O Brasil terá que fazer escolhas. E elas serão dolorosas.

Antes mesmo de investir em novas obras e programas, a maior parte dos recursos públicos já está comprometida com despesas obrigatórias e juros da dívida.

Imagine uma família que receba R$ 10 mil por mês.

Antes mesmo de comprar alimentos, pagar água, luz, educação dos filhos ou fazer qualquer investimento para melhorar sua qualidade de vida, ela já tivesse comprometido quase toda essa renda com prestações antigas e despesas fixas.

Sobraria muito pouco para construir um futuro melhor.

Guardadas as devidas proporções, essa é uma boa forma de compreender a situação das contas públicas brasileiras.

Existe um dado que ajuda a dimensionar esse desafio.

Somando União, estados e municípios, as despesas com servidores ativos, aposentados e pensionistas devem alcançar aproximadamente R$ 1,7 trilhão em 2026.

Ao mesmo tempo, o pagamento dos juros da dívida pública deverá consumir algo entre R$ 1 trilhão e R$ 1,1 trilhão.

Juntas, apenas essas duas despesas representam cerca de R$ 2,8 trilhões.

E a conta não termina aí.

Ainda existem despesas obrigatórias como saúde, educação, custeio da máquina pública, precatórios, emendas parlamentares, manutenção da estrutura do Estado e inúmeros outros compromissos legais.

Ou seja, antes mesmo de pensar em construir novos hospitais, duplicar rodovias, ampliar universidades, investir em segurança pública ou criar novos programas sociais, grande parte da capacidade financeira do Estado brasileiro já está comprometida.

Essa realidade explica por que tantos governos anunciam projetos ambiciosos, mas encontram enorme dificuldade para executá-los.

O problema não é apenas arrecadar.

O problema é que praticamente todo o orçamento já possui destino definido.

Diante dessa realidade, o Brasil possui poucos caminhos.

O primeiro é fazer a economia crescer muito mais do que cresce atualmente. Quanto maior a atividade econômica, maior a geração de empregos, de renda e de arrecadação, sem necessidade de aumentar impostos.

Esse seria o melhor cenário.

O segundo caminho é aumentar a carga tributária. Historicamente, essa solução já foi utilizada diversas vezes. Entretanto, o Brasil já possui uma das maiores cargas tributárias entre os países emergentes, tornando esse caminho cada vez mais difícil.

A terceira alternativa é continuar aumentando a dívida pública. O problema é que quanto maior a dívida, maiores tendem a ser os juros pagos nos anos seguintes, criando um ciclo que reduz ainda mais a capacidade de investimento do Estado.

Existe ainda uma quarta opção.

Talvez seja a mais difícil politicamente, mas também a mais necessária: tornar o Estado mais eficiente.

Isso significa combater desperdícios, revisar estruturas, eliminar despesas desnecessárias, aumentar a produtividade da máquina pública e fazer mais com os recursos já arrecadados.

Infelizmente, essa costuma ser a alternativa que encontra maior resistência, porque exige reformas, enfrenta interesses consolidados e produz desgaste político no curto prazo.

O período eleitoral torna esse debate ainda mais delicado.

É muito mais fácil prometer novos programas do que explicar como eles serão financiados.

Mas a economia não funciona com promessas.

As contas precisam fechar.

Quem defende mais investimentos deve explicar de onde virão os recursos.

Quem propõe reduzir impostos precisa dizer quais despesas pretende diminuir.

Quem promete ampliar programas públicos deve mostrar como evitará o aumento da dívida.

O Brasil continua sendo um país com enorme potencial econômico.

Mas potencial, por si só, não paga contas.

Mais cedo ou mais tarde, o país terá de decidir qual caminho pretende seguir.

Crescer mais.

Aumentar impostos.

Ampliar a dívida.

Ou enfrentar o desafio de modernizar o Estado e melhorar a qualidade do gasto público.

Adiar essa discussão apenas torna a conta maior para as próximas gerações.

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