PERSPECTIVA POLÍTICA

Da representação parlamentar às estratégias eleitorais e ao desafio das contas públicas, três temas que mostram como decisões políticas tomadas hoje produzem efeitos que ultrapassam o calendário das eleições.

Quando a sub-representação também custa caro

Não são apenas quatro cadeiras

Na coluna da última quarta-feira (29), registramos que Santa Catarina continuará elegendo apenas 16 deputados federais nas eleições de 2026, embora o crescimento populacional do estado justifique uma bancada de 20 representantes na Câmara dos Deputados.

A decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a atual distribuição de cadeiras preservou uma situação que reduz a representatividade catarinense no Congresso Nacional.

Mas a consequência dessa desigualdade não se limita ao número de parlamentares.

Cada cadeira também representa recursos

Além da representação política, cada deputado federal possui a prerrogativa de indicar recursos do Orçamento da União por meio das emendas parlamentares individuais.

Para 2026, está previsto um valor aproximado de R$ 40 milhões por parlamentar.

Na prática, essas emendas são destinadas quase integralmente ao estado pelo qual o deputado foi eleito, onde estão sua base política, os municípios que representa e a população que lhe confiou o mandato.

Isso significa que quatro deputados a menos representam, também, uma redução expressiva na capacidade de Santa Catarina disputar recursos federais.

O custo da desigualdade

Considerando os valores previstos para 2026, quatro deputados federais poderiam indicar aproximadamente R$ 160 milhões por ano em investimentos.

Ao longo de uma legislatura de quatro anos, esse potencial alcançaria cerca de R$ 640 milhões, caso os valores permanecessem no mesmo patamar.

Mais do que números, trata-se de recursos que podem financiar hospitais, escolas, obras de infraestrutura, equipamentos públicos e inúmeras outras demandas dos municípios catarinenses.

Cada cadeira na Câmara representa muito mais do que um voto nas sessões.

Representa também presença nas comissões, força política nas negociações e capacidade de disputar recursos para o estado.

Uma questão de justiça federativa

Santa Catarina cresce acima da média nacional, amplia sua população, fortalece sua economia e aumenta sua contribuição para o desenvolvimento do país.

Mesmo assim, continua sendo representada por uma bancada inferior àquela que sua população justificaria.

Uma federação equilibrada pressupõe que todos os estados sejam tratados com justiça, tanto na representação política quanto nas oportunidades de acesso aos recursos públicos.

Quando um estado permanece sub-representado, perde voz nas decisões nacionais e também reduz sua capacidade de trazer investimentos para sua população.

A discussão, portanto, vai muito além das quatro cadeiras.

Ela diz respeito ao princípio da equidade federativa.

Se cada cadeira representa voz política e capacidade de atrair recursos para o estado, quanto custa a Santa Catarina continuar tendo menos representantes do que sua população justifica?


Quando não participar também faz parte da estratégia

Uma disputa dentro da própria disputa

As eleições presidenciais brasileiras são realizadas em dois turnos. Para chegar à etapa final, entretanto, cada candidato precisa inicialmente superar todos os demais concorrentes.

O presidente Lula ocupa praticamente sozinho o principal espaço do campo progressista entre os nomes mais competitivos. No outro lado da disputa aparecem Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, candidatos que se apresentam com diferentes posições dentro da centro-direita e da direita.

Embora todos disputem a Presidência, existe também uma competição particular entre aqueles que procuram conquistar parcelas semelhantes do eleitorado.

Antes de enfrentar Lula em um eventual segundo turno, esses candidatos precisarão decidir entre si quem ocupará esse espaço.

O alvo mais provável

Em uma disputa com vários nomes de um mesmo campo político, o candidato mais bem posicionado tende naturalmente a se transformar no principal alvo dos demais.

A lógica é simples.

Para chegar ao segundo turno, não basta criticar quem está no lado oposto. Também é necessário retirar votos daquele concorrente que ocupa o espaço pretendido.

Caso Lula não esteja presente em um debate, a tendência seria de que boa parte das críticas se concentrasse em Flávio Bolsonaro, especialmente se ele continuar sendo o candidato mais competitivo entre os nomes desse campo político.

Nada existe de anormal nisso.

É a própria lógica de uma eleição em dois turnos.

Uma ausência que desarma o confronto

Lula avalia limitar sua participação nos debates do primeiro turno. Trata-se de uma estratégia de preservação.

A equipe de Flávio Bolsonaro passou a verbalizar uma resposta igualmente estratégica: o senador participaria apenas dos debates em que Lula estivesse presente.

Com isso, Flávio evitaria entrar sozinho na posição de principal alvo e reduziria as oportunidades para que seus adversários do mesmo campo político o confrontassem diretamente.

Na prática, seria uma aplicação eleitoral daquele conhecido raciocínio:

deixe que eles disputem entre si.

Até a cadeira vazia produz efeitos

A estratégia possui riscos. Ao deixar de participar, um candidato também entrega espaço e visibilidade aos concorrentes, que podem apresentar propostas, construir suas próprias narrativas e conquistar eleitores sem enfrentar diretamente aquele que está à frente.

Participar pode fortalecer uma candidatura.

Ausentar-se pode protegê-la.

Não existe novidade ou irregularidade nisso.

Trata-se apenas da estratégia atuando sobre a dinâmica eleitoral.

Em uma eleição, às vezes, uma das decisões mais importantes não é o que dizer, mas escolher com quem vale a pena debater.


Quando economia e política se encontram

Os números não participam da eleição

O estoque da Dívida Pública Federal aumentou aproximadamente R$ 237 bilhões somente no mês de junho.

Dividido pelos 30 dias do mês, o crescimento corresponde a uma média próxima de R$ 7,9 bilhões por dia.

Os números não possuem preferência ideológica, não participam das campanhas e não desaparecem quando termina a eleição.

A política encontrará a economia

O Brasil escolherá neste ano quem comandará o país a partir de 2027.

Durante a campanha, candidatos apresentarão propostas, prioridades e diferentes projetos de governo. Esse é o papel da democracia.

Mas, independentemente do resultado das urnas, o próximo presidente encontrará uma realidade que não poderá ser ignorada: o desafio das contas públicas.

A eleição definirá quem governará o Brasil.

Não eliminará os problemas que aguardam o futuro governo.

Não haverá solução sem escolhas

Independentemente de quem vencer as eleições, o próximo governo terá de enfrentar esse cenário.

Isso exigirá decisões difíceis, controle dos gastos, revisão de prioridades e medidas capazes de devolver equilíbrio às contas públicas.

Nenhum governante gosta de anunciar medidas impopulares.

Mas adiar decisões necessárias costuma tornar os problemas ainda maiores.

O Brasil dificilmente encontrará uma solução simples para esse desafio.

Se ajustes forem indispensáveis, eles precisarão ser explicados com transparência e conduzidos pensando não apenas no presente, mas também nas próximas gerações.

O tempo das escolhas

A política costuma trabalhar com calendários eleitorais.

A economia, porém, segue seu próprio ritmo.

Enquanto campanhas podem adiar debates difíceis, os indicadores continuam avançando todos os dias.

A política decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto.

A economia lembrará, já no primeiro dia de governo, que os problemas não foram suspensos durante a campanha eleitoral.

A eleição escolherá um presidente. Mas será a realidade das contas públicas que determinará o tamanho dos desafios que ele terá de enfrentar.


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