação eleitoral.

Quanto maior o cargo ocupado, maior deve ser o compromisso com o cumprimento das regras.

A democracia não se fortalece apenas pela realização das eleições.

Ela se fortalece quando todos os participantes aceitam disputar o processo dentro dos mesmos limites legais.

A credibilidade depende da igualdade

A coluna não pretende antecipar qualquer julgamento sobre o episódio ocorrido na Bahia.

Essa atribuição pertence exclusivamente à Justiça Eleitoral.

O princípio que merece ser reafirmado é outro.

A legislação eleitoral não pode ser interpretada com maior rigor para uns e maior flexibilidade para outros.

Uma infração isolada pode ser compreendida como um erro.

Quando a mesma conduta volta a ocorrer depois de uma decisão da Justiça Eleitoral sobre situação semelhante, torna-se natural que a sociedade espere uma resposta institucional coerente.

A democracia exige liberdade para disputar eleições. Mas exige, na mesma medida, que a lei seja aplicada com a mesma régua para todos, sem distinção de cargo, partido ou posição política.

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