O primeiro debate e a velha estratégia de desconstruir o adversário
Encontro promovido pelo Grupo ND abriu a temporada de debates em Santa Catarina, mas ataques e críticas ao atual governo ocuparam espaço maior do que propostas objetivas para o futuro do estado

O Grupo ND realizou neste sábado (8) o primeiro debate entre candidatos ao Governo de Santa Catarina nas eleições de 2026.
Participaram João Rodrigues, Gelson Merísio e Ralf Zimmer. O encontro marcou oficialmente o início de uma etapa importante da campanha: o momento em que os candidatos têm a oportunidade de explicar diretamente ao eleitor o que pretendem fazer caso recebam a responsabilidade de governar o estado.
A expectativa, portanto, era simples: conhecer propostas.
O resultado ficou muito distante disso.
Durante boa parte do debate, as críticas ao atual governador e candidato à reeleição, Jorginho Mello, ocuparam posição central. Também voltou ao debate o episódio ocorrido em julho, quando o governador se envolveu em uma discussão com uma liderança indígena durante visita às obras da Barragem Norte, em José Boiteux. O episódio teve ampla repercussão e chegou a ser objeto de análise preliminar pelo Ministério Público Federal.
É legítimo que adversários cobrem aquilo que consideram erros de uma administração. Essa é uma das funções de uma campanha eleitoral.
O problema começa quando desconstruir quem está no governo passa a ocupar mais espaço do que explicar aquilo que se pretende fazer de diferente.
Em alguns momentos chegaram a abordar temas como saneamento básico e educação. Porém, faltou transformar essas discussões em propostas suficientemente concretas para que o eleitor pudesse sair do debate sabendo quais seriam as prioridades, os projetos, os custos e os caminhos defendidos por cada candidatura.
Ralf Zimmer acabou chamando atenção em diferentes momentos pelo uso da ironia, acrescentando um componente de confronto e humor ao encontro.
Tudo isso pode produzir bons cortes para redes sociais.
Pode gerar manchetes.
Pode alimentar discussões durante alguns dias.
Mas não responde à pergunta fundamental de uma eleição: o que cada candidato pretende fazer com Santa Catarina?
O estado possui problemas concretos.
Rodovias precisam de investimentos, a infraestrutura acompanha com dificuldade o crescimento populacional, municípios enfrentam desafios de saneamento, saúde e mobilidade, a segurança pública exige atenção permanente e a economia precisa continuar criando condições para competir e crescer.
É sobre isso que os debates deveriam tratar prioritariamente.
O eleitor não precisa apenas saber por que determinado candidato considera seu adversário ruim.
Precisa saber por que ele próprio seria melhor.
Qual será o projeto para infraestrutura?
Quais serão as prioridades na educação?
O que será feito na saúde?
Como serão financiadas novas propostas?
Quais metas poderão ser cobradas ao final de quatro anos?
Essas respostas são muito mais importantes do que ataques pessoais, frases de efeito ou episódios construídos para ganhar repercussão nas redes sociais.
A política brasileira parece ter descoberto que desconstruir o adversário é mais fácil do que construir uma proposta.
E Santa Catarina corre o risco de repetir exatamente esse roteiro.
Ainda teremos outros debates e existe tempo suficiente para que as campanhas apresentem conteúdo mais consistente.
Esperamos que façam isso.
Porque, se o primeiro encontro servir de trailer para aquilo que veremos durante toda a campanha, o eleitor terá novamente de enfrentar a mesma velha ladainha: candidatos explicando por que o outro não serve e deixando para a população adivinhar aquilo que eles próprios pretendem fazer.
Debate eleitoral deveria ajudar o cidadão a escolher um projeto.
Quando termina e o que permanece são apenas ataques e provocações, quem perde não é um candidato.
É o eleitor.
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